Tempo para tudo
(2013, não revisto)
I – Lisboa, menina não moça
Um vento abafado entrou pela janela. Acordou.
Quatro da manhã.
Dormia aos salpicos, como o suor, um calor insuportável que varria Lisboa.
Levantou-se.
Abriu o frigorífico, encostou o corpo nu ao barulhento aparelho, saia mais
ruído do que frio.
Acercou-se da varanda e deteve-se na calma noturna da capital,
ensurdecedoramente silenciosa.
Um semáforo intermitente refletia-lhe a nudez, ora rubra ora escura.
O polícia frente ao Banco observava-o.
Desviaram os olhares.
Vestiu algo, entrou para o carro.
As avenidas ofereciam-se na nudez do verão.
Pena seres gaja, gritou da janela, pena terem murchado os teus cravos nas
águas furtadas, pena teres seios de colinas que não quero beijar. Pena seres moça.
Vagueou pelas ruas mais sombrias, até ser aurora.
15 de agosto, sol da manhã, escaldante, sem sono, fatigado, o país já ardia,
o normal!
Os sem-abrigo na sua rotina de cobertores e papelões.
Cobertores …
Lisboa menina e moça! Nem uma coisa, nem outra.
Lisboa puta de rua, desdentada, sem clientes.
II – A sorte pequena
Uma bica, por favor, chávena fria, hoje abafa!
Parece África, já lá esteve?
Nem perto.
Deveria.
Nem de longe, prefiro terras de cara lavada, já basta isto.
Eu estive na Guiné, aquilo sim era calor, de sufocar, de mexer com os
nervos de um homem, de não mover uma palha, só a humidade agarrada à roupa, a
roupa ao corpo, o senhor não é desses tempos de guerra, saíamos das berças para
o meio do mato, rodeados de pretos, espingarda em punho, mal conhecíamos a
metrópole e achávamo-nos sem saber como no meio do continente negro.
Mas tinham o vosso momento na Consoada para dar as boas festas à família na
televisão.
Riu-se, arrependeu-se.
Era o que pensavam cá na metrópole, um bando de analfabetos de olhos
esbugalhados em frente às câmaras, a cumprir as ordens do Salazar. Para mim foi
importante.
A guerra?
Não, as boas festas, a minha mãe que Deus tem emocionada a ver-me, vivo e
tudo, mesmo a preto e branco, no café da aldeia, não tinha posses para
televisão, ninguém tinha, tudo se passava na taberna do Caetano, foi lá que também
soube da revolução, contra o outro Caetano, preso, os tanques na rua, aqui em
Lisboa, ela saiu a correr para a igreja do lugarejo, a pensar que com o prior se
saía mais bem informada.
E saiu?
Saiu a correr para a Junta de Freguesia, que o padre, cauteloso, já partira
para Espanha.
E voltou?
O padre?
Sim.
Não, dizem que morreu lá para Salamanca, numa casa de alterne. Uma guerra
resumida a boas festas, foi pelo que lutámos.
Olha a lotaria! Anda amanhã à roda.
Vai a sorte grande?
Vende taludas?
Não é o el gordo, mas rende bem.
Já me chegava a sorte pequena …
Só sai a quem joga.
Venda-me uma cautela, tenho tão poucas.
(Este mês vai pedir mais dinheiro por causa das férias do menino. Puta de
vida.)
III – Nua e crua
Bom dia António.
Bom dia Mafalda.
Não foi à Caparica? Olhe as minhas marcas.
Seguiu sem olhar.
Colegas em férias, pausa no futebol e nos comentários das mamas da Mafalda.
Roía-o em vida aquele trabalho.
Uma noite de bebedeira emprenhara-lhe uma mulher, o destino e o curso, emprego
arranjado à pressa para suportar uma família não desejada, alguns anos de
mentiras, com direito a natais, dois meninos, o seu, o do céu, depois o
calvário, a verdade, nua e crua custa mais do que uma mentira, pesa mais do que
a cruz, pai, pai, porque me abandonaste.
Agora só, pouco fodido, mal pago, de resto nada!
IV – Vida de cão
Compro um cão, pior é cagar e mijar, todos os dias, duas vezes ao dia.
Habituamo-nos os dois. Pior esta solidão!
O Marquês marimbou-se nas laterais, trabalhou para dentro, fugiu do Tejo,
esta merda cresceu em direção à Buraca.
Virou-se.
Viu o cauteleiro.
Viu o sapato enterrado em caca de cão.
Só lhe pode dar sorte, sorriu, engasgado, culpado por ter forçado a
reviravolta.
Só me faltava esta!
Só tem que vir comigo.
Só obrigado!
Não me agradeça ainda.
??
Empurrou-o para dentro de uma tasca, o cheiro a bifanas, o cheiro a iscas,
o mosquedo, o calor.
Caetano, olha aí, este senhor precisa de usar as toilettes, arranja uma
bacia e um pano molhado, o amigo teve um pequeno acidente.
Caetano?!
Esmola, esmola por Santa Luzia.
Desviou-se para que entrasse o cego.
Isto hoje tem um cheiro esquisito Caetano!
Manel, Manel, põe-me o cão lá fora ... olha a ASAE.
(Não compro o cão, mato o cão, o cauteleiro, o Caetano, o ceguinho)
Esmolinha, esmolinha ….
Cala-te Manel que só cá estamos nós, não leves a mal, a malta das cartas já
saiu e estranjas hoje, nada.
Ficaram os quatro em silêncio, só a ouvir o lume brando e o salpico do óleo
nas frigideiras.
Seis da tarde.
Como sabe? Não tem relógio.
Ao ladrar do cão são seis horas. O cão ladra às seis em ponto. Ouça a Sé!
Ouve? Seis em ponto. É isto desde sempre. Desde sempre ou desde que o cão anda
com ele ou ele com o cão. Não sei quem anda com quem.
E antes do cão?
Era uma cadela, mas essa não ladrava as horas.
Só ladra às seis?
É para se irem embora. Vivem no Martim Moniz. Se o cego não abala, mija à
porta do Caetano, sagradinho!
Possa ….
Sagradinho!
Como é que se chama?
O cego? Manel.
Não, o cão …
Manel, como é que se chama o cão?
Guadiana, é escusado gritar, eu ouço bem.
Foi-se o cego, andando, arrastando um acordeão, puxando o cão ou puxando-o
o cão a ele. Iam a par e passo, afinal.
É bom cão, mas mole.
Com este calor …
Eu não me posso dar a molezas, tenho que governar o estabelecimento, mas trespassava,
se não fosse esta crise trespassava, com cego, cão e cauteleiro.
Mau Caetano, mau!
Desculpa lá, não é nada contra as tuas taludas, mas trespassava, voltava para
a terra, morria em paz, aqui não se morre feliz.
E ficaram os três em silêncio, só com o estalar das moscas a eletrocutar-se
no aparelho por cima da porta.
Foi uma grande invenção …
Meus senhores, eu vou indo!
Veja lá jovem, isto não há coincidências, dizem que dá sorte pisar aquilo,
olhe que eu não sou de insistir, o Caetano é testemunha.
Sou sim, não é de maçar, apregoa um pouco alto, mas não chateia ninguém. Não
vá o diabo tecê-las, compre lá a cautela ao homem.
Não vá o diabo tecê-las, já as teceu que bastasse, à cautela, dê lá mais uma,
eu nem subsídio de férias, malditos cortes!
E os tintos?
Calma Caetano que essas contas são do meu rosário.
E ficaram só os dois em silêncio, na rua, à calma.
Esse casaco não é quente para andar na Baixa a apregoar a lotaria em pleno
agosto?
Anda um homem mais composto.
Mas há-de ser quente ...
Apregoar em mangas de camisa …
Ainda assim … estão quase quarenta graus.
O que mata o frio …
Mata o calor …
Sorriram sem se despedir, seguindo a vida em direções contrárias, pelo menos
assim parecia.
(E este mês vai pedir mais dinheiro por causa das férias do menino. Vida de
cão!)
V – Vida Perdida
Repetia-se este pesadelo, duas, três noites seguidas, tendo de real a
respiração que lhe faltava.
Devo ressonar. Ressono tão violentamente que me afogo em mim. Ninguém mo
diz. Não há ninguém.
Espreguiçou-se na cama, um fim-de-semana mais, uma semana a menos, outra
para vir, para nada.
Olhou de relance para a moldura, só pelo canto do olho, evitava sempre o
confronto direto, como se de sagrado se tratasse.
No retrato via-se o uniforme de fuzileiro, dentro dele o André, cheio de
vida e já morto.
O seu excesso de vida inebriara-o na faculdade, a sua despreocupação
espantara-o, o seu louro enlouquecera-o, o seu à vontade acanhara-o, a sua
dedicação a ele surpreendera-o, um quase provinciano, enredado num amor que
desconhecia, que temia sequer imaginar, que lhe punha as mãos em suor, por cada
minuto de atraso, e vinha, sempre, e voltava, e arrastava-o para a sua casa,
para a sua família, para a sua mãe também loura que acendia cigarros uns nos
outros e que gostava de os ver juntos, dizia, não há quem vos resista, não
sabia se sabia.
E copiava por si nos exames, esquecia-se das aulas, perdia-se nas noites, fazendo-o
perder-se a ele também, descontrai, não posso, o meu pai mata-me, e riam-se,
abraçavam-se, esqueciam-se de tudo e o André esqueceu-se de adiar a tropa, partiu,
aquartelou, ligava dia sim dia sim, sempre feliz, sempre a dizer que faltava
pouco, que o tempo passa a correr, que vamos ficar sempre juntos, e ele enchia-se
de saudades das noites de sono profundo em que o sentia ao seu lado, tão
seguro, menos quando o seu abraço o apertava forte, demais, como um cadeado,
como se algures também tivesse medo, nunca soube bem de quê. E ficavam assim,
como se fossem só um.
Uma manhã o telefone tocou. O irmão do André transmitiu-lhe o contratempo
que o vitimara, algures na Turquia, no terreno, uma manobra operacional, nato, uma
cerimónia no dia seguinte, por volta das quatro da tarde, algo mais para a
família, claro, mas a mãe entendeu que ele teria gostado de saber.
Sabia, afinal.
Levantou-se, apertou o retrato contra o peito, deitou um olhar tímido para
o crucifixo que o perseguia desde criança por cima de qualquer que fosse a sua
cama, que o vira multifacetado, por vezes desviava Ele o olhar.
Olhou a fotografia, saudade, ira, dor, como teria sido, chorou como não
tinha chorado por ele há mais de dez anos, como não o tinha feito pelo pai há
cinco, como não havia feito nunca, julgou.
Chorou indiferente à sua maturidade, à sua condição de homem, de pai de
filho, de adulto, deixando que os soluços se confundissem com a água de um
duche frio que pretendia lhe lavasse o corpo e a alma. Só lavou o corpo.
Olhou-se nu, perfeito, no físico, no espelho, vestia-se de forma
desajeitada, para não lhe notarem as formas, para o deixarem em paz. Olhou-se
na cara, ainda mais perfeita, que não tinha como esconder, senão não sorrindo,
os olhos muito verdes sempre no chão.
Deixou-se estar em casa, deixou passar o tempo, deixou passar a hora de
ligar ao filho, deixou-se ficar, não tinha dinheiro para as férias do menino.
VI – Sorte Grande
Espreitou pelo buraco da porta que tornava as pessoas ridiculamente baixas
e cómicas. Raramente se fazia ouvir aquela campainha.
Camisa às florzinhas brancas e pretas, saia preta, um carrapito bem
arranjado, à antiga.
Abriu com o à vontade de quem deixa entrar a vizinha velhota do lado.
(Se calhar Jeová)
Posso ajudar?
Julgo que sim. Tem um bocadinho?
Estou um pouco à pressa, mas sim, se for rápido, jogou à defesa, coitadas, testemunhas,
a palavra de Deus leva com portas na cara, todo os dias.
Não se apoquente, são cinco minutos, sou a viúva do cauteleiro.
Faleceu?
(Um minuto de silêncio)
A semana passada, de repente, não esperava ... tirou um lenço branco
imaculado, com um pequeno bordado, duas letras enlaçadas, certamente o nome dos
esposos, deu um toque no canto de cada olho com a ponta do pano.
Foi à cozinha buscar um copo de água para dar espaço a uma eventual
lágrima.
Assim de repente …
Assim de repente! Oxalá chegue a minha hora também, para nos juntarmos.
Filhos?
Não tivemos essa sorte.
Convidou-a a sentar-se, um silêncio estranho, por segundos, ele gaguejou
algo sem sentido, sobre a vida, sobre a vinda dela.
Não se assuste, não venho pedir nada.
Despreocupou-o.
Uma das cautelas foi sorteada e ando à procura do comprador. Anos a
apregoar por Lisboa e nunca assistiu à sorte, que saiu na semana em que ele
também saiu do meio de nós. A minha alegria era encontrar a pessoa. Ando pelas
zonas por onde andava ele, na casa de pasto do Caetano falaram-me de si e
doutros senhores. Visito os que consigo encontrar. Que número tem? Guardou a
taluda?
Guardei, como sabe o Caetano onde vivo?
Ele e o cego sabem tudo.
O cego?
Tudo vê, à maneira dele, não se sabe.
Não será cego ...
É, de nascença, seja eu ceguinha.
Vou procurar naqueles papéis.
Deitou mão de uma pilha por arrumar. Aqui está!
Fixou a mulher com uma leve vontade de se aproximar dela. Lembrava-lhe a
sua mãe, menos rural, mas as mesmas camisas às flores e cabelo apanhado, a
caminho de uma missa ou de um mercado, sapatos largos para lhe caberem os calos
ou as botas de borracha, quando a chuva enlameava os campos. Lembrava-se dos abraços
que nunca lhe dera, nunca tentados, receosos de uma recusa, porque mãe de sete
filhos pouco lhe sobra o corpo e a alma para carinhos, ainda menos ao último.
Trazia a face sempre fria, que se deixava beijar rápido, para logo falar do
tempo ou do preparo da janta. Deixou para sempre frio o olhar quando soube da
sua separação, dos motivos. Amaldiçoou a capital.
Tivesse ficado por cá, decerto não se perdia por Lisboa. Um homem é um
homem. No campo um homem é um homem. É como quem me mata!
Lembrava-se quase todos os dias destas frases secas, pronunciadas com o
sotaque do norte que nunca perdera quando viera casar ao Ribatejo, com um
parente afastado, que andava na lavoura perto de Constância, por onde se
deixaram ficar. Frente ao pai, frente aos irmãos. Aquelas palavras pareciam
finas agulhas que lhe espetavam o peito. Gelou. Lembrava-se de ter olhado para
o quadro de Nossa Senhora das Dores, por cima do sofá, e sentir vergonha, mais
do que penas.
E nunca mais disse uma palavra sobre o assunto, a sua mãe. Nem
ele.
Vamos ver então essa sorte, disse tirando-lhe o bilhete delicadamente da
mão e memórias antigas do pensamento.
Sorriu. Um sorriso breve mas sorriso, deixando sair um leve suspiro de
tarefa cumprida.
Conseguiu, disse, voltando a quase sorrir.
Consegui como?
O meu marido conseguiu vender a sorte grande, ao fim destes anos todos! É
uma alegria enorme, oxalá nos esteja a ver.
Vender a sorte … a mim? Impossível! Tem a certeza?
Não me enganaria num assunto tão sério! Conseguiu, sorte a sua, que Deus o
guie agora a si e lhe dê descanso a ele.
Levantou-se.
Espere, disse tocando-lhe no braço, ao de leve, fique um pouco, tomamos
algo, um chá.
Tenho de ir andando, Lisboa ao sol-posto, faz-se noite e eu na rua.
Eu levo-a a casa.
Não me leva, a mal, digo, vou indo, não se incomode, aproveite esta boa
partida que a vida lhe pregou, goze bem e ajude o seu menino.
Como sabe dele?
Pelo retrato, naquela escrivaninha. É muito bonito. Como se chama?
André!
Dirigiu-se à porta, abrindo-a. Ela despediu-se com algo semelhante a uma
ligeira vénia, ele deixou-se ficar especado!
Saiu-me? Saiu-me o quê? Cem euros? Que raio me saiu?
Correu pela escadaria abaixo e saiu ele no seu encalço.
Desculpe, desculpe!
Parou para respirar.
Falamos de quanto? Isto da taluda.
Uns 500, é o primeiro prémio.
Contos? Euros?
Contos? Que saudades! Euros, 500 mil euros, mas o Senhor confirme na Santa
Casa. Dizem que também está na internet. Igual aos impostos, mas para receber,
embora também tenha que pagar. Não sei, nunca vi a internet.
Emudeceu e viu-a partir de novo. Ficou a olhar para o seu andar vagaroso,
indiferente à sua fortuna. Conteve-se, queria abraçá-la.
Acedeu e confirmou. O número ganhador no site da Santa Casa. 500 mil. 500
mil euros.
Que puta de sorte, grande!
VII – A pátria
O rato passeava no ecrã do PC. Não lhe saia uma única palavra. Não sabia
que escrever à mãe do filho.
Largou o teclado, como largara o emprego e a casa onde vivera anos a fio.
Largou a correr do hotel onde pernoitava há duas semanas e dirigiu-se para
as paralelas da Baixa.
Era o Natal da Troika, não da Santíssima Trindade. O único advento era
ratings. O léxico era a dívida soberana e as luzes de Lisboa tinham-se perdido.
Entrou no tasco da sua sorte.
O Caetano não o reconheceu à primeira, olhar absorto, depois sim.
Apeteceu-me um dos seus tintos.
O melhor da baixa, meu caro amigo, o melhor da baixa. É lá da terra. Então
essas mudanças?
Mudanças?
Mudou-se de casa, soube, disse-me uma senhora da segurança social, é sua vizinha.
Era arrendada, arranjei outra mais barata, perto do novo emprego. Nunca
reparei nessa vizinha.
Em Lisboa não se repara.
E o acordeonista?
O Manel cego? Está mal, foi para um lar de idosos ali na Ajuda, fui
visitá-lo, não me reconheceu, falou do Marceneiro, da Hermínia, não volto lá, dá-me
pena.
E o cão?
Foi-se!
Como o cauteleiro?
Esse foi-se de vez, coitado, Deus o tenha. A senhora dele passou por cá!
Queria saber de alguns clientes do marido, da última sorte, meia transtornada,
pobre criatura. Dizia que ele tinha conseguido, mas estava abalada e não me
inteirei do que queria. Andava perturbada, pois claro.
Pois. Onde vivia esse homem?
O cego ou o cauteleiro?
O cauteleiro.
Em Campo de Ourique, a senhora é porteira num prédio lá para o Santo
Condestável, o número certo não sei, já soube, agora esquece-me tudo.
Faz falta aqui o cego.
Lá isso faz. O cauteleiro também. Lisboa está sem graça, a baixa parada. Luanda,
se fosse novo ia para Luanda, aquilo deve ser uma Lisboa africana, com alegria,
é o que dizem.
Aguente-se por cá pela pátria Sr. Caetano.
Aguento, não sei é se ela nos aguenta a nós, está ferida amigo, muito
ferida com o povo.
Com o povo não será.
VIII – O 28
Descobria outra capital no hotel onde se instalara, sorrisos estrangeiros
provocados pelo céu de Lisboa, as roupas de marca da Avenida, os ambientes de lobbies de várias estrelas, googlava destinos exóticos com que
sempre sonhara, mas não descobrira ainda a vida em seis meses de riqueza.
Calara-se quanto à sorte. Adiava a visita à mãe, cumpria as visitas ao filho
e não exagerava nas diferenças do antes. Simples passeios ao Zoo ou pelo Parque
das Nações, como sempre, um sábado sim, um sábado não, também nunca tinha
reivindicado mais, o miúdo falava do tio Luís, companheiro da mãe, que o
impregnava de masculinidade futebolística e supria as suas faltas nos trabalhos
de casa, todos os dias, como um verdadeiro pai. Sentia as visitas de sábado
como uma obrigação, para ambos. Cumpria calendário com um filho que amava …sem
paixão.
Por um filho devia-se estar apaixonado toda uma vida.
Entrou no 28, acomodou-se entre os turistas e a ladroagem.
Caras pálidas de europeus, encarcerados onze meses em ruas cinzentas,
arrumadas, chuvosas, góticas, ganhavam cores ao sol português, ao olhar das
fachadas mal cuidadas, das pequenas igrejas ao virar da esquina e do Tejo
sempre que podia à espreita, grande no seu leito, mas tímido no toque à cidade.
Era reservado o rio ibérico, ao não querer tocar a urbe.
Era temerosa esta pelas memórias que lhe traziam os tempos em que enfurecido
galgou os seus sete seios, derrubando homens e fés.
Que rezem as crónicas, só por uma vez se atreveu o Tejo a tanto.
Ali estava ele, à guinada de uma curva, ao cimo de um miradouro, brilhando
para loiros do norte ou para os bronzeados de Vera Cruz, agora feitos turistas,
no doce bailar da língua que o mesmo rio vira partir há quinhentos anos.
Não descartava o Brasil nos seus adiados planos de viagem. Precisava de ver
o imenso Portugal, de simplificar a língua, a vida, de soltar o corpo, o
espírito, de se perder no Rio de Janeiro.
Um guitarrista dizia uns versos durante o percurso. O fado gemia como gemia
o elétrico, enquanto subia S. Bento.
Pensou no Primeiro-ministro, rodeado por muros e por défices crónicos.
Vê-se grego.
Saltou na Estrela e fumou um cigarro na escadaria da basílica.
A câmara ardente não lhe saia da cabeça sempre que se cruzava com a esta
igreja.
Subiu a Campo de Ourique, ao Santo Condestável, com a sua arquitetura
entediante, sentiu-se deprimido.
Tocou à campainha, pouco à vontade.
Ouviu uns passos arrastados, depois de uma espreitadela pelo óculo da
porta, inversão de papéis, uma voz que lhe pediu para esperar um pouco, que lhe
pareceu uma eternidade.
Que direi, pensava, com vontade de fugir daquela entrada de prédio frio. Em
Campo de Ourique não compro apartamento, talvez na Linha, para ver o mar,
talvez em lado algum.
Entre, por favor, não esperava revê-lo, desculpe a demora, não contava com
visitas.
As desculpas são minhas, incomodar sem avisar, não tenho o número, poderia
ter telefonado, atrevi-me, disseram-me que a senhora vivia no Santo Condestável,
não foi difícil encontrar, perguntei no quiosque ali da esquina.
O quiosque da Amélia, conhecemo-nos há muitos anos, também vende cautelas,
está velha coitada, das pernas pior que eu, mas tem que trabalhar, hoje tem
sempre que se trabalhar, até morrer, entre, sente-se que lhe trago um
cafezinho.
Não quero incomodar.
Não incomoda.
Voltou tremelica com uma chávena de café e um pratinho com uma fatia de
bolo.
Agora parece que faço tudo mais devagar. Com açúcar, perguntou enquanto o
deitava já na xícara.
Sim, tomo sempre com açúcar, o que era a sua primeira mentira para com a
senhora.
Já descobriu?
Já descobri?
Já descobriu que o dinheiro não traz a felicidade, não é?
Não tinha grande expetativa a esse respeito.
Que o trás?
Devo-lhe esta cortesia, portou-me a fortuna.
Nesse caso, como gosto de cortesias, tenho muito gosto. E o menino como
está?
Vou indo.
Não, o seu filho. Terá ficado contente, ele, com a sorte do pai?
Vai bem na escola e é educado, quanto à sorte ainda não sabe.
E porque não? Não terá ele direito a partilhar?
Penso que sim.
Tanta hesitação. O dinheiro não traz a tal felicidade, mas ajuda. A maior
infelicidade do homem é pensar que será bem-aventurado um dia. Quando dá por
isso é tarde!
A senhora foi feliz? Desculpe a pergunta …
Fui, mas também creio que só agora o sei.
Amavam-se? Desculpe ……
No nosso tempo as coisas eram diferentes, conheci-o no cais de Alcântara
quando ele embarcava para o Ultramar, fazíamos isso, nós mulheres jovens e
solteiras, íamos até lá despedir-nos dos nossos soldados que partiam para
combater pela pátria, lutavam pelo nosso país nas terras que vieram a ser dos outros,
morria-se pelo que não era na realidade nosso, depois voltaram, com a
revolução, brancos e pretos, tudo de um dia para o outro, ainda me assustei
nesses tempos, Lisboa mudou da noite para o dia.
Para melhor?
Não sei. Eu gostava mais do antigamente. Não costumo dizer isto a ninguém,
que parece mal. Mas era tudo mais limpo e educado. Havia aquelas coisas da
censura, da PIDE, mas a nós nunca nos aborreceram. Agora diz-se tudo. Diz-se
demais e os políticos não têm sido grande coisa.
E depois do cais de Alcântara?
Começámos a escrever-nos. Fui madrinha de guerra dele, voltou são e salvo e
casámos. Foi a história de muita gente naquele tempo, não sou muito original.
Há sempre alguma originalidade … algures.
Nasci nas Beiras, como a Amália, sorriu. A gripe espanhola levou a minha
mãe muito cedo. O meu pai, homem do campo, não podia arcar com 6 filhos, quatro
rapazes e duas raparigas. A nós, ainda moças, mandou-nos para Lisboa, servir.
Eu tinha 12 anos e mal sabia ler e escrever. Fui para a casa de um Senhor Juiz
Conselheiro, ali à Lapa. A mulher dele, sem filhos, educou-me não só para servir,
como para me tornar alguém. Assim o dizia. Mimou-me demais e fez-me pensar que
podia ser quem não era. Quando o meu marido regressou de África dispensou-me.
Ficámos desamparados os dois.
E ainda assim casaram?
Já não podíamos adiar.
Porquê?
Porque os tempos eram outros.
Já havia mais do que correspondência de guerra?
Estava grávida, por isso tive que sair da casa da senhora, para nada, perdi
o bebé, e nunca mais consegui engravidar, foi castigo.
Como castigo? Amava o seu marido, hoje seria a coisa mais natural do mundo.
Ainda não percebeu filho, o pai da criança era o Dr. Juiz, não o meu marido,
nunca contei isto a ninguém, senão a ele, claro.
Rolaram-lhe duas lágrimas.
Seria uma por cada um dos já perdidos, marido e filho. Uma completa, como
uma pétala, brilhante, prateada, de saudade, talvez pelo primeiro. Outra fina,
lenta, menor, de desgosto, talvez pelo último. Ou ambas. Ou só sacos lacrimais
envelhecidos.
São coisas antigas, nem se devia tocar nelas. Depois lá fomos endireitando
a vida, pusemos uma pedra no assunto, fiquei aqui de porteira e ainda cá ando,
mesmo reformada. No início eu queria ir para Lourenço Marques. Muito pensava em
Moçambique. Ele não queria ouvir falar de África, falava em França, para a
construção. Disso não queria eu ouvir, doía-me ver as mulheres de Portugal
feitas criadas de servir das francesas. Fomos ficando e servi sempre
portuguesas. Tivemos uma vida banal. Agora vamos partindo. Ele já partiu.
Não pensa em regressar às Beiras?
Penso, gostava de lá morrer, mas não posso.
Porque …
Porque o enterrei cá em Lisboa, nos Prazeres. Nunca vou deixar o homem que
não me abandonou.
Creio que posso ajudar nisso. Vim cá para saber no que posso ser útil.
Será o meu anjo da guarda ou da morte?
Gostava de ser o primeiro.
Tire-nos então desta cidade de más
recordações.
IX – À Beira
Parou em frente ao prédio às 8 da manhã combinadas.
Maria do Rosário frente ao mesmo, com duas malas.
Estava uma manhã fria, que ameaçava chuva. O céu cinzento em Lisboa
envelhecia a cidade, como uma mulher descuidada. As cores que o sol enaltecia,
tornando brilhantes os velhos edifícios ou edifícios velhos, disfarçando a
bizarra mistura de épocas, tornavam-se indisfarçáveis à cor de chumbo. A saída
pela autoestrada do norte contrastava o vasto mar da palha com os dormitórios da
cidade.
Num país a norte aquelas encostas estariam repletas de casas de bela
arquitetura, de bairros cuidados, com uma vista privilegiada para o imenso
Tejo.
Estou tão cansada de prédios.
Eu também, pelo menos destes.
Vai ver como é bonita a minha terra, a nossa casa está um pouco desviada da
aldeia, tem boas vistas.
A casa ficou para a senhora?
Para mim e para a minha irmã. Os meus irmãos ficaram com uns campos, fracos
de colheita. O mais velho já morreu, Deus o tenha, o a seguir está em França, está
bem, pouco cá vem. Os outros dois casaram e têm a vida deles na Covilhã. Também
estão bem, como quem diz, têm as suas reformas e alguma saúde, os filhos vão
ajudando ou eles ajudando os filhos. Hoje é assim.
E a sua irmã?
A minha irmã não teve muita sorte. Veio para Lisboa quando eu vim mas nunca
se adaptou. Um dia pegou na trouxa e com o pouco dinheiro que tinha regressou a
Castelo Novo. O meu pai apoquentou-se muito, mas ela acabou por substituir a
minha mãe. Andava nos campos, tratava-lhe das roupas, da comida, do gado. Assim
se deixou ficar. Solteira e beata.
Dão-se bem?
Eu cuido que sim. Tantos anos afastadas. Vemo-nos nos Natais. É boa
criatura, simples e sinto-me bem ao lado dela. Tivemos vidas diferentes, mas o
que me apetece agora é estar ao borralho, fazer companhia uma à outra, falar de
mexericos de aldeia e repor-me de bem com a igreja.
Crê em Deus?
Tanto, tanto, quanto a vontade de voltar a estar com o meu marido. Por isso
toda a crença Nele vale a pena. O Senhor acredita?
Chame-me pelo nome, por favor.
O António acredita?
Talvez seja Ele a não crer em mim, não crer ou não querer.
O que carrega consigo que lhe pesa tanto? Ainda não me contou a sua
história original, eu contei-lhe a minha, mais do que o que devia …
Está arrependida?
Não, fez-me bem deitar cá para fora. Também lhe fazia a si. Porque não o
quererá Deus? O que pode ter feito de tão errado? Não me pregue nenhum susto,
que eu comecei a gostar de si. Não me importava de ter tido um filho como o
António, é bonito, educado. Se as coisas com a sua mulher não correram bem,
agora é assim. Lá no prédio metade era divorciado.
Não há pano onde não caia a nódoa.
E no seu pano onde é que ela está?
Não ia querer saber.
Por Deus, não me assuste.
Nunca matei ninguém fique tranquila. Nunca fiz nada que se considere crime,
pelo menos hoje em dia.
Traiu a sua mulher, é o que eu penso.
Sim.
Os homens são todos iguais, mas por essa penso que o Altíssimo o perdoa.
Não foi o que me disse a mim, que essas coisas não têm grande relevância.
O Altíssimo até pode perdoar, ela é que nunca perdoou.
Então também não é lá muito cristã. Além disso já me comentou que ela refez
a vida, o António é que anda aí sempre em baixo, já reparou, nunca sorri? Ainda
gosta dela ...
Olhe, a minha terra!
Constância?
Sim, nasci e vivi aqui até entrar para a Faculdade, em Lisboa.
Se quiser paramos para ver a sua família. Não se prenda, posso esperar no
carro.
Não, no regresso paro. A minha mãe não gosta de surpresas e a sua irmã
aguarda-nos.
Resolva a vida com a sua família … Constância é uma bonita vila. Dizem que
é a terra onde nasceu o Luiz de Camões.
Sim, gostamos de acreditar nisso. Do que não gosto é de uma fábrica de
celulose em frente à vila e do cheiro que aquilo deita. Só no nosso país …
E como é que a sua mulher soube? Se calhar até era uma coisa passageira,
sem importância e foi o casamento por água abaixo.
Já ia para além do passageiro e soube da pior maneira.
Pela internet? Agora dizem que é assim.
Não, da pior maneira. Viu com os olhos dela o que não deveria ter visto, na
nossa casa, no nosso quarto.
Não terá sido grande maneira. Alguma colega sua de trabalho?
Um colega meu de trabalho!
Se não for muita maçada paramos na área de serviço de Abrantes, já aí à
frente.
A curta paragem na área de serviço foi muda, como continuou em silêncio a viagem.
Para que tivera aquele momento de sinceridade? No flagrante a sua mulher
entrara em histeria total, encarregara-se de contar a toda a família, a todos
os amigos, no trabalho de ambos, aos quatro ventos. Sentiu a censura no rosto
de uns, o gozo na cara de outros e o desgosto nos olhos da mãe. Apetecia-lhe
bradar aos ventos, perguntar o que havia de tão errado, depois remetera-se ao
silêncio, ao isolamento, à sua “anormalidade”, uma espécie de desculpa por existir,
estava fora de questão um abraço a um colega, um aperto de mão demorado, olhares
evitava, convidar para um almoço ou um cinema impensável, o chefe brindava-o com
trabalhos rotineiros, discretos.
Tentara por uma ou duas vezes procurar ambientes menos hostis nas noites de
Lisboa, mas não se sentira confortável com atitudes predatórias.
Porque é que tivera este descuido com uma senhora desta idade … que diabo
lhe passara pela cabeça? Se nem a mãe, que era mãe, o voltara a olhar direito
ou simplesmente dizer “aparece mais vezes” …
Não! Ia depositar a D. Maria do Rosário em Castelo Novo, depositar o
dinheiro para a translação do corpo do marido, se calhar mais algum para o
restauro da casa, se preciso fosse, comprar a primeira passagem para o Rio de
Janeiro e nunca mais pisar o país. Que se foda a família, que se foda o filho,
que se foda isto tudo. Foda-se, coitada da senhora.
Esta autoestrada agora é das que já paga portagem, por causa da crise, afirmou
com uma naturalidade que o deixou perplexo.
É, esta é a A23, passou a ser portajada, como se diz agora.
Não há quem entenda isto, construiu-se de tudo, foi um grande desnorte, a
nós dá-nos jeito, já vai ver, Castelo Novo ficou a cinco minutos da autoestrada,
dantes era só curvas até lá chegar.
Não lhe devia ter contado o que contei, sou um pouco mais original.
Quando vinha a Castelo Novo com o meu marido, pelo Natal, parávamos sempre
na área de serviço de Abrantes. Saíamos de Lisboa no nosso carrinho, devagar, e
era ali que parávamos para almoçar alguma coisa, naquele espaço dos
piqueniques, cá fora, viu? É a primeira vez que cá passo sem ele. Entrou-me uma
saudade grande.
Foi só por isso o seu silêncio?
A saudade é muita, meu filho.
Chamara-lhe “meu filho”.
Perdoe, não foi nesse sentido que usei a expressão, não a desiludi com o
que contei?
Posso eu censura-lo, depois do que lhe contei sobre mim?
É diferente, creio. Não gostava que não me censurasse porque a não
censurei.
Lá em Lisboa, no 4º esquerdo, vivem duas amigas, são mais do que isso,
todos sabem. Foram as únicas pessoas do prédio que apareceram no velório e que
nos dias a seguir me bateram à porta a perguntar se precisava de algo. As
únicas. E olhe que há lá gente que me conhece há 40 anos. Isso sim chocou-me.
As boas pessoas não me chocam. Já lhe disse. É o meu anjo da guarda.
Rolaram-lhe a ele duas lágrimas, quando atravessava a portagem, às portas
de Castelo Novo, não tinha um lenço bordado, com dois AA, só as costas da mão.
Entrou devagar no povoado, coladinho à serra da Gardunha, para apreciar os
contornos daqueles montes e a cor das enormes pedras, enaltecidas pelo sol, que
abrira, restaurada nas pedras, mas não nas gentes, nem vivalma, um ou outro
xaile negro a virar uma esquina, perto ouvia-se chocalhar, um rebanho, o pasto
era escasso como o olhar do homem que guardava as ovelhas, um azul
esbranquiçado já, triste, já longe.
Um cordeiro atarantado com o carro enervava-se no meio da estrada, a mãe
observava-o sem preocupações. Um regato tímido, mas que parecia irradiar toda a
frescura do mundo, corria pela berma, estas bandas faziam a transição do norte
para o sul do país, a rudeza do granito, mas os primeiros laivos de cal, os b já
ou ainda trocados pelos v, por vezes um gerúndio, a neve das serranias, mas o
sol de inverno que aquecia, o cantar desafinado e belo das mulheres do adufe.
Estava cada um nos seus pensamentos, quando ela interrompeu, vire nesta à
direita, é aquela ali, no fim do caminho, a minha casa.
No quintal uma mulher de casaco sobre a cabeça e mão contra o sol olhava-os,
dois rafeiros latiam ao aproximar do carro.
Chegaram bem graças a Deus, vinde para dentro que este sol não é bom, estou
a preparar o almoço, é pescada, com umas batatinhas e couves, que hoje é sexta,
não estamos na quaresma, mas à sexta come-se peixe, passou aí o homem a buzinar
e comprei três postinhas, muito frescas, porra que me esqueci de ir buscar uns
ovinhos.
Abraçaram-se uma à outra, num aperto sentido, mas curto, pronunciaram
algumas saudades do falecido, seguidas de um lamurio, cumprindo assim o ritual
de quem ainda respeita o luto, os choros maiores cumprem-se no dia, depois
pranteia-se com mais parcimónia, com familiares próximos ou com aqueles a quem
se não tinha mostrado ainda a dor, finalmente, como o tempo tudo cura,
lembram-se as datas, limpam-se as campas e pede-se a Deus que lhe tenha a alma
em descanso, porque já se secaram as lágrimas, o inconformar também é pecado,
porque se não aceitam os desígnios dos céus e se não crê no reencontro, Deus mo
deu, Deus mo tirou, é a vida.
Entraram em casa. Simples, cozinha acolhedora, bom fogão de lenha a estalar,
dava ares de grande, mas seguramente cheia de divisões minúsculas, que em tempo
terão acomodado uma família numerosa. Um declive, em baixo certamente espaço
para o gado.
Sentem-se, vou ao galinheiro buscar os ovos, já me esquecia outra vez.
Seguiram-na.
Os rafeiros abandonaram os latidos e sacudiam as caudas muito rapidamente,
felizes pelas visitas, pela novidade ou por reconhecerem a irmã da dona.
Não se aproxime muito, que a cadela é manhosa. Dá ao rabo, mas ferra quem não
conhece. Há dias apareceu por aí um carteiro novo, a magana atirou-se e lá
fiquei eu sem as cartas, que o homem fugiu-me. Deixou-me a conta do telefone
ali na mercearia. É só o que me escrevem, contas.
Riu-se, orgulhosa da bravura da bicha.
Que boas estão, disse Maria do Rosário ao ver as galinhas, eu tiro os ovos.
Desde que chegara o seu sotaque mudara ligeiramente. O falar de Lisboa, não
muito acentuado, mas ainda assim identificável, parecia não cair bem na frente
daquelas penedias e da irmã mais modesta. Naturalmente adaptava-se, como se via
pelo à vontade dentro da capoeira. Naquele espaço parecia uma outra mulher,
mais forte, beirã, mais capaz de enfrentar os últimos anos, quiçá ainda uns
poucos, bons.
Então e se eu quiser mandar um postal dos sítios por onde for passando à
sua irmã, perguntou, fazendo conversa durante o almoço, aberto com um caldo,
antes da pescada, que o peixe não puxa carroça.
Mande pois! Porque não havia de mandar?
O carteiro …
Ah, esse era moço e só estava a substituir o Tio Alfredo, de baixa. O
Alfredo pode cá vir à vontade que a cadela já o conhece de ginjeira, nem olha
para ele. Mais, se botar o meu nome e Castelo Novo, nem precisa de código, vem
cá ter. Escreva Portugal, se mandar o postal assim de longe, do estrangeiro.
Uma vez recebi uma carta de França só assim. Nem sei como cá chegou, mas
chegou. Era de uma vizinha, para lhe olhar pela casa, que agora anda aí muito
bandido. Eu olhar olho, mas que posso fazer mais?
E que nome escrevo?
Ercília Maria da Silva Martins. Aqui chamam-me Cilinha.
Deixou-as já caia o sol. Despediu-se com alguma cerimónia e conversas de
acerto sobre a transferência do dinheiro para o translado do falecido de Lisboa
para o cemitério da aldeia, não lhes falou que depositaria mais, pelo menos para
portas e janelas, que as que havia estavam velhas, frestas ao vento, vindo da
Estrela para perturbar as noites de inverno, amigo de gripes e de levar gente
de idade antes do tempo.
Queria abraçar as duas, ao mesmo tempo, embora uma com mais saudade do que
outra. Não o fez. Esperava que lhe pedissem que ficasse, que guardasse gado,
que jejuasse às sextas, que fosse à missa ao Domingo, que fosse desaparecendo
como elas, que se tornasse num penedo de granito, numa muralha do castelo,
sempre ali, um souto, sempre de Outono. Não o fizeram.
Olhava-as agora através do retrovisor, vestidas de preto, pois Maria do
Rosário resolvera enlutar carregado no regresso à terra, pelos costumes.
Acenou-lhes pela última vez, pressentia-o.
Cilinha pegava numa enxada, que as leiras não esperam por despedidas ou era
a forma de disfarçar um adeus, porque àquela hora não se cavam terras.
X – Adeus
Conhecia aquelas calçadas e lajedo como a palma da mão, de casa para a
escola, da escola para os campos, dos campos aos rios Tejo e Zêzere.
Sentia, sempre que regressava, o cheiro ao bibe da primária, ao sabão azul
e branco, à sua mãe.
Olhou para o café de Jerónimo, o homem com cara de peugeut 207, que não
sorria desde que contara à população que vira um ovni, para os lados do
Entroncamento, onde normalmente se dão os fenómenos.
Privilegiado, contactara com os alienígenas e fora transportado até outro
planeta, em primeiro grau, como dizia.
Tanto insistiu na história que a mulher o trocou por um polícia, homem mais
prático, que se não dava a fantasias, senão às terrenas que derivavam da sua
farda, fazendo-a subir aos céus sem ser em naves espaciais.
Insistia nos avistamentos e os filhos ganharam vergonha. Insistiu e os
clientes frequentavam-no pela chacota. Insistiu e manteve o café aberto. Optou
por deixar de falar e sorrir.
Entrou no boteco vazio àquela hora.
Boa noite Senhor Jerónimo.
Lento ergueu a cabeça que pairava sobre um lava louças cheio.
Olhou e sorriu.
Sorri Sr. Jerónimo? Desde quando?
Desde há um ano, mas só aos incompreendidos. Sorrio à Senhora Almerinda,
que não quer o marido bêbedo de volta a casa e é censurada pelas outras
mulheres, sorrio ao homem da farmácia que é corno manso, sorrio ao Julinho que
falou três vezes com a alma do Camões, uma delas já sem o olho, sorrio-lhe a si,
sorrio ao médico, que me parece mal não o fazer ao doutor e nunca sabemos
quando vamos precisar dele.
Faz bem.
Médico é homem formado, estudado, das ciências, sabe que o universo não tem
fim e não tendo este fim, está-se mesmo a ver …
Venda-me uma mini fresquinha. Vou bebendo pela rua abaixo, matar saudades
destas ladeiras.
Vá António, vá, se as tem para matar, eu não, tomara que me tivessem levado
de vez, mas devo ter sido só uma experiência, uma porcaria de uma experiência.
Isso não sabe. Se calhar ajudou a curar alguma doença do outro lado do
Universo.
Oxalá António, oxalá que tenha servido para alguma coisa.
Adeus Senhor Jerónimo.
Voltou à rua, onde um tímido nevoeiro vindo dos rios, cheio de humidades,
se ia apropriando do corpo, já mais frio do que a cerveja.
Hesitou à porta. Recuou sete vezes em direção não se sabe onde, nem ele.
Levantou a mão três vezes para bater com a maçaneta, bateu, à quarta, tremeu-lhe
a voz, uma vez, quando lhe perguntaram quem é.
A irmã Jacinta olhou-o, esbugalhada, como se fosse ele o próprio raptor do
Jerónimo.
Credo irmão, que pareces uma alma penada! Que é feito de ti, que anda meio
mundo sem te saber o paradeiro? Deixas a casa de Lisboa, não te encontram, não
tens telemóvel? Deves ser o único português sem telemóvel António! O único não,
que a professora de história do meu mais novo também o não tem. Diz que não se
quer render às tecnologias. Deve ser verdade, que a criatura parece saída do
medieval, cabelos empeçados, quase buço, andrajosa, dizem que é frique, como
essas das feiras que agora há por todo o lado. Nós fomos à de Santa Maria, lá
para o norte, de excursão, muito boa, saltimbancos, bobos, guerreiros,
fogueiras, muito povo e muito artista, muita chouriça e muito vinho, tanta
música que saímos de lá de madrugada e não fora o grito da vizinha Rosa
adormecia-se o motorista, ali para os lados de Tomar, em cima da curva, quase
nos matava a todos, louvado seja Deus, que eu excursões nunca mais, nem a
Fátima, que é aqui tão perto, mas prefiro lá ir com o teu cunhado a resmungar,
na nossa carripana, quando anda. Entra que me morres com esta cacimba, que te
traz?
A mãe?
Fez uma pausa e suspirou. Tentámos dizer-te, pela tua ex-mulher, saber de
ti, nada, a mãe sentiu-se mal, vila acima, caiu rua abaixo, delirou e acamou.
Não diz coisa com coisa, já lá vão dois meses, cuida-se no Minho, chama-me avó,
diz que gostava de conhecer Lisboa e partir para o Brasil, como o irmão dela, o
tio Afonso, lembras-te, se calhar não, eras garoto, o que fez fortuna em São
Paulo, dizem que é muito rico, não sabemos quanto, que de nós também não quis
ele saber.
Não te reconhece a mãe?
Nada, nem aos teus irmãos, nem aos netos, nem às vizinhas, nem ao cura. Ao
cura, vê tu, não sabe quem é o padre!
Mas andava bem …
Pois sim, mas vinha da padaria, manhã cedo, e foram dar com ela no chão,
toda mijadinha, boca ao lado, ambulância e urgências, médicos e enfermeiras,
Abrantes e Coimbra, despesas à farta. Foi coisa que lhe deu, não tenhas
esperanças António que é assim a vida, é para o que estamos todos guardados.
Eu, quando for a minha vez, que não seja agora, que ainda os tenho para criar,
ainda se me casa o homem com alguma galdéria que não queira saber dos meus
meninos, queria ir que nem um passarinho, sem dar por ela. Deus me livre de
morrer nova.
E a mãe?
Já te disse António, perdida, perdida. Tola de um todo.
Já percebi irmã, acalma-te um pouco. Mas está onde?
Acalmo-me, acalmo-me, cala-te, cala-te, é o que me dizem todos, mas sou eu
que aqui estou enterrada a tomar conta de tudo, como foi com o pai, afinal
estou morta viva, enfiada neste buraco de casa, gelada, sem condições, só
porque não tenho trabalho fixo, como os maninhos novinhos, que se deram todos
aos estudos e eu nos campos, com as mulas, com as bestas, para trás e para a
frente, que nem uma moura.
Não Jacinta, foi porque te deixaste emprenhar aos 17 anos e tiveste de
casar às pressas. Deixa-te de lamúrias que soubeste o que era bom antes de nós.
E outros houve que o descobriram já tarde. Tu não me entres por essas
conversas meu irmão, não me entres.
E a mãe?
Lá em cima, no quarto que era teu e do Joaquim.
Naquele cubículo? E o quarto dela?
Fiz de lá salinha, que lhe fica mesmo ao lado. Já que sou morta viva, que o
seja com alguma qualidade, que sempre tem varandim, espaireço com a rua e vejo
5 novelas. Esta casa é uma cave bafienta António, bafienta e fria António,
parece mergulhada no Tejo ou no Zêzere ou nos dois ao mesmo tempo, ali onde se
chocam. Mas que é feito de ti? Diz-me, que sei, que decerto estás desempregado
como agora estão todos, doutores, professores e ignorantes, embora para estes
ainda se vá arranjando alguma coisa, tu comigo não te acanhes, fala à vontade,
que não é nenhuma vergonha, pior foi a outra, esta acontece a qualquer um, como
ao Eugénio, lembras-te dele, engenheiro, mandaram-no para o Congo, para o Congo
António, nem foi para São Tomé ou assim, Congo, que nem português falam. A mim
faz-me confusão. Que raio se fala no Congo António? E subsídio tens? Deves ter
porque a tua mulher, suspirou, ex-mulher, diz que continuas a pagar a pensão de
alimentos ao rapaz, mas olha que não dura sempre, com tantos cortes, tu põe-te
em campo para outro emprego, nem que seja lá fora, nem que seja nas obras, eu
dinheiro não te posso emprestar irmão, que só para nós sabe Deus, com os filhos
para acabar de educar, a mãe ainda menos, o que forrou é para a acudir na
doença, que de coração está boa, pior é a cabeça, parando-se-lhe a cabeça,
param-se-lhe as pernas e ali me fica de coração rijo, acamada, quanto tempo não
sabemos. Nós somos cabeça, mas o coração é que é o motor. Só rezo para que os
meus não acabem no Congo, França ainda vá que não vá, ao menos falam francês.
No Congo também Jacinta.
Valha-nos isso, ainda que não os perceba também, mas ainda há dias vi um
filme e olha que até …
Vou subir, Jacinta.
Sobe, sobe, mano, não sei porque esperas, embora já saibas ao que vais, que
eu vou ver do meu homem que não me passou aqui a ver um dia inteiro, Deus
queira …
No Senhor Jerónimo não está.
Credo irmão, no Jerónimo, que mau gosto, o desgraçado matou-se enforcado já
vai para um ano, deram com ele na adega. Dizem que sorria o pobre.
Mas … a minha mini?
Que mini homem, queres uma cerveja? Não temos. Nossa Senhora que me parece
que também não vens bem! É o que o desemprego faz às pessoas. Sobe que eu vou
ver dele. Se saíres bate com a porta e compra um telemóvel, apesar do pouco
dinheiro que deves ter, é melhor comprares um. É que se lhe acontece alguma
coisa à mãe a quem aviso? Ligo à tua mulher e ainda me aparece o marido, depois
encontram-se todos no enterro. Mãe santíssima, que estranho, com o menino e
tudo.
A mãe ainda está viva Jacinta e tu já contas as pessoas para o velório.
Temos que pensar em tudo. Compra o telemóvel, que não há parvo que não o
use. Até já ou até depois senão nos virmos, que calculo que venhas jantado e
para dormir cá é melhor não, porque não contava, nem lençóis e mantas há que
chegue. Com este frio, melhor em Lisboa.
Subiu as estreitas escadas da sua infância, da adolescência, dos raros
fins-de-semana em que vinha a Constância, quando já mais criatura a estudar em
Lisboa, mas que preferia passar com o André. As escadas dos natais fingido de
casado, de uma Páscoa feito beato, de um par de anos sem as ver, às escadas e à
família.
Entrou no corredor do primeiro andar com os 3 cubículos a que chamavam
quartos, por onde noutros tempos se tinham dispersado um casal e sete filhos,
ele o mais novo dormindo de cama em cama, ora com irmãs, ora com irmãos.
Atravessou-o como se fosse ontem e o cheiro íntimo do mofo não lhe foi
desagradável.
Viu uma luz fraca e viu fraca a sua mãe, encostada a duas almofadas, cabelo
branco e cobre, carrapito levemente ondulado, sempre bonito, brilhando à ténue
claridade da lâmpada.
Diria que era só rosto, só aquele belo entrançado, desaparecido o corpo
debaixo dos cobertores, frágil e pequeno que deveria estar. Conteve, como
sempre, a vontade de a abraçar. Talvez agora que perdeu a lucidez me faça ao
menos esse gosto, que ela só estranhará por não saber quem sou, nem porque a
aperto.
António, subiste enfim! Aquela tua irmã não se cala, o que me cansa.
Mãe? Reconhece-me?
Claro que te reconheço. És o meu mais novo, o Toninho.
Toninho trazia-lhe nós na garganta. Era o mais próximo de carinho que
tivera dela. O meu Toninho fez o crisma, o meu Toninho foi o melhor aluno do
Liceu, o meu Toninho está quase a acabar o curso, o meu Toninho vai-se casar, o
meu Toninho deu-me um netinho, o nosso António perdeu-se por Lisboa …. Não
seria pior se a mente dela a levasse mais para Toninho do que para nome
inteiro.
Aproxima-te que vejo mal. Esta luz tão fraca. Diz a tua irmã que são
lâmpadas de gastar menos. O meu neto? Tem-lo visto?
Agora menos mãe.
Agora é quando ele precisa mais de ti. Tu não te descuides, como nós fizemos
contigo.
Espantava-lhe o pensamento tão claro.
Apesar de tudo pensei encontrá-la pior. A Jacinta pintou-me um cenário!
A tua irmã não se cala, não me ouve, não escuta ninguém, quase fico doida,
contenho-me para não a silenciar.
A mãe está lúcida?
Como sempre ou como nunca, mas mantenho o juízo sim.
Mas porque o faz perdido?
Para meu descanso filho, para minha reforma, para sossego dos meus últimos
tempos. Já pouco devo durar e quero paz.
E pensam todos que ficou sem razão?
Todos.
Como aconteceu?
Foi acontecendo, filho. Depois que me deu aquela coisa, atrapalhei-me um
pouco, troquei uns nomes e ai Jesus que já estava maluca. Gritava a tua irmã
que ia ser dela, com uma mãe entrevada, que não dizia coisa com coisa, que
tanto alvoroço que decidi calar-me e aceitar a loucura. De quando a quando falo
só para trocas, ponho-me baralhada com netos e parentes e cuidam-me
perdida.
E os médicos, as enfermeiras, ninguém se apercebe?
Quem quer saber de uma velha de 80 anos? Tanto se lhes dá que esteja
esperta ou como tola. Tratam-nos como crianças, basta saber-lhes que estamos
para morrer. Crianças para morrer. Ainda nos fazem mais parvos. Não fiques de
pé, senta-te ao meu lado.
Confirmou o quase vazio que estava por baixo dos cobertores.
Definhei António.
Mas de cara está bem.
Tu também, estás bonito rapaz!
E a mim contou-me tudo isto?
Sim.
Não receia que conte aos meus irmãos?
Porque o farias? Vieste despedir-te. Para que estragarias o nosso adeus?
Não diga isso mãe.
Abraça-me António. Nunca me abraçaste filho.
Quis tanto mãe.
Abraça-me agora.
Enlaçou-a, com cuidado, sentindo o seu coração bater, fraquinho, sentindo
um amor diferente, que só se pode ter por uma mãe, um amor completo, natural,
entregado.
Está diferente comigo mãe.
Estou maluca filho, a tua irmã já to disse.
E riram-se, ao invés de chorar.
O seu primeiro abraço fora de rir e não de pranto.
Aceita-me mãe?
Já não respondo às vizinhas, às missas, às famílias, ao teu pai.
Foi difícil com ele?
Contigo! Contigo é que foi difícil. Ver-te sofrer, ver-te fugir, ver-te
sabe Deus por onde.
Às vezes pensava que preferia que eu cá não viesse.
E preferia. Sofrias mais aqui do que em Lisboa. A cada um o seu papel
António. Não sei se fiz bem o meu. Olha que uma mãe aguenta tudo, só não
aguenta ver um filho sofrer. Tens que ser feliz António, tens que mo prometer,
isso e comprar o telemóvel para que te avisem quando me for.
Não sei como ser feliz mãe.
Tens que ser feliz sozinho, em primeiro lugar, só contigo, depois virão os
outros, como veio o André.
O meu filho?
Não, o que deu o nome ao teu filho.
Lembra-se dele mãe? Só cá o trouxe uma vez …
A uma mãe basta ver uma vez.
Então viu-me uma vez feliz, mãe.
Sim filho, vi-te uma vez feliz.
Então com hoje viu-me duas vezes, mãe.
Então deixas-me feliz a mim, filho.
A porta bateu e já a respiração e o falajar ofegantes da Jacinta invadiam a
casa, as escadas.
Vai com Deus António, que agora tenho que voltar a pôr-me de parva.
Fique com Deus mãe, que eu vou tentar pôr-me de feliz.
Aquele homem deixa-me doida, disse entrando no quarto. Eu sem carta, sem
carro, acima e abaixo à procura daquele estupor, deve estar enfiado nas
tabernas a beber ginjas, os miúdos à solta. Que sina a minha, que sina, tudo em
cima dos meus ombros, que canseira, que fartura, que te disse a mãe?
Pouco e pouco percetível.
Está fraca, mas como te disse o coração é que manda. Somos cabeça, mas o
coração é que manda. Olha a prima Conceição, acamada há anos e o coração é que
manda nela. Mas que te disse, confundiu-te com quem?
Nem percebi. Temos estado para aqui em silêncio.
Pois, nem deve saber quem és. É o seu filho mãe, o António! Berrou-lhe aos
ouvidos.
Ahhh.
Vês, pelo olhar não atina. Que quer com o braço levantado? Diga o que quer
mãe, berrou.
A mão no ar estendeu-se a um rosário. Jacinta deu-lho. Ela estendeu-o ao
António.
Sr. Padre, fique com este terço.
Ai olha, pensa que és o prior. Eu fazia gosto nesse rosário, que diz que
era da nossa avó, mal a conheceste, e tu nem és de acreditar, missas nem deves
lá por os pés, que também não te deves sentir bem, se não quiseres fico eu com
ele, pelo pouco uso que lhe vais dar.
O rosário é para o Senhor Padre, disse-lhe a mãe, irá pô-lo aos pés de
Nosso Senhor quando lá for agora na excursão que sai pela Páscoa. Vão a Israel,
às Terras Santas.
Que excursão mãe? O que ela vai buscar …
Fique sossegada que o Senhor Padre o leva. Terços tenho eu muitos, de
madeira, de pedrinhas, de vidrinhos, mais de meia dúzia, que eu sou mulher de
fé. Agora vamos, que lhe vou dar um leitinho. Tu já viste as horas António, se
é que vais para Lisboa, e para onde haverias tu de ir, cuidado com o nevoeiro.
Olhou para a mãe uma última vez, que parecia descansar, serena, com os
olhos fechados.
Qual é a reforma da mãe, perguntou baixo, à saída.
Olha António, tu não me dês desgostos, tu não me dês mais desgostos. Eu
vejo-me aflita para que o dinheiro chegue e ainda ponho do meu homem, que
também gasta em galdérias, mais os teus irmãos que não ajudam em nada.
Largou-se num pranto.
Cala-te um segundo mulher, cala-te um segundo. Eu não quero o dinheiro da
mãe, quero ajudar. Eu não estou desempregado. Dispensaram-me, mas deram-me uma
indemnização boa. Já tenho outra oferta de trabalho. Devo ter que ir para o
estrangeiro, mas compensa. Quero ajudar, Jacinta, quero que ajeitem a casa, que
arranjes uma enfermeira que te desanuvie, que abram uma janela para o Tejo, que
entre o sol, quero que pares de te lamuriar, que tenhas tempo para andar atrás
do teu marido, que eduques os teus filhos, que fales menos mulher, que ouças os
silêncios.
Vou ali buscar a caderneta e dou-te o número da conta. António, olha que
obras e enfermeira ainda é uma quantia grande, mais o IVA, não te esqueças do
IVA.
Quem seria o engraçado que deixou a garrafa de uma mini vazia aqui na soleira
da porta! Já não se respeita nada. Tu anda homem, preocupa-me que conduzas a
estas horas, olha que nós ai há tempos numa excursão que fomos a Santa Maria da
Feira, vínhamos de madrugada ….
Já mo contaste Jacinta, já mo contaste.
Ai a minha cabeça, pior que a da mãe. Vai mano, que me aflijo tanto.
Imagino mana.
Vê lá se não quiseres o rosário, podes deixá-lo …
Já não a ouvia.
Procurou o cunhado, encontrou-o, deu-lhe os documentos e a chave do carro.
Depois mando-te os papéis para o registares em nome da minha irmã.
Aceitou tudo com cara de espantado, bochechas coradas das ginjas.
É para passeares a minha irmã, não para te pavoneares com gajas.
Maricas.
Putanheiro.
Procurou o Senhor Mateus, o taxista, que o levasse à estação do
Entroncamento para apanhar o comboio para Lisboa.
Adeus António, que há tanto tempo que não o via. Como lhe vai a vida e a
sua mãe? Sei-a acamada.
Não largou a palavra e as palavras não lhe largavam a boca. O plantel do
Benfica, a miséria do Sporting, os bimbos do Porto, o cagão do Mourinho, o
Ronaldo todo milionário, pena jogar em Espanha, a ministra das finanças, o
Presidente da nossa República, a Merkel, os alemães e os chineses, tudo corria
mal, enfim a estação, menos trinta euros e uma dor de cabeça.
Gostei de falar consigo, António. Quando vier à parvónia apite para
tomarmos um copo.
Constância deve ter a epidemia da fala.
Adeus
E enfim só.
XI – O filho
Olhavam-se sem curiosidade.
Sempre lhe faltara à vontade com o miúdo, aquele que se tem com os filhos
que se vê crescer, na mesma casa, tomar banho juntos, primeiro dia de escola, primeiro
puxão de orelhas, acampar, de qualquer coisa mais do que sábados salteados ou
uma semana no verão, que, suspeitava, ambos ansiavam por que chegasse rápido ao
fim.
A mãe diz que tu andas sumido.
Tenho tido muito que fazer André.
A mãe diz que tu já és normal.
Normal, como?
Porque já tens telemóvel.
Se a mãe diz ...
A mãe diz que vais trabalhar para outro país que não é Portugal, nem sequer
a Inglaterra.
É verdade.
A mãe diz que tu não tens onde cair vivo.
Cair morto André, diz-se cair morto.
E tens?
O quê?
Onde cair morto?
Sim filho, tenho as duas coisas, onde cair vivo e onde cair morto.
Vais ser pai do meu irmão ou é só o Luís?
Vais ter um irmão?
Sim.
Então o pai vai ser só o Luís.
Ahhh
Se quiseres posso ser um bocadinho pai dele …
Não pai, deixa estar.
Voltaram-se para o mar, que de bravura quase engolia o restaurante onde
também engoliam o almoço.
Vamos embora. Queres ir ao Oceanário?
Quero ir para a minha casa pai.
XII – Com reservas
Entrou nos escritórios da TAP.
Qual o primeiro voo para fora do país no dia 15 de agosto?
Considerando as zero horas ou considerando a manhã?
A manhã.
Madrid.
Madrid …
Não lhe convém? Maputo, São Paulo, Praia?? São logo a seguir.
Qualquer um desses me convinha.
E então? Também temos Paris a sair às 9h. Num saltinho está na cidade luz.
Não pode ser. Foi uma aposta. Tem que ser o primeiro voo do dia 15.
Pois, nesse caso, o que há é Madrid. E logo em Agosto, que não se aguenta
de quente. Apostou com quem? Se não for coisa séria, faz-se aqui uma batota,
fica só entre nós dois.
Comigo.
Apostou consigo? Então ainda é mais fácil. Quebre a aposta ou acha que fica
de mal consigo?
Riu-se um pouco histericazinha.
Sou capaz.
De quê?
De ficar de mal comigo. E se for a contar das zero horas?
Boa. Deixe ver. Mau!
É muito mau?
Não, é Madrid.
Bolas. Não será um Barcelona com escala em Madrid?
Não, é um Madrid, Madrid.
Saia lá o Madrid. Qual é a sua cidade preferida?
Do mundo inteiro?
Sim.
Lisboa.
Não conta.
Humm ... Jerusalém.
Quantas cidades conhece?
Mais de vinte. A nós funcionários sai-nos mais barato.
Jerusalém! Por acaso tenho que ir lá tratar de um assunto.
Urgente?
Tenho de lá ir deixar um rosário.
Entendo. Nessas coisas, se for promessas, deve dar-se pressas. É promessa?
Se eu prometer agora que lá devo deixar o rosário …
Prometa. Promessa vale mais do que aposta. Cancelo Madrid e reservo-lhe um
Jerusalém, neste caso Telavive.
Não, não quebro a aposta.
Ok, então e se lhe reservar Madrid, pisa Madrid, regressa para Lisboa e sai
para Israel.
Um bocado louco esse plano.
Menos do que a sua aposta.
Desse ponto de vista.
Sai?
Sai.
De certeza?
De certeza.
Ora aqui temos. Dia 15 Lisboa Madrid, Madrid Lisboa, Lisboa Telavive. Como
fazemos com o regresso?
Não fazemos.
Só ida?
Só ida.
E depois vai outra apostinha, não é?
Parece-me uma boa ideia.
Ainda acaba na Papua Nova Guiné.
Voltou a rir-se, um pouco histericazinha.
Uma perguntita. Turística ou Executiva?
Vai uma aposta?
Executiva.
Ganhou um passageiro, mas ponha-me a dormir duas noites em Madrid.
Com aquele calor … prontinho, regressa da capital espanhola para a nossa a
17. Embarca logo de seguida para Telavive.
E Jerusalém?
Muito fácil. Uma horita de autocarro. Não compensa outro voo. E vai gostar
de Telavive. Muito cosmopolita. Belíssimas praias.
De seguida, armou-se em toda competente, levantou-se, viu-se melhor a farda,
imprimiu tudo, pediu passaporte, encapou bilhetes em pochete aveludada, à moda
antiga, quando voar não era para qualquer low
client. Direita, braços esticados para baixo, aperto de mão, sorriso e a
TAP deseja-lhe uma ótima viagem.
Muito obrigado, minha senhora.
Menina, menina.
Desceu a avenida da Liberdade, comprou do bom e do melhor, em linho, em
seda, calças, camisas, sapatos portugueses, relógio de marca, mala de viajar de
fazer inveja, corte de cabelo novo.
Chegado ao Carmo o porteiro do Hotel para onde se tinha mudado quase não o
reconheceu, nem os pombos que voavam sobre a Praça, nem os fantasmas dos
militares de abril, nem a vista para o castelo, nem a empregada que lhe fazia
olhos. Sim senhor!
XIII - Mesetas
Olhou pela janela oval e viu do alto a secura da península ibérica, pleno
estio, castanha e amarela, meseta cobiçada por mouros e cristãos, desdenhada
por outros.
Deixou-se deambular em pensamentos de lendas encantadas para fugir ao fim
de um livro que não merecia ser acabado num avião prestes a aterrar em Madrid,
ao lado de um executivo gordo, rodeado de telemóveis, ele só tinha um e de
fresco, o bucha todo vestido, fato completo, que não devia tirar nunca, igual
aos que saiam dos carros, sempre de casaco, de reunião em reunião, sempre de
casaco, sempre amarrotado, sempre a tocar os telemóveis, ou a tremer, mas
sempre qualquer coisa, nem que fosse a apagar e acender.
Um gordo de casaco caro, que se levantava às seis, corria, trabalhava às
oito, comia pequenos almoços de negócios, almoçava almoços de negócios, jantava
jantares de negócios ou de prazeres, encornava a mulher que lhe gastava metade
dos prémios e que o encornava a ele com um amante que lhe ficava com a outra
metade, jovem, bonito, merecedor das despesas, personal trainer.
Um gordo que menosprezava as esquerdas e as direitas, que lhe interessava
os centros, movia-se neles, não pelas cores, não pelas ideologias, só pelos
nomes de fulano de tal, de sicrano, de beltrano, do doutor, do engenheiro, do
administrador, sócio do deputado, primo do assessor, dou-lhe esta informação em
primeiríssima mão, em off, claro,
conto com a sua discrição, mas se o diploma legal sair assim e assim é melhor
para todos, eu mando um e-mail, se não lhe parecer inoportuno, só a propor a
melhor redação, para este ou aquele artigo, conheço o setor, é-me mais fácil,
já vi muito lá fora, as melhores práticas internacionais.
Se assim é!!
Apetecia-lhe comprar o gordo e ordenar-lhe que se atirasse do avião,
pesado, de para-quedas, por cima de Toledo, bochechas comprimidas pelo embate
do ar, fato agarrado à pele, pela frente, casaco a flutuar muito forte ao
vento, para trás, ainda mais amarrotado, o telemóvel a tocar e ele a querer atender,
a esquecer-se de puxar os cordelinhos, como sabia fazer tão bem, a chamada
podia ser urgente, um negócio das arábias e puf, estatelado no Tejo de Toledo,
que é o mesmo de Lisboa, só que ainda estreito, depois o gordo a desaguar como
as águas do rio ali para o Dafundo …
Gordo, gordo, se não fosse a queda ainda chegavas a ministro!
O gordo bufou e mexeu-se. Virou a página do Financial Times. Ainda vivia.
Não se acaba um livro destes numa aterragem em Barajas. O fim do livro tem que ter outra dignidade. O nome do
aeroporto não ajuda. Um Charle Roi,
um De Gaulle. Barajas não ajuda. É como Portela, Portela não ajuda nada. Tem nome
de escola de samba.
Deviam proibir este escritor de acabar os livros, obriga-lo ad eternum
a acrescentar um capítulo, um novo amor, uma morte trágica, uma brincadeira de
criança, um sol poente, um céu escuro de estrelas, um luar cheio, daqueles que
brilha numa poça de água, que nos apanha no retrovisor de um carro, quase um
susto de tanta luz, uma surpresa boa, de bonito.
Escreveria aos sábados, como num folhetim, à antiga, não na escrita, essa
naquela que ele quisesse, que é bom de fazer inveja, de surpreender a cada
esquina da obra, de fazer corar os que não se lembraram daquela frase, de
inventar aquela palavra, quase portuguesa. Como se lhe dá a arte de criar
linguagens sem ferir a língua, de fazer chorar o herói sem o tornar ridículo,
de amar sem ser banal, de matar sem ser fatal, de falar com magos e bruxas,
corvos e andorinhas, galinhas e mulheres perdidas sem parecer mal?
Publicaria cada sábado, na internet ou no jornal de papel, para sempre, mas
que me perdoe, vou lê-lo já, agora, até ao fim, mesmo até onde diz FIM, onde
rabiscou um obrigado e assinou.
Julgou, afinal, que sempre têm que terminar as histórias, melhor ou pior,
que para sempre é uma espécie de prisão que castra as ideias, o próprio futuro.
Arrastaria os personagens, envelhecia-os, tiraria a fantasia ao leitor. Melhor
assim. Ter um fim.
Colocou também o local e data, para bem formalizar aquele encerramento,
enquanto ouvia na turística baterem palmas ao piloto pela proeza de fazer
aquilo para que lhe pagavam, aquilo que fazia centenas de vezes por ano, mas
afinal sempre havia algum risco e dezenas de vidas.
Desempertigou-se, exceto quando quase foi empurrado pelo gordo, já de pé,
ainda havia salvas, já mais amarrotado, falajando portunhol, aos quilos, a
fazer-se anunciar a um madrileno mais rechonchudo do que ele, imaginava, cabelo
lustroso puxado para trás, o espanhol mais engomado, que nisso não brincam, a
combinar uma paella para as duas da tarde, que se retardam a comer estes outros
ibéricos, debruçados sobre o arroz amarelo e as barbas dos camarões,
engordurados, inchados, se calhar a pedir palitos no fim da refeição, a falar
de mulheres, depois dos negócios.
E ele, desde há dias, incomodava-se com estas coisas, mesmo só de as
pensar. Sorriu à hospedeira, educado, desligado, como manda ao rico, espreitou
a hora, sem pressas, desprendido, como manda ao que pode atrasar os
compromissos, não que ele os tivesse.
Entedio-me, e é tão bom.
E foi entediado acomodar-se num Hotel, no centro de Madrid, chamou o
empregado, para que lhe explicasse como funcionava o comando do plasma, uma
modernidade elegante, estreita, negra, o comando, não o criado, que esse
ficava-se pelo moreno, como funcionava o duche do banheiro, metálico,
astronáutico, e não lhe deram vergonhas pelas perguntas, porque ao snob é
legítimo ignorar as tecnologias e mostrar que lhe incomodam as vanguardas.
E elegante percorreu a Plaza Mayor,
bela, de facto, a Gran Via, grande,
de facto, a Castellana, muito, e
foi-se especar frente à Guernica,
ficando de facto sem quaisquer palavras, embora já não as trouxesse, assim só
como andava.
Deixou-se estar, empurrado por um bando de chineses, uma mão cheia de francesas,
mandou silenciar uns espanhóis, sorriu para dois italianos e um brasileiro, sem
tirar os olhos do quadro.
Durante quase uma hora mirou. Lembrou-se de Bosh, da sua arte antiga frente a esta moderna, ouviu um ruído no
céu, não de um trovão perdido, mas de uma sequência morna deles, longa, pesada,
zumbida, ao longe, um firmamento muito cinza, rato, carregado, de onde saiu um
clarão, um trovão novo, agora seco, maior, muito ao perto, caindo ali mesmo ao
lado, sobre a casa de uma Guadalupe, cheia de filhos, cheia de medo, que nada
entendia de guerras, menos ainda das civis, mas que de militar tinha tudo, até
bombas a cair lá do alto.
Imaginou a sua boca enorme, com a sua língua grande, de inchada, de berros,
de nervos, e os filhos às saias, bocas pequenas, mas muito abertas, pelos
choros, pelo chamar a mãe, soltem o cavalo, que morre o bicho, mas este morria
já, de olhos esbugalhados, sem pensar em nada, nem em verdes prados, só ele
cabeça, que se fora o corpo naquela crueldade.
Caiu em si com o leve empurrão do escrupuloso funcionário de museu que lhe dizia
ter de cerrar.
Adeus Guadalupe, que pena teres de ai ficar para a eternidade, de goela
escancarada, agarrada a um Picasso. Invejo-te Guadalupe.
Deixou-se ir por ruas mais estreitas, por bares mais apertados, para os
braços de um catalão, que confundiu com um basco, num primeiro segundo, tão
perdido como ele em Madrid, tão bonito quanto ele, tão alegre como ele nunca fora.
Te gusta?
O quê?
Madrid.
Não está mal.
No está mal? No te gusta …
Falta-lhe um rio.
Le falta un rio?
Sim, um rio, um Tejo, talvez aqui melhor um Sena, um Danúbio, a cruzar a
cidade.
Como en Lisboa?
Sim, como Lisboa. já lá estiveste? Gostaste?
No entendi.
Si conoces Lisboa, si te
gusta?
Si, no está mal.
Não está mal? Não gostaste …
Riram.
Le falta vida.
Vida?
Si, una ciudad un poco
muerta, mirando lejos el rio, el rio que no tiene Madrid, el atlántico que no
tiene Castilla.
Abraçaram-se.
Mar salgado quanto do teu sal são lágrimas de Portugal.
Entendi, que bonito.
Pessoa. Se olharmos o oceano alegres, nunca os poetas poderão escrever
assim. Só por isso vale a pena a nossa tristeza.
Me das tu telefono, tu
e-mail?
Não.
No? Y porque?
Para que sintas saudade.
Como te llamas?
António, e tu?
André
Talvez me pudesse apaixonar por ti.
Quiças you tanbien.
Guardou para si essa primeira noite de Madrid e gastou a seguinte sozinho,
para não perder o hábito, para se perder em pensamentos, para gostar do lobby do hotel, sempre cheio, para os
outros.
Um contratempo de voos obrigou-o a uma noite em Lisboa, antes de Telavive.
Não o queria. Fechava esse capítulo, pelo menos por agora.
Apanhou um táxi e balbuciou o nome de um Hotel, a estrear, no Parque das
Nações.
Desviou o olhar dos viadutos grafitados à volta do aeroporto, fingiu não
ver os prédios decadentes da avenida que descia até ao rio, tranquilizou-se na
suite sobre o mar da palha, ao lusque fusque, fumou, dormiu pouco, chamou um
outro táxi e acordou, aos poucos, já aterrado na Terra Santa.
XIV – Jardins de Oliveiras
Nas terras de Deus desajeita-se-nos o ar, sufoca-se, quebra-se-nos o andar,
foge-nos a razão, ou pela Sua ausência, que cuidaríamos ali não se faria sentir,
ou porque os rituais que nos ensinaram para Lhe agradar O afastam de nós,
monótonos, repetitivos, ladainhas, cansadas, em preces vãs, tolas, minúsculas
ao pé de Si, ao pé do que Ele esperaria de nós. Expurgámos a Sua mais ínfima
presença, farejando que nem uns cães uma qualquer pedra pela qual a sua
magnitude possa ter tocado, olhado, respirado, ignorado. Partiu ao ver gestos
tão baixos por parte daqueles que fez à Sua imagem, ausência total.
Nas terras de Deus tenta-nos o demo, por mais banal, mais próximo, mais
dado aos homens, mais fácil, mais desinteressante, oculto no calor, nos rostos
tapados, nos olhos negros, no negro, aqueles olhos.
O quente embalado pelo Corão, cantado, sofrido, no Ramadão, aquecido pelos
incensos bíblicos, pelas Quaresmas, por mais incensos e enchentes de gentes, de
línguas, de babel.
O quente no seco Jordão, de armas em punho, de arames farpados, estreito,
sem majestade, em cuja Cabeça mergulhou, agora em águas mortas, como Ele.
Mulheres às quais se evita o olhar, que cai por terra benta para que se não
contamine o ar. Mulheres como Maria, sem que por elas tenham passado séculos.
Mulheres mães, como Ela, outras cruzes, outras dores, maculadas.
Ficaria com elas. Aqueles olhos.
Vagueava entre as margens de um rio sagrado, entre duas nações, ou não,
entre roteiros obrigatórios, entre outros passageiros. Temia tanto o silêncio e
não o largava. Enfadavam-lhe os tons claros da pele, cobiçava o negro, aqueles
olhos, porém, fugia-lhes.
Não o entedia ele a Ele e temia tanto que Ele não o entendesse. Que
ausência.
Aos pés do Seu túmulo enterrou-se em vazio, encalhou com os povos todos
deste mundo, à procura de paz para o outro, ou só por uma fotografia. Comunhão,
sem vinho e pão.
Tentou o olhar histórico, à falta do metafísico.
Fugiu, desceu as escadas que Ele subiu, carregando todos os pecados da
humanidade, sem saber se carregara o seu.
Refugiou-se no holocausto, no ziguezague do museu.
Ziguezazeou tantas vezes quantas ditara o arquiteto, as paredes, os guias,
a fila, as imagens germânicas, os sapatos das crianças, os retratos dos velhos
secos, a diáspora, as riscas, as estrelas, os despojos, os corpos nus, os
números, tantos números, o nó na garganta, o silêncio, a oliveira lá fora, a
sombra, a covinha que fez na terra, o crucifixo da sua mãe, no jardim dos
judeus, a paz que sentiu, depois de chorar, por sentir toda a culpa do mundo,
pelo egoísmo, pela falta dos outros, por não se ter apercebido da terra
prometida.
Telavive.
Reservou um voo para o Rio.
Invadiu-se de sonolência no aeroporto, vozes perto que pareciam ao longe,
embaladoras. Sonhou-se perdido no sertão, missionário, ensinando a ler, aos pés
da cruz.
Sonhou com Guadalupe, ali, deslocada, aflita.
Sonhou com o mesmo trovão. O mesmo cavalo sem corpo.
Acordou por apenas um segundo.
Foi invadido por toda a escuridão da terra e deixou-a.
Allahu Akbar
11 de Setembro de 2013.
XV – A Deus
André.
António. Demoraste uma eternidade.
Deliro ...
Para sempre. Sorriu-lhe.
Envolveram-se num profundo abraço.
Vem.
Para onde?
Aqui não importa, não há onde.
Sr. Jerónimo?
António.
Sempre os há …
Aqui não importa, somos todos.
Está em paz?
À experiência. Sinas, sou de experiências.
Há sinas?
Há sinas. Veja a sua.
Viu ao longe o cauteleiro que jogava cartas com o cego. Sorriram-lhe. O cão
abanou a cauda.
Sentiu a sua mãe.
Mãe?
Filho!
Quando?
Aqui não importa, não há tempo.
Deram as mãos.
Meio sorriso, mãe?
Apreendo-me com os outros.
Há apreensão?
Meia.
Senhor?
António.
Senhor, Senhor?
Ver para crer António?
Porquê? Tantos inocentes!
Dei-vos a resposta tantas vezes, tantos sinais, tantas ausências, até a minha
presença, até a dor, até a minha morte.
Perdoa-me?
As rosas não são todas brancas, há-as rubras, o céu não é sempre azul, há-o
negro, Pedro não é Paulo, Maria não é Madalena, branco não é preto, andorinha
não é gavião, homem não é mulher, homem não é homem, bicho não é homem, só Eu
sou Eu e a natureza fi-la assim, quiçá imperfeita, mas sou teu Pai.
Senhor, devia ter feito mais. Queria ter feito mais.
Tiveste tempo para tudo.
E todos se fizeram um, o António, o André, o Jerónimo, aprovado, o cego, vendo,
o cauteleiro, a sua mulher, Maria do Rosário, entretanto aparecida, um dos
Caetanos, a mãe dele, o Senhor e Sua Mãe.
O cão abanava a cauda.
RR
2013