11 de setembro de 2020

Conto - O rapaz que queria andar de comboio


Ficha Técnica
 
 
 
Título: E se Deus Existir?
(O rapaz que queria andar de comboio)
 
Autor: R REINALES
1.ª edição: dezembro de 2015
ISBN: 978-989-20-5217-5
 
Edição de Autor
 
Foi respeitado, nesta edição, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990.
 
 
 
 
 
Agradeço à Mariana V.F., pelo estímulo e empenho.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Conto I
O Rapaz que Queria Andar de Comboio
 
Nasceu já cansado de tanto verde, assustado, até, com o verde dos campos, das folhas das hortênsias que nunca floriam, dos morros, dos musgos que cresciam nos muros do quintal e em todos os outros, ele próprio um feto, uma trepadeira selvagem, miudinha, coladinha a um tronco qualquer, sem destino certo. Sonhava, embora disso ainda não estivesse bem certo, de pequeno que era, fugir dos esverdeados que rodeavam a sua vida, à falta de quase tudo mais. Sentia-se mergulhado num tanque, daqueles também verdes à tona, de água rasa mas espessa. Não sabia se se afogava, de pequeno que era.
A mãe era verde, assim lhe parecia na única foto que tinha dela, morta ao pari-lo, depois de mais oito irmãos, uns encarniçados pelas sardas, outros não, noutro retrato, com caras espantadas, esfomeadas, magrinhos, em calções, desconfortáveis, sapatos apertados, pelo sorriso amarelo, assim se via, quase, porque as fotografias eram todas a preto e branco. Ele pouco usava sapatos, ainda menos novos. Não sabia de onde lhe viriam os sapatos. Achava que a mãe teria sido boa mulher, algo espantada também, o que seria normal, pois se era mãe de espantados... Seca, figura de irlandesa, embora ele nunca tivesse visto uma, mas parideira, até que morreu dando-o à vida. Dos irmãos multicor, se calhar por tanto pai, só sabia o que se ia sabendo, um em São Miguel, outro na Horta, um finado, outro preso, duas casadas, sabia Deus onde, um em Boston, que ficava depois da Horta, e um embarcado, que não ficava em lado nenhum, nunca pondo os pés em terra, como o pai os nunca tinha posto em casa, só para emprenhar a mãe, era o que se sabia.
 
O teu pai morreu-te, rapaz, morreu-te longe, deita isso para trás das costas.
 
E ele não deitava.
 
Então sou órfão, tia?
Meio órfão, que a tua mãe enterrei-a eu, gelada como uma pedra, tão bonita, mas o teu pai não sei. Morto estará, mas enterrado não sei. Se calhar és todo órfão!
E se ele aparecer morto, agente enterra-o?
Que lhe haveríamos de fazer? Morto é para enterro.
Tia, e se…
Não me chames tia, que sou tua madrinha.
E não és minha tia?
Sou, mas fui eu que te batizei, e madrinha é mais do que tia.
Madrinha é mais do que tia?
É, e vai ver das cabras.
Já fui, tia.
Vai ver outra vez que a cabra é bicho desassossegado, como tu.
Mas já é escuro.
Vai ver das cabras antes que te parta o focinho, bastardo.
O que é um bastardo, tia?
 
Resposta que já não ouviu, só o barulho do estalo e as luzes das estrelas, não sabia se do céu se das dores, pela mão que lhe agarrava o cabelo.
 
Ruivo de merda, tens que te fazer à vida que não sou tua mãe. Que cruz... Vai-te pôr à porta dos alemães para ver se lhes dá o dó e te dão o pão.
 
Assim terminava o seu dia, como um relógio em que a tia era o cuco. Saía para o escuro, tropeçava sempre nas mesmas pedras, quando a lua teimava em andar escondida temia o breu do mar, ou mesmo quando ela aparecia e o fazia brilhar, ondulante. Dormia agachado entre dois porcos, quatro cabras e cinco a dez galinhas, dependendo das canjas e do pouco que sabia contar, encostado à Tirone, a única coisa que lhe abanava o rabo naquela Fajã da Ilha de S. Jorge, lugar perdido de tudo, longe dos homens, embora tivesse o nome do seu Salvador, de Santo Cristo. Aos alemães não ia, por medo às escuridões e por lhes ter ido já fazer o dó ao almoço, como desde que se lembrava de comer pelo seu pé. E ficava assim, quieto, entre animais, à espera do verde que o cansava, mas que era de luz da manhã e não de negro. Temia mais o negro que o verde, embora se assustasse com os dois, sem saber bem porquê, já que assim era a sua existência.
Raiando o sol corria entre calhaus pretos, saltava em poças, molhava-se e secava-se, admirava-se da sua liberdade, que não lhe servia para nada, fazia pena aos alemães, comia uma malga de sopa, às vezes até mais, fugia aos primos, que não tinham cor especial, evitava a tia, até que lhe roesse o estômago, já lusque-fusque, e tentava a sua sorte, porque o pior já conhecia.  
 
Sebastião, amanhã vem cá uma senhora.
 
E ele olhava para o avião que contornava a Ilha para ir aterrar no outro lado, o que ele nunca vira. Tentara uma vez, subindo meia encosta, barrado pelo nevoeiro, e tudo cinza. Pouca sorte com as cores. Diziam que do outro lado até podia ser castanho, no verão, mas pouco, só raramente, como as neves do Pico no inverno, colosso onde nunca tinha posto os olhos mas que sabia ali tão perto. Gostaria de ver o castanho e o vulcão.
 
Ouviste, alminha? Amanhã vem cá uma senhora, vais para a Calheta, vais para a escola, não sei bem para quê, mas deve ser para que não fiques muito burro, dizem que já levas um ano de atraso, vê se te apressas.
 
Sebastião olhou em volta, para a meia dúzia de casas, para a caldeira do Santo Cristo, para o mar que parecia sempre mal-humorado, escuro, quase a engolir aquele lugar tão estranho, o que era estranho por ele não conhecer mais lugar nenhum. E sentiu-se do outro mundo.
 
E que faço, tia?
Enfias os trapos numa saca de farelos e vais com a mulher. Partem logo cedo. Foi o que me disseram.
E bibe?
Ela que to arranje.
E cadernos?
Na escola te dirão.
E lápis?
Depois vê-se.
E quem é a senhora?
Tanta pergunta, criatura. Porque choras, que te liga aqui? Limpa o ranho que só assoo os meus.
E se aparecer o meu pai?
Se aparecer enterra-se, ali, com a tua mãe!
Posso vir ao enterro?
Depois vê-se.
Posso levar o retrato da minha mãe?
Só o retrato, a moldura fica.
E a minha casa?
Aquela pocilga? Deixa lá estar o raio dos alemães, que sempre vão pagando a renda. Que mais queres?
Só queria saber.
Saber não é grande coisa, cresce e aparece. Agora vai ver das cabras.
Mas ainda é dia, tia...
Madrinha!
 
Saiu zurzido com uma chapada e chegou-se à Tirone. Parecia prenha, aqui tudo emprenhava, sem se saber como, sem cão, nem homens. Limpou o ranho à manga e arrependeu-se, porque queria estar apresentável para a senhora, que afinal não apareceu logo cedo mas quando se empoleirava já o sol, ia ele nervoso, pensando já que não via o outro lado.
A senhora, bem-posta, mas cansada e estranhada, talvez pelo sítio, falava com a tia, tranquila, vestida na sua bata suja, desgrenhada, a coçar o ouvido, como fazia quando estava nervosa, sendo afinal a tranquilidade uma aparência.
A segunda coisa de que se lembrava na vida era dos quadrados daquela bata, tão velha quanto ele, que esticava e encolhia conforme ia fazendo filhos de um tio que aparecia e desaparecia de quando em vez, por andar às pescas na vila de Velas. Chegava, punha-se em cima dela, com um ruído parvo, e a madrinha punha-se inchada nos meses seguintes, até que lhe saísse do corpo mais uma cabeça pequena. A primeira coisa de que se lembrava era da cadela.
A senhora tinha o cabelo armado, óculos grossos, não usava bata e devia ter esfolado os sapatos pelos caminhos que desciam para este mundo. Devia ser do Estado, assim bem-posta e séria. O Sebastião não sabia o que era o Estado mas a madrinha, que era mais que tia, se calhar por isso lhe batia, já tinha falado nele, só papéis, só papéis, e ela não era de saber muita coisa.
 
Confirma que o rapaz é órfão, portanto?
Da mãe estou certa.
Assinou a papelada?
Fiz-lhe uma cruz, onde puseram a outra, que não leio, nem escrevo, só cruzes e somas, poucas.
Pois, isso agora é que eu vou ter que ver como se resolve.
Punha o dedo, mas não tenho tinta.
Ponha lá a cruz outra vez à minha frente, que eu assino ao lado, mas tenho que ver isto com o Sr. Diretor. E traga lá o Bilhete de Identidade.
Isso tenho, disse quase alegre.
O quê?
Bilhete de Identidade.
 
Pulou ao quarto e pulou à sala.
 
Aqui tem.
Mas está caducado!
Foi assim que mo deram, eu não lhe toquei.
Deixe lá...
 
A senhora pegou numa máquina, que parecia de plástico, colocou-a em cima do documento e saltou-lhe pela boca fina um retrato, a cores e tudo. Tia e sobrinho espantaram-se muito.
 
Ora põe-te ali com a tua tia, Sebastião, que vos faço aqui uma fotografia aos dois.
Madrinha, minha senhora, madrinha.
Mas não é tia?
Sou, mas madrinha é mais que tia.
Muito bem, ponham-se lá madrinha e afilhado muito juntinhos para a foto.
 
O Sebastião percebeu que o afilhado era ele, e que sendo esse nome quase igual a filho não tinha sido muito bem tratado. O aparelho saltou estalinhos.
 
Querem ver?
 
E ali estavam os dois, ambos tons de cenoura, ela sorrindo desdentada, a inchar outra vez, com a bata a crescer, o verde por trás, para que se não esquecessem dele, ao meio a casa branca, com pedras escuras, na quina o mar, pronto a inundar toda a Fajã.
 
Ficaram bonitos.
Tão lindo o meu rico sobrinho, quase loiro.
Afilhado, minha senhora, afilhado.
Pois, é verdade. É no que dá chamarem-me tia!
Sebastião, como te chamas?
Sebastião, minha senhora.
Sim, Sebastião, mas preciso do teu nome completo.
Sebastião José.
Mais nada? O nome da tua mãe, do teu pai?
A minha mãe era Rosa e o meu pai Clemêncio.
Ai valha-me o Senhor Santo Espírito, chama-se Sebastião José de Carvalho e Melo, minha senhora, o gaiato não costuma usar isso tudo. Para que é preciso um nome inteiro aqui?
Sebastião José de Carvalho e Melo?!
Sim, Sebastião como o avô, José como o meu homem, que é padrinho, embora não quisesse, Carvalho da mãe, como eu, Melo do pai. Deus os tenha a todos, menos ao meu homem.
Curioso...
Nem por isso, é uma criança muito para ela, anda por essas bordas de água, não alinha com os primos e só espreita aos alemães. Só se for por aí, mas eles dão-lhe alguma confiança. O rapaz é esparvoado, mas não é de se impingir. Curioso não.
Não, curioso o nome.
Pois, assim tudo junto fica sim senhora. Soa a velho.
Como se chamam os seus?
Nelson, Rogério, Victor e Gabriela, como a da novela. São bonitos, não são? Os nomes, que as crianças são todas lindas. Quem é que não há de gostar de crianças? Eu quando penso que o menino se me vai para a Calheta...
Vem outro a caminho, não é?
Um por ano, minha senhora…
Há de ser muito, daqui a uns anos. Há maneiras de evitar isso.
É o que eu digo ao meu homem, que mas traga das Velas, as camisas, que estou pior que as gatas. Esquece-lhe.
Ainda há outras maneiras. Quando for às Velas passe na Segurança Social e falamos disso. Depois de ter esse.
Ou essa. Bergina, se for menina.
Virgínia é bonito.
O meu homem não gosta... Isto da criança ir para a escola na Calheta, o Estado é que se encarrega, não é assim? É que aqui é muita boca para alimentar…
Se o Sebastião não tem nada...
Nada, nada, pobrezinho, que se não fosse eu, nem de comer.
 
E o Sebastião ficou a saber que não tinha nada.
 
Sebastião, dá um beijo à madrinha.
 
E encontraram-se um no outro, porque nem sabiam como fazer aquilo.
 
Sebastião, diz adeus aos primos.
 
E ele acenou-lhes, lançando-se à subida, com a saca de serapilheira vazia às costas e a senhora a tropeçar nas pedras no seu alcance. Ela dizia-lhe que fosse mais devagar, que o carro que estava no cimo das ladeiras não partia sem eles, que tinha umas sandezinhas de mortadela e leite com chocolate à espera, que se prevenira para ela mas que dava bem para os dois, até que o rapaz estancou no meio do caminho, ao ver um mar azul, rasinho, como um tapete, já sem querer engolir terras, viu neblinas levezinhas, quase a esfumar-se, viu águas doces a correr por regatos, hortênsias mesmo floridas, viu sol que se visse, viu a cadela triste, atrás da senhora e dele, que enxotaram, porque ele ia ter uma vida nova e o Estado não tratava de cães, nem eles iam à escola, e entristeceu-se tanto que pediu pelo animal mas a senhora simpática disse que não podia ser. Finalmente o carro, com um símbolo nas traseiras, que parecia a bandeira como a que ele tinha visto num caderno velho lá de casa e numa procissão, finalmente as sandes, que a fraqueza e a subida lhe pesavam o corpo, não a alma, que essa lhe ia leve, porque a senhora lhe parecia boa, apesar de ser do Estado, que ele julgava que não haveria de ser grande coisa, e finalmente o alcatrão, que até os fazia deslizar.
 
Quando fazes anos, Sebastião?
Dia de Todos os Santos, minha Senhora.
Curioso...
Não sou muito.
Já conheces a Calheta, não é?
Não, minha senhora.
Vais gostar, é maior que a Fajã, tem mais meninos, tem professores, um ou dois cafés, mercearias, até uma retrosaria. Que gostavas de fazer quando lá chegarmos?
Andar de comboio.
Mas não há comboios nas ilhas, Sebastião...
Então onde há?
Só no Continente, filho, lá para Lisboa e para o Porto.
Então quero ir para o Continente.
Talvez vás um dia, filho, há lá tanto que ver e trabalhar… Talvez vás um dia. Mas primeiro tens que estudar, não digo que seja muito, mas alguma coisa que se veja.
Então eu estudo.
Assim é que é, Sebastião. E não havendo comboios, que gostarias de ver? Televisão, que tal?
Primeiro gostava de ver as putas.
As... Não há disso na Calheta, filho, valha-te Deus.
O meu tio diz que há.
Se calhar é nas Velas, não penses nisso agora.
 
E ficaram na estrada à espera que passassem as vacas.
 
Olha o Pico, Sebastião. Tem neve.
 
E o Sebastião colou a cara ao vidro do carro. Respirava-lhe em cima, embaciava-o e desembaciava-o, para o Pico se sumir e voltar a aparecer, como se fosse num filme. Não que ele já tivesse visto um, mas como cuidava que haveria de ser, talvez nada de especial, depois de ele conhecer aquela montanha, quase a tocar o céu, pena não haver comboio, mais do que as putas, que ele também não percebia muito bem para que serviam e o tio também não era de fiar, nem sequer lhe batia, nem sequer lhe ligava, nem sequer nada, quase igual ao pai, só que ainda vivo, os dois por enterrar. 
 
Vais gostar da escola, Sebastião. Vais aprender a contar, conhecer as letras, daqui a uns meses já lês qualquer coisinha.
Em português e tudo?
Então em que língua havia de ser, Sebastião? Em português, claro. Querias aprender outra língua, o inglês, para ires para a América?
Pode ser português, minha senhora, que há de ser mais fácil que o alemão.
Que alemão, filho, não há quem o ensine por aqui, além de que é muito difícil, custa muito a aprender.
Custou-me só um bocadinho.
E tu falas alemão, Sebastião?!
 
E a criança desatou numa papagueada tão arranhada que parecia tal e qual a língua de Goethe, tal assombro que a senhora não tirava os olhos do retrovisor e deitou travões a fundo numa curva, onde já se vislumbrava a Calheta, agora mais longe, encalhado o veículo da República num dragoeiro, quase tão fantasioso como o que acabava de ouvir. Aquela amostra ruiva falava alemão…
 
Muito bem, Sebastião, agora traduz-me isso tudo, pedindo-lhe com a serenidade possível depois da surpresa e do cheiro a queimado dos pneus.
 
E o Sebastião que nada conhecia de perigos ao volante, traduziu-lhe que queria ser grande, maior do que os homens que tinha visto, que queria ganhar dinheiro, mais do que aquele que nunca vira, que haveria de ir ao Continente, ver o tal comboio, mas que precisava que lhe explicassem como fazer, para não ir ao engano, para não o perder antes de o achar, que antes devia passar no Pico, tocar a neve, que é tão branca como o pelo da Tirone, quando não está sujo, que está quase sempre, porque na Fajã tudo se suja. Decidiu não traduzir o que dissera das putas.
 
E como falas tu essa língua? Quem te ensinou, filho?
Os alemães que vivem na minha casa, mas que nem são alemães, porque são suíços, lá onde também há muita neve, se calhar mais do que no Pico, mas onde eu não quero ir, porque se eles se vieram embora é porque a Suíça deve ser pior do que a Fajã.
Já ouvi falar desses alemães, que afinal são suíços. Tratavam-te bem?
Sim, minha senhora.
E dizes que a casa é tua?
Deve ser, porque lá vivia a minha mãe, de papelada e tudo, diz a minha tia, para cobrar a renda.
Temos que ver isso, Sebastião.
Ver o quê, minha senhora?
Se a casa é tua.
A casa é minha.
Não chores, Sebastião. A casa é tua, pronto.
Não é isso…
Saudades da Fajã?
Saudades da Tirone.
É a senhora alemã?
Não, é a cadela.
E se esqueces o alemão? Aqui na Calheta não há quem o fale. Algum professor, não sei...
Eu não me vou esquecer de nada, minha senhora.
Para o bem e para o mal, fazes bem, agora tira o cinto que chegámos.
Não tenho cinto.
O cinto é isto, Sebastião, para dar segurança aos meninos nos carros.
Nos comboios também há cintos?
Nos comboios não.
Mas se andam depressa devia haver.
Se calhar devia, Sebastião. Olha, a tua casa nova. Gostas?
Vê-se o Pico.
Vê a casa, Sebastião.
 
A casa era boa, quase bonita, toda pintada por fora, sem pedras negras como carvão à mostra, como as da Fajã, que pareciam vulcões, mas dos feios, pequenos, virados do avesso. A casa tinha outra senhora, à porta, já velhota, com um sorriso como ele nunca tinha visto, nem na Suíça, que não era muito disso, era lá à maneira deles.
 
Ai, que já estava em cuidados!
Combinámos às quatro, D. Cilinha, só passam dez minutos, que eu apanhei ali umas curvinhas que não contava.
Que quer, menina Madalena, se eu sou só de me pôr em cuidados por tudo e por nada? Já o meu filho mo diz.
Tem notícias dele?
Lá está, coitado, em Coimbra, sempre agarrado aos livros, já lá vão sete anos, que aquilo naquela Universidade não se brinca. Terra de doutores, muito exigentes. Nem para vir cá, coitado, só sebentas.
Acredito, D. Cilinha, acredito.
E depois as viagens estão tão caras...
 
E quando o Sebastião pensou que se tinham esquecido dele na rua...
 
D. Ercília, este é o Sebastião que até fala alemão!
Pode lá ser isso, filha...
Já lhe conto.
 
E contou-lhe logo. Entraram as duas em correria na sala e debruçaram-se sobre um livro de capa dura.
 
Este é o dicionário do meu Jorginho, quando andou no liceu lá na Horta. Português-alemão. Nunca se deu com isto. Desistiu, dizia que era muito difícil. Pode lá ser isso, filha... Uma criança.
 
E quando o Sebastião pensou que se tinham esquecido dele à porta...
 
Entra, entra, Sebastião, que se faz escuro. Entra, querido.
 
E ao Sebastião estranhava-lhe tudo aquilo, porque não o esqueciam e porque não o queriam ao breu.
 
Abra aí ao calha, D. Cilinha.
Cá vai. “Concomitante”.
Não me parece boa ideia. Abra aí noutra folhinha, mas ao calha.
“Estrada”.
Sebastião, como se diz estrada em alemão?
 
E ele disse.
 
Ora veja: Rua!
 
E ele acertou.
 
Esta agora...
Abra outra, sempre ao calha.
Montanha.
 
E foi tal e qual.
 
Ver para crer, menina Madalena, ver para crer. A criança é um prodígio.
Sebastiãozinho, diz-me lá só em alemão o que gostavas de comer à janta?
 
Ele disse. E riram-se muito as duas.
 
Agora tens que traduzir, Tiãozinho. Traduz, Tião.
 
E ele, que começava a ver o seu nome a encolher, lá lhes disse que na Fajã só se almoçava, que à janta pão, quando havia e quando a tia não o mandava para as cabras, o que era todos os dias, ou melhor todas as noites. E ficaram muito sérias as duas.
 
Pois hoje, Tião, vais jantar sopa, bifinhos com molho bechamel, esparregado e um molotov. Isto não pode ser todos os dias, mas esta noite vou caprichar.
 
E o Sebastião quase não percebeu nada, ainda que lhe soasse tudo a português. 
 
Menina Madalena, como é que há de ser isto com a Segurança Social? Olhe que eu não quero problemas.
Eu vou atrasando o processo. Mais despacho, menos despacho, mais p’ra cima, mais p’ra baixo, o garoto vai-se aguentando por aqui até que saia algo. Agora vai a papelada toda para Ponta Delgada. Até que venha tudo despachadinho faz a quarta classe.
Tanto tempo?
É assim, muita burocracia.
E eu fico de quê?
Casa de acolhimento.
Era muito ruim lá na Fajã?
Uma miséria, uma miséria. Lá perdia-se.
Coitadito. E é bonitinho, não é?
É, ruivinho, quase loiro. Está magrito.
Disso cuido eu.
Menina Madalena, e para lhe assinar as coisas? Na escola, nas catequeses, nas vacinas, assuntos assim?
D. Ercília, vá assinando e diga que é madrinha, que a criança tem família na Fajã da Caldeira, mas que veio para cá fazer a primária.
O Senhor Santo Cristo nos acuda. Hei de ir ao Império. Se me acontece alguma coisa à criança...
Qualquer coisa liga para os serviços e pede para falar comigo. Façam-se companhia um ao outro. Resolvo duas solidões, uma menor e outra já mais crescidinha.
Deus a abençoe, Madalena.
Aos dois também, e eu vou abalar que me preocupa aquele pneu assim à noite.
 
Despediram-se à soleira da porta. O Pico sumira-se no escuro, menos as luzinhas dessa outra ilha, que parecia uma avenida marginal, do outro lado do canal, embora ele nunca tivesse visto tal coisa como uma avenida, mas era assim que ia imaginando o pouco que tinha ouvido na vida.
 
Podes largar esse saquinho, Tiãozinho. Que traz dentro?
Nada, minha senhora, só o retrato da minha mãe, mas esse gostava de ficar com ele.
Pois claro, esse colocamos no teu quartinho, lá nas traseiras, ali no quintal, já to mostro, não ficas no do Jorginho não vá ele aparecer. Ouviste a menina Madalena? Disse que era melhor chamares-me madrinha.
Está bem, madrinha.
Que doçura de menino. Amanhã é sábado. Que gostavas de fazer?
Se não há comboios, gostava de ver as putas.
Ai, o Senhor Santo Cristo nos acuda... Vou amanhar a janta.
 
A caminho das Velas, Madalena pensou que se perdera com tanto alemão e que se esquecera de advertir a criança para não exagerar em trens e em mulheres da vida nas falas com a bondosa professora primária reformada. Não haveria de ser nada. ‘Hei de mandar benzer a criança’, pensava esta, enquanto rodava pela cozinha, feliz, apesar da alusão às meretrizes. ‘Que educação lhe terão dado’...
 
Madrinha...
Sim?
Pode chamar-me Sebastião?
Claro que sim, Tiãozinho.
Posso ficar aqui na cozinha a vê-la?
Até me fazes companhia e pomos os dois a mesa. Que estranho, parece que nos ladram à porta! Anda por aí tanta canzoada... Deve ser da lua.
 
E a D. Cilinha lá lhe foi explicando os preceitos das refeições, os pratos, um de sopa, outro raso, um copo para a água e outro para o vinho, quando o havia, o que não era costume, só na Consoada ou assim, que no da água também se podia tomar uma gasosa ou um refresco, Coca-cola é que não, que punha os garotos todos excitados e a fazer asneiras, os talheres, os guardanapinhos, a cestinha de pão com um paninho bordado, as bases para as panelas, menos também na Consoada, que preferia servir à mesa em terrinas, que dava outro luxo à festa, umas couvinhas, um bacalhau, tudo a fumegar e a abrir umas prendinhas, não muitas, que os tempos não estavam disso, mas sempre se arranjava para umas peuguinhas e um pijaminha para ajudar o inverno a passar, ali debaixo da árvore de Natal e do presépio, que o menino Jesus tinha que ter sempre lugar naquela casa. O que ela gostava das festas… Pena o filho ter que estudar e não conseguir vir às Ilhas.
E o Sebastião ouvia tudo, como fizera com o alemão, com vontade de aprender, depressa demais, já desejando que fosse Natal, para vestir um pijama, calçar umas meias, pena os sapatos serem velhos, até que parou de sonhar, porque se ensimesmou que os presentes não haveriam de ser para ele, que ali estava só de afilhado postiço e porque o ladrar não o largava.
 
Madrinha, posso ir à porta? Acho que ladram por mim.
A esta hora, filho? Anda, que vou contigo. Ladram por ti, Sebastião, quem?
 
E ela lá estava, calada já ao vê-lo, rabo entre as pernas por se saber atrevida, medrosa de um enxoto, e ele abraçou-a, como se fosse a segunda melhor coisa que lhe acontecia naquele dia.
 
Sebastião, mas de quem é essa cadelinha assustadiça?
É minha, madrinha. Veio da Fajã ter comigo.
Ai, valha-me o Senhor... Tão sujinha! Que lhe fazemos?
Podemos guardá-la?
Eu com um cão não contava...
Morro se ma tiram.
Ai, valha-me o Senhor... Tanta novidade num só dia! Olha o que fazemos, a bicha fica no quintal, lá atrás, junto ao teu quartinho. Há de estar carracenta, se veio por esses campos. Tem que se lavar o animal, amanhã, às claras, e em troca disto tu prometes-me que não dizes que queres ver as... as raparigas, aquelas menos sérias, que se dão aos homens.
As putas?
Ai, valha-me o Senhor, Tião! Sim, essas, promete.
Eu prefiro a Tirone às putas, madrinha. Prometo.
Tirone, que nome mais esquisito. Não lhe podemos chamar Laika?
A madrinha muda o nome a tudo?
Eu não, Tiãozito, para quê?
Então fica?
Fica. Abre aquela cancela e deixa-a lá estar.
Há de ter fome!
Comemos nós e já se vê o que se lhe arranja.
 
Sebastião nada disse sobre a prenhez da cadela. Ercília nada comentou sobre a felicidade do seu dia agitado.
D. Ercília era quase virgem, senão virgem mesmo a esta altura, tal o tempo que passara sem braços de marido, guarda-republicano, abalado precocemente para o outro mundo num incêndio que fez ruir a esquadra da vila de Velas. Fizera amor quinze vezes, sabia-as todas de cor, ao longo da única semana em que não fora nem solteira, nem viúva. Passada a primeira vez, mais contida, em que descobrira coisa tão íntima e espantosa, nada do que lhe tinham contado mãe e avó ou cochichos marotos de colegas do magistério, entregou-se ao esposo, tão cuidadoso quanto grande, tão impetuoso quanto meigo. Na primeira manhã de mulher já sonhava durante o dia para se manter acordada à noite, para ser só dele. Tinha experimentado o calor de um leito a dois, melhor do que qualquer bom cobertor, dos elétricos, até, e apesar do choque e do desgosto de enviuvar menina, pôs-se grata à vida por lhe ter dado oito dias de felicidade, quinze vezes de prazer e um filho no ventre, que haveria de cuidar com todos os mimos, se calhar até demais, mas que fosse como Deus quisesse. Professora toda a vida, enamorou-se apenas mais uma vez, pelas crianças, nunca mais por homens feitos, por respeito ao seu, não que a não cortejassem, logo professora, em terra de ninguém, terceira na hierarquia, depois do Presidente da Câmara e do Cura, mas entregar-se a quê, trocar uma semana de felicidade, que perduraria décadas, por risco de bebedeiras, que as havia muitas em São Jorge, ou por guardadores de vacas, com mudas de roupa, a lavar, tanto que ela gostava do asseio e da casa imaculada, toda arrumadinha, ainda mais desde que se reformara, parecia de bonecas.
Sebastião custava a prender o olhar a algo concreto naquela sala, que era a primeira que via que assim se pudesse chamar. Sofazinhos com rendinhas nas costas, quadrinho de criança com lágrima, televisão com naperão, muita jarrinha, coleções de figuras de cão, gato e cavalo na estante de vidrinhos, mais de quatro dúzias de livros, candeeirinhos, cadeira de baloiço, cestinha com novelos de lã que lhe haveriam de fazer camisolas, tapetinhos floridos, cortininhas com laçarotes, tudo num aprumo, janelinhas com vista para o canal, que lhe haveria de parecer cada vez mais um grande rio e não o Atlântico, tão senhor de si, tão cheio de confiança, este. Poderia viver ali uma vida, naquela divisão, a desfolhar gravuras, a ver a D. Ercília a baloiçar e tricotar, falando de muita coisa, que às vezes não era de coisa nenhuma, a adormecer a meio da conversa, a acordar feliz, por ter uma bela casinha, um filho quase doutor e a companhia dele, o novo afilhado, quase neto. Quem lhe dera não crescer, nem que para isso tivesse que tirar da cabeça os comboios e as outras, que também ali não as havia, que ele tivesse notado. À noite retirava-se para o quarto dos fundos, logo no quintal, quase preso à cozinha, quase dentro, que parecia ele próprio outra casita, de duendes, que agora já sabia o que eram, com cama lavada, mini guarda-fatos, mini candeeiro e até um rádio, porta aberta à cadela, que andava sempre branca e que entrava sorrateira para lhe dormir à cabeceira, que de quando em quando ia para lá longe, só vinha para comer e abraçar o Sebastião, como que para não apoquentar a D. Cilinha, que sabiam ambos se ralava com crias.
Assim se foram estabelecendo os três, porque o quarto membro, tanto que aprendia, capa e batina, poucas frequências tinha nas Ilhas, essas havia-as em Coimbra, como cadeiras, coisas que ao Sebastião ainda confundiam, sobretudo o ter uma mãe sem saber tê-la, apesar dos estudos. E ele sabia-se não filho, sabia-se no quarto do quintal, e tudo isso lhe parecia bem, porque ao fim e ao cabo não era ninguém e tinha quase tudo, menos uma mãe.
Na escola passou a Tião, o alemão. Falava e os colegas riam muito, estranhando o ruivo quase louro da Fajã que vindo do nada até sabia línguas, até brincava igual a eles, até tinha roupa nova, até aprendia mais que todos a cada dia, até crescia a olhos vistos, até se ia fazendo todo normal, exceto quando se obcecava com locomotivas e carruagens, com pressas de ir a Lisboa vê-las, não fora a D. Cilinha, que o tratava tão bem, que o ajudava nos deveres e ainda lhe acrescentava saberes, com fábulas e outras histórias, todas de encantar, todas com final feliz. Das putas não falava, que parvo não era. Surpreendia a professora Catarina, toda ela vinda do Continente, sotaque fino e tudo, da capital, ele com as pressas no conhecimento, querendo tabuadas dos nove quando ainda se aprendia a do quatro, querendo o Z quando ainda se enleavam no L, querendo régua e esquadro quando lhe davam livre desenho.
 
Sebastião!
Professora?
Com quem brincavas na Fajã?
Sozinho.
Com quem falavas português?
Com um anjinho.
Um anjinho, Sebastião?
Até era grande...
E de que falavam?
Do que eu fazia, do que eu não conseguia fazer, do que eu seria, do que eu não poderia ser, dos caminhos de ferro, das construções com calhaus, dos ribeirinhos que desviava para fazer caldeirinhas, de ir às amoras, de mergulhar nas ondas quando iam mansas, de baleias grandes, como rochedos, que eu via e ele me pedia para não exagerar, da vida, para não esperar demasiado e eu sem esperar nada, da companhia que fazíamos um ao outro, de jogar, que ele apesar de anjo ainda gostava de brincar.
Falavam sempre?
Só de dia e nem sempre, que como coisa dos céus tinha outros deveres, como nós, na escola.
E de noite?
Só falava com a Tirone.
Era a senhora alemã?
Não, a minha cadela.
Como se chamava o teu anjinho?
Gabriel.
Disse-to ele?
Não, descobri-o no altarzinho da D. Cilinha, entre tantos Santos e Santinhas, sempre de vela alumiada.
Anjo Gabriel, então? Sabes onde vivia ele?
No Céu, claro, professora, mas vinha ao Pico, gostava das vistas. Um dia descobriu-me.
Assim sem mais nem menos?
Não, quando eu me perdi na encosta, no nevoeiro, a descobrir o outro lado.
Que outro lado, Sebastião?
Este lado, professora.
Então o anjinho descobriu-te quando tu andavas a descobrir...
Sim.
E tem-te aparecido aqui na Calheta?
Não.
Porque será?
Se calhar porque ando muito ocupado com a escola, e a cuidar da D. Cilinha e da Tirone.
Deve ser por isso, Sebastião.
 
Sebastião…
Sim, professora?
Os alemães nunca te trataram mal, pois não?
Os suíços, professora. Tratavam-me bem, só não sorriam.
 
Professora…
Sim, Sebastião?
Os suíços...
Podes falar, Sebastião, podes contar-me tudo.
É só uma coisa...
Conta, conta tudo.
É que não me despedi deles…
 
Sebastião…
Sim, professora?
E a tua madrinha?
A D. Cilinha?
Não, a da Fajã.
Essa é tia, tia é menos que madrinha. Não conta.
 
Assim se foram passando as aulas, um inverno, uma primavera, um verão, de miúdos correndo pela vila, de mergulhos de rochedos para águas quentes, de perder o medo ao mar, de idas ao cais, de comer gelados, de ir à missa com a madrinha deste lado, de dormir até mais tarde, de ver bonecos na televisão, de ensaiar leituras de banda desenhada, de sentir primeiras férias, de ter falado com o anjo Gabriel só durante uns minutos, para o questionar se era ele de certeza no altarzinho da D. Ercília, ao que ele respondeu que sim, embora não estivesse favorecido, de começar a matutar no seu batismo durante a semana em que a madrinha fora a S. Miguel termalizar-se, como ela dizia, luxo a que se dava todos os anos para garantir que chegava aos cem, com direito a foto e tudo num dos jornais do arquipélago.
 
Venho como nova, Sebastião, para o ano vais comigo.
Isso é que eu vou adorar...
Para o ano vais!
Madrinha…
Sim, Tião?
E se desse em minha madrinha de verdade?
Ora explica-me lá isso Sebastianito, enquanto eu limpo o chão.
 
E o Sebastião sentou-se, baloiçou-se, para não patear, perna cruzada, revista às avessas no colo, como já tinha sido a sua vida, e disse que não se lembrava de batismo algum, o que, a ser assim, fazia dele um desbatizado e um desafilhado, sem madrinha de papel, só tia e nada mais, sendo que para se ser tia não era preciso grande coisa, bastava ser-se irmã de pai ou mãe ainda que se não quisesse. Tia era-se, só isso, madrinha queria-se ser.
D. Cilinha sentou-se, mão na esfregona, a pensar um pouco, porque ela pensava sempre sentada, e disse-lhe:
 
Nito, a ideia está bem idealizada, mas como te havias tu de te lembrar se se desse o caso de teres sido batizado ainda bebé?
Mas, madrinha, se nunca vi Cura na Fajã, como se fez o batismo?
E se tivesses apenas dias, Tião? Podia haver Cura nesse tempo...
E se, pois se não me lembro e tantos ses há, me batizassem outra vez, madrinha?
Batizar duas vezes, Sebastião José? Nunca tal se ouviu, filho, nem sei se há de ser pecado...
Batizar nunca há de ser pecado, madrinha, e se for é só porque se peca por excesso, o que a professora Catarina diz que não é mau.
E se eu for tua madrinha de crisma?
O que é isso?
É depois da catequese.
Com água benta e tudo?
Tão sagrado não é... Ai, rapaz, que confusa fico. Hei de perguntar tudo isto ao Padre Ventura.
Pergunta mesmo, madrinha?
Pergunto.
 
O velho Padre não sabia que dizer. Passava as palmas das mãos pela testa careca, que estranhava, cada vez mais franzida, as coisas deste mundo, pronta para auréola ou algo que o distinguisse já no outro, pois mais coisa menos coisa, nada de imperdoável, tinha cumprido boa parte dos mandamentos e captado, assim o queria crer, umas poucas de almas, que as ilhas eram de parcas gentes, mas batizar uma criaturinha duas vezes, essa escapava-lhe aos missais, não que não quisesse ajudar, mas ofender ao Senhor tão perto do fim, isso é que não.
 
Senhor Padre, olhe que não há de ser grande pecado, água benta dobrada, a criança vem lá do outro lado, do norte, do fundo dos vulcões, onde não para Abade há tanto tempo, até Cristo duvido que lá tenha estado, apesar do nome da caldeira, o mais certo é o Sebastiãozinho não ter o sacramento e pior do que isso não há, nem que seja tê-lo em dois.
Pode lá ter ido o Padre Justino, o das Velas, o que morreu.
E não se assentou isso nalgum livro? Há de lá estar escrito algures na igreja da Fajã.
E como Diabo, salvo seja, meteu o gaiato isso na cabeça?
 
Ao ser invocado, o mafarrico, o Caído, que andava perto, escutou e ficou atento.
 
Diz que foi um anjinho que lhe soprou, Padre Ventura.
Um anjo, que anjo?
O Gabriel. Imagine o Senhor Padre que é verdade, o mal vistos que ficamos os dois perante o Santíssimo...
É de ter em conta, D. Ercília, porque as crianças são elas próprias anjinhos, nada nos garante que na sua inocência não falem com os de verdade.
Lá está, daí a minha aflição. Cada vez que passo pelo altarzinho da minha sala, onde tenho a pinturinha do arcanjo, até me benzo. Deus me livre de ter o Tianito em pecado, por não se dar ouvidos ao Santo...
 
 
E o Caído anotou tudo, para não se esquecer de voltar àquela história, logo depois do Ruanda, que estava bem encaminhado.
 
O pior são as pernas, D. Ercília.
As pernas, Senhor Prior?
Com as minhas pernas velhas e a senhora que não vai para nova, quem nos há de levar, quem há de descer àquela Caldeira de Nosso Senhor para ir consultar os assentos, que eu sem isso não me arrisco? Pior, quem há de subir? A descer ainda os Santos ajudam...
A professora Catarina!
Quem?
A professora primária, a do Continente.
Aquela que tem um brinco de cada qualidade e que diz às crianças que a catequese não é nenhuma obrigação, só o ler e o escrever, até o pensar, o questionar?
Mas olhe que é boa pessoa... Trata-os tão bem, ensina-os melhor ainda, e é minha colega, embora das novas, das mais modernas.
Pode ser tudo isso, mas não põe os rapazes no caminho de Deus.
Olhe que tem carro e tudo!
Carro? Bom, isso muda o figurino à coisa… Fale lá com a Cesaltina.
Catarina, Senhor Padre, Catarina.
 
Catarina deliciou-se com a história da velha colega e acedeu, mais carro, ela, Padre e professora aposentada, imaginando-se a vasculhar livros empoeirados de sacristia, em busca do registo de Sebastião José de Carvalho e Melo, nascido em dia de Todos os Santos, ela que nem era de crer, tinha de ir. Não pouparia as fotografias e recrutaria o professor de ciclo, o de desenho, que fisgava para outros fins, ele que se entretinha mais a pintar o Pico que a olhá-la. Talvez na costa Norte, sem vulcão em frente, se apercebesse das suas curvas, da sua cor de cabelo, da sua pele nova, da sua vontade de lhe pousar nua, de se fazer Gioconda.
Partiram os quatro, sábado, manhã cedo, Ercília desculpou-se ao Sebastião com uma consulta médica nas Velas, coisas de senhoras, a que não podia assistir, e ele, sem perceber no que uma maleita de homem poderia ser diferente da de mulher, acatou, disse que zelava pela casa, que ia passear a Tirone e jogar uma partida de berlinde com o Manel e o Toninho, e só para si pensou que esperava que a madrinha não tivesse nada de grave, agora que tinha encontrado uma espécie de quase tudo.
 
Tens falado com o arcanjo Gabriel, Sebastião?
Não, madrinha, desde que começaram as aulas que não me fala. Se calhar agora só pelas férias do Natal.
Se calhar, Tião... O Natal é tão bonito! Vai ser a nossa primeira consoada juntos. Pode ser que venha o Jorginho.
Pode ser, madrinha...
 
O Padre Ventura, dos seus oitenta e tais, pensava que já não se devia atrever a aventuras como aquela em que estava envolvido, com uma lisboeta desnorteada, herege, ao volante de um carro, a caminho do Norte, por indicações de anjinhos, com uma professora reformada, boazinha, coitadinha, crente em demasia, e um outro sujeito, não conseguira ouvir quem era e nem ele era de falar. Rodopiavam pelas estradas numa geringonça em segunda ou terceira mão, por caminhos de S. Jorge, mais penosos que os de Santiago, pela penitência que eram aquelas serranias e precipícios. Aliviou-se ao chegar ao fim da linha. A partir dali só ladeiras de cabras, só a pé, só pedras a trocar-lhe os sapatos quase tão velhos como ele, só cuidados para que não caíssem ele e a D. Ercília, tudo por algo que não haveria de ser nada, convencido que estava que consultados os assentos lá estaria a criaturinha, o João ou lá como se chamava, Sebastião, parecia-lhe agora, como o Santo mártir, que falava alemão, a criança, não o Santo, coisa que de vulgar também nada tinha, para figurinha que era só calções e caracóis vermelhos, cobre, cenoura, louro, dependia do sol, carinha de anjinho, não dos barrocos. ‘A ver vamos, como diz o cego’, comentou ao sair do carro, amparado pela professora, a nova, que para descrente até se dava a cuidados, pisando a batina, que já raramente usava, mas que lhe poderia dar alguma autoridade, não sabia a quem, para abrir uma igreja no fim do mundo, onde nem vivalma em condições.
Bailava muito o sol nesse dia, bem escolhido, diziam todos, que a descer com chuva, nem com a ajuda dos Santos, nem pelo destino que tinha o nome de Cristo. E a Fajã e a Caldeira, já à vista, ainda que parecendo sempre coisa do outro mundo, como o Sebastião, desfazia-se em ofertas de luz e brilhos, de verde e mar, acariciava-os com o doce mês de setembro, com um calor manso, com cabecinhas catraias, que se escondiam pelas moitas à chegada de quatro forasteiros, tão esquisitos, uma multidão, para aquelas paragens.
Inquietada com o movimento apareceu a tia, bata nova, como se os esperasse, tinha-lha trazido o marido do mercado, quase limpa, para se inteirar do destino dos turistas, mas com Cura, haveria de ser excursão religiosa, que já lhe tinham dito que as havia, só que pensava ela ser coisa de mais gente, mas assim vão os tempos, sem respeito a Deus, tão poucos, menos ela, que paria sem controlo, o que, também já lho haviam dito, era coisa que o Senhor desejava, embora já lhe custasse.
 
Se conheço o Sebastião? Valha-me o Divino Espírito Santo, olhando o Padre em busca de sinal de aprovação à sua invocação. Como um filho, mais do que um filho, que o tratei igual aos meus e não saiu de dentro de mim, que seria dele se não lhe acudisse ao chegar a este mundo, com a minha irmã ali feita em caldeira de sangue, já morta, mas ainda a pedir por ele, pelo menino, a pedir a Deus que a levasse e a mim que o cuidasse.
Então a senhora é a tia?
Uma mãe, mais que tia. Os senhores que querem, de padre e tudo, não me digam que lhe aconteceu algo de ruim?
 
Ercília travou o momento em que ela se preparava para matar a criança nalgum terrível acidente ou doença fatal, como a meningite, que os levava tão cedo. Travou o deitar as mãos à cabeça, o grito do ‘Ai, que desgosto tão grande’, o ‘Ai, o meu rico menino’.
 
Acalme-se que o garoto está bem! A senhora é madrinha do Sebastião, não é assim?
Sou sim, senhora.
E quando o batizou?
Lembro-me como se fosse hoje. Dia de Santo António. Escolhi eu.
Aqui na igreja da Fajã?
Ali mesmo. Foi uma festa, não maior pelo luto da mãe, pobrezinha, Deus a tenha.
E quem terá sido o Padre?
Um de idade, das velas, vinha aqui dar missa.
Corria que ano?
Pois tendo o Sebastião agora oito, corria... Há sete anos!
Quem tem a chave da igreja?
A senhora Benvinda, ali naquela casa, aquela sozinha, a que tem a antena, mas não tem televisão, que aqui não se apanha nada.
Vamos lá ver essa senhora Benvinda.
Ai, coitadinha, pouco se mexe, está mouca, entrevada, mais para lá do que para cá.
Vamos lá pedir-lhe a chave, mouca grita-se, entrevada não aquece nem arrefece, que não precisa de ir. Além de que não se nega a chave de uma igreja a um padre.
Mas, Senhor Padre, que quer da igreja, vem dar missa?
Que há de querer um padre de uma igreja, filha, é como se fosse a nossa casa, todas elas.
Mas vem dar missa? Era uma alegria.
Não, quero ver o assento de batismo do Damião!
Do Damião?!
Do Sebastião...
O assento? O rapaz não tinha lá assento, sentava-se onde calhava!
O assento, mulher, o registo, a certidão, o documento onde se lê que ele foi batizado, a prova provada de que recebeu o sacramento.
E para quê, Senhor Padre? Já não lho disse eu? No dia de Santo Antoninho, que não me deixa mentir.
Deixa mentir deixa, filha, olha que o último padre que aqui veio dar missa morreu há dez anos. Tendo o João oito...
Sebastião...
Não se meta naquela igreja, Senhor Padre! Vá por mim, aquilo é pó e humidade, rataria, o estado a que chegou a casa do Senhor e do Senhor Padre, se são todas suas, como se fosse Bispo ou assim. A criança foi batizada. Vi-o eu com estes dois que a terra há de levar, fui eu que o embalei, com estes braços, que há de comer, quando se largou aos berros pela frieza das águas sacras na cabeça, tanto que até estranhei, pois se benta era não haveria de causar tanta aflição ao gaiato.
Ainda assim, mulher, viemos cá para isso, não a duvidamos, mas queremos ver o assento, leve-nos lá a essa Bernardina, para se ver da chave.
Benvinda, Senhor Padre.
 
E largou-se num pranto.
Catarina capturava aquela imagem surreal de cara sardenta, cabelo enxovalhado, encarniçado, dentes a menos, choro soluçado, lágrimas de crocodilo, ares de bretã miserenta. Roberto, finalmente era este o seu nome, idealizava Van Gogh, gente pobre comendo batatas, pouco original. Ercília percebia a verdade, e o Abade impacientava-se. Os filhos, pelo burburinho, iam largando as moitas e aproximavam-se, agarrando-se à bata da mãe, preparados para acompanhar o berreiro, como uma ninhada de gatos, menos o último, cujo choro se ouvia de dentro de casa, ou porque chorava a mãe ou porque se lhe chegava a fome, se é que tinha abalado alguma vez.
 
Diga-nos, mulher, batizou alguma destas crianças? Batizou o… Sebastião?
 
Entre soluços foi dizendo que não, foi rezando a sua miséria, foi-se queixando da falta de padre, da igreja de portas trancadas, da fuga de Deus daquele lugar, que assim não deveria ser, que ficavam selvagens num sítio com o nome de Cristo, que não percebia nada disto, que antigamente não era assim, que passava a vida prenha, que tinha as crianças em pecado, que ela própria não devia andar longe dele, mas era pela miséria, pelas faltas, que aos ricos é mais fácil estar com o Poderoso, fica-lhes mais à mão e o dinheiro não sendo tudo até para melhor cristão serve, que batatas e couves levam mais ao Inferno do que aos Céus.
 
Oh mulher, cuida que Cristo era homem de posses?
Bem sei que não, mas tinha o próprio São João para o batizar, e era filho de Deus, sempre havia de ter alguma coisa. Aqui nem o demo, só a senhora Benvinda, que fazia benzeduras e mezinhas, até ficar naquele estado. Foi ela que deitou a água benta ao Sebastião, lá na pia batismal, fez umas rezas, disse uns palavreados, desfiou o Credo, pô-lo à lua, o mesmo aos meus três primeiros, aos outros já não estava capaz e eu com o Credo perco-me, ‘Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado não criado’ e a partir daí é ver-me tropeçar nas palavras. O substancial, o Pôncio Pilatos, o ressuscitar-se ao terceiro dia, é oração muito comprida.
Consubstancial, filha, consubstancial ao Pai! Corra lá à Almerinda, traga as chaves, agarre os gaiatos e vão todos ter comigo à igreja, que em pecado não vos deixo.
Benvinda, Senhor Padre...
Corra, se não estiver prenha.
 
A mulher abalou a passos largos com as crias espantadiças, mandou o mais velho buscar o mais novo, o que berrava. Num ápice estava a família à porta do templo, com uma chave maior que a de São Pedro, mais depressa que o Padre, que se cansava, a Ercília que se demorava, os professores que se enamoravam.
Miraculosamente a igreja resplandecia, brilhava, como se um sem fim de beatas a tivesse posto divinamente asseada para uma vigília, para um sermão de António Vieira, para uma conversa de Santo António com os peixes, para um velório de gente fina, para um batismo de pequenos selvagens, para um sacramento feito às pressas só naquele dia, para depois se fechar e voltar ao escuro, à frieza das pedras, à cara séria de Santos e Virgens, às sombras do Calvário, para a dor, ali encerrada, de um Homem na cruz.
O Padre Ventura, sem paramentos próprios, valendo-lhe a batina e o colarinho branco, apoquentava-se com tudo isto, não fosse o Espírito Santo distrair-se ou recusar-se a descer, por achar improviso a mais. Deu-se em ladainhas, invocou-O, pronunciou renúncias, benzeu águas, mergulhou cabeças em pias, piolhosas, decerto, e, sendo o que Deus quisesse, deu a sua missão por cumprida, deixando a ninhada abençoada, para remissão dos pecados que um dia haveriam de ter, abrindo-lhes a porta do Paraíso, se não fossem mais além em mal do que o comum dos homens e ainda assim podendo recorrer à confissão e ao arrependimento. Meio caminho andado quer para a Fajã, quer para um bando de carinhas selvagens, mas bonitas, que se não fosse a magreza poderiam figurar nuns frescos do Vaticano. Quem lhe dera morrer em Roma a admirar aquela celeste Capela.
 
Que gesto tão bonito, Senhor Padre.
E tão inédito, D. Ercília! E o pior ainda falta...
O Sebastião?
Não, a subida. A ver se não me fino eu por aí acima, sem ter quem me dê a mim a extrema-unção.
Credo, Senhor Padre.
Nunca se sabe…
E não a pode dar a si próprio?
O quê?
A extrema-unção?
D. Ercília...
Senhor Padre, eu não quis insinuar que se me morria aqui no fim do Norte. Deus nos livre, o Senhor Padre é que falou em ir desta para melhor!
Hei de aguentar-me com o empurrão do jovem. Ainda temos que tratar do Francisco Simão!
Sebastião, Senhor Padre, Sebastião José.
Olhem aquelas nuvens tão brancas, parecem asas de anjo, por cima do mar, ali logo a seguir à caldeira. Bela foto. Roberto, fixa, hás de pintar isto de memória, põe-lhe uns raios de sol, é só o que lhe falta para quadrinho dos céus.
 
Viraram-se todos.
 
D. Ercília puxou a batina ao Padre. Este olhou-a nos olhos. Ambos olharam as nuvens. Cumpliciaram-se os dois. Só eles reconheciam o arcanjo, que se foi desfazendo, conforme o vento, cumprida a mensagem dele, cumprida a missão dos homens.
 
Temos mesmo que tratar do Antão, D. Cilinha.
Tião, Senhor Padre, Tião.
Isso não é nome de gente, soa a sertão.
O meu Tiãozinho...
Ainda assim, não é nome de cristão.
 
Ia o Padre dar uma bênção final de despedidas, que se fazia tarde e más horas, se bem que desconfiasse que os relógios haveriam de parar para aquelas bandas, que segundo ou minuto ali pouco havia de importar, nem badalo de igreja, mudo o santo dia, nem repartição para abrir ou fechar, quando a não madrinha Ercília perguntou à não madrinha tia pela papelada do não afilhado de ninguém, pelo registo na Conservatória, por qualquer documento emporcado que demonstrasse que a criança, à falta de comunhão com Deus, comungava pelo menos com a República. Travadas novas lágrimas, novas faltas de tempo, novas penúrias, Ercília acalmou a criatura e deu-lhe um adeus, que alguma coisa haveria de fazer, de tratar, de oficializar. Partiu, súbita, inquietada com tudo aquilo e feliz por a tia não ser madrinha. Mouco e interrompido na mão, ainda no Espírito, faltando-lhe o Santo e o Ámen, o Cura embasbacou-se, deixou a bênção a meio, que para dia invulgar não haveria de ser por mais esta, e foi puxado pela D. Cilinha, que queria abalar brusca, como brusca tinha querido vir.
 
Que foi, filha de Deus, puxar-me assim, nem terminado o abençoar destas gentes?
O Sebastião José não existe, Padre, não existe para o Altíssimo, nem para o civil. A criança não é ninguém à luz divina e à luz das leis, nem ao registo levaram a sua existência. É um Sebastião não.
Divino Espírito Santo...
Senhor dos Aflitos...
Santíssima Trindade!
O que vai ser de papelada para colocar a criança outra vez neste mundo...
Tem que se dar vida ao Sansão, D. Ercília!
Sebastião, Senhor Padre!
Ou isso!
 
A matilha recolheu-se às moitas. Um casal de suíços, que pareciam alemães, passeava tranquilamente atirando pau ao ar a um cão igual à Tirone, não fosse macho. Catarina e Roberto saíam de outra moita, mão dada. A tia sumira-se. A vizinha Benvinda terminava as suas horas neste mundo sem ter quem lhe rezasse a ela. A subida era-lhes suave, quase plana, o Padre parecia fugir dali e a Ercília já sonhava ver-se madrinha completa, cerimónia na igreja da Calheta, brigadeiros e arroz doce, mousses e pudins, lá em casa, pena já não puder vestir o Tiãozinho de rendinhas, mas haveria de lhe arranjar calção de veludo azul-escuro, camisa branca e sapatinhos de verniz, como nas comunhões. Até o filho viria se não estivesse muito ocupado nos códigos, que eram muitos. Havia de ser difícil, como era o Direito em Coimbra, pobre que nunca mais acabava o curso ou não acabava de a enganar com ele, que ela, embora das Ilhas, só se deixava distrair por ser mãe. Que o acabe um dia, pensou, e já não se perde tudo. Tirou o terço e deitou-se à reza, para que lhe não fraquejassem as pernas e por andar descuidada com esses preceitos, por estes afazeres todos. Bendito Sebastião, que lhe dava vida.
 
Como é que se chama afinal a alminha?
Sebastião José de Carvalho e Melo, respondeu a professora nova, pronta, rindo-se, para que a colega velha não se ficasse a meio de uma Glória.
 
 
Riram-se os quatro, até a que rezava, entraram para o carro, mesmo a tempo, que chegava a chuva, porque céu azul nos Açores não é todos os dias e ainda menos o dia todo, nem quando o arcanjo desfaz as nuvens, que a natureza manda mais que ele, porque é coisa de Deus.
 
Assim seja.
 
Miguel, sai-me das nuvens. Olha ali Lampedusa!
Bem sei, Rafael.
Disseste que ias tratar disso.
Tenho que tratar.
Torna-se urgente... Porquê esse sorriso?
Porque há histórias que são bonitas.
Gostas do Pico, não é? Inspira?
É, mas temos que ir para outras paragens...
Porquê?
Penso que isto vai tremer...
Muito?
O suficiente.
Para quê?
Para que se mudem as histórias...
Que sugeres?
O Kilimanjaro.
Gela-me o traseiro...
Os anjos não têm costas, quanto mais isso!
Kilimanjaro?
Kilimanjaro.
Tens visto o Gabriel?
Acho que tem mão nisto.
 
Deu-lhe grande alegria ao Sebastião, a D. Ercília, quando lhe revelou o que ele não tinha de afilhado de ninguém, assim livre de escolher quem quisesse para madrinha, o que ela gostava de o ser, de batismo, embora o quisesse crismado também, logo que fosse o seu tempo, que devia seguir os caminhos de Deus por mais sinuosos que lhe pudessem algum dia parecer, e agradecer mesmo aquilo que por vezes se lhe afigurasse mais coisa de mafarrico do que intervenção do Divino, pois era Ele o que escrevia direito por linhas tortas, e que o Homem nem sempre lê bem à primeira, tinha que entender, até porque tinha recebido mensagem de Anjo. O Sebastião percebeu tudo, menos os sinuosos, que era palavra que ainda não ouvira, nem em alemão, mas deixou para outro dia a tradução, para que descansasse a D. Cilinha e para se entregar ele a pensamentos no quarto dos fundos, a ver-se benzido, ungido, untado, apadrinhado como devia ser. Adormeceu com a cadela emaranhada nos seus caracóis. Pensou sonhar que contava tudo ao Gabriel. Sentiu que ele estava longe, certamente ocupado com outros órfãos. Pareceu-lhe ver no escuro do sonho um mar revolto, uma barca com crianças também escuras, no futuro, em aflição, sem anjo que as guardasse, nem outros brancos que as acudissem, só homens negros como elas, que se confundiam com a noite e com a morte. Em São Jorge não havia pretos. Acordou com uma outra preocupação, pondo de lado sonhos impercetíveis.
 
Madrinha!
Diz, filho.
Se calhar temos um problema...
Então que se passa, Titião, agora que tudo se compõe?
Quem há de ser o meu padrinho?
Ainda não tinha pensado nisso... Algum dos teus irmãos?!
Andam pelo mundo, um já pelo outro, não sei deles.
O senhor Zé Francisco da mercearia, é bom homem.
Chama-me Marquês, parece que me goza...
O Bombeiro Alfredo, o que joga à bola contigo?
Vai-se embora para a América.
O pescador, o Calvino, o que te levou um dia a ver as baleias?
Diz que está apaixonado pela costureira, que só pensa nela.
O Presidente da Junta?
Dizem que vai perder as eleições.
O Senhor Padre?!
É muito velhinho, D. Cilinha!
Ai, rapaz, que se me esgotam as almas boas daqui... Espera, o sargento, o da guarda, como o meu falecido? É uma autoridade.
Multou a professora Catarina.
A menina Madalena, a da Segurança Social? Tirou-te do buraco!
Duas madrinhas outra vez? Só a quero a si.
Espera, já sei, vamos batizar-te no dia de todos os Santos, o dia do teu aniversário, já o combinei com o Prior. Escolhes um Santo para padrinho. Fica-te para toda a vida.
Mas se são tantos...
Vamos ali ao altarzinho. Escolhes um.
Assim ao calha, madrinha?
É o melhor, não ofendes a nenhum.
Tipo cabra cega?
Pode ser, mas com cuidado, para que se não quebre alguma imagenzinha.
E se me sair Santa?
Se estiveres quase a tocar numa eu digo ‘frio’, se for Santo homem eu digo ‘quente’.
 
Vendados os olhos, receoso da escolha, com tanto Onofre, Olegário e Simplício, deitou-se o Sebastião ao tato para escolha de padrinho, receoso de melindrar algum ou de estilhaçar outro.
 
Frio, frio, essa é a Santa Teresinha, a do menino Jesus. Gelado, Sebastião, é nossa Senhora do Carmo. Glaciar, filho, é a Rainha Santa Isabel. Aí ao centro não, meu anjo, que é o próprio Nosso Senhor, pode ser demasiado. Quente, mais quentinho, vais bem, ai, ai que o fazes cair, agarra-o bem, isso, anda que te tiro o lenço.
Quem é?
S. Francisco Xavier.
Xavier, como o da cooperativa, o dos queijos?
Sim.
Gosto dele, deixa-me tirar bocadinhos.
Vês? Não correu mal.
Mas mantenho o meu nome?
Claro, Xavier.
Madrinha...
Estava a brincar, Sebastião José.
 
Sorriram ambos.
 
Será que eu nasci no Dia de Todos os Santos?
Ai, filho, isso é certo.
Como sabe a madrinha?
Porque me disse a Senhora Benvinda, a da Fajã.
Ah, essa deve saber, sim, que ajudava as mulheres a pôr-nos neste mundo.
Não te preocupes, rapaz, que tens data certa de nascimento.
 
E sentiu um arrepio, por nunca ter a Benvinda visto e pela segunda mentira que dizia ao Sebastião José Francisco Xavier de Carvalho e Melo. Pareceu-lhe sentir um segundo frio pela espinha, mas enxailou-se, benzeu-se e deitou-se a varrer a casa, para ocupar o corpo, distrair o espírito e manter o asseio.
O Tião partiu para a escola, quase cheio de novas vidas, quase com padrinho santo e tudo, estranhando apenas a falta de sinais de Gabriel que lhe revelara a sua não existência para o sagrado, agora tudo resolvido, graças a ele. Das questões civis não havia de saber, que a futura legítima madrinha entendeu poupá-lo a mais contactos com o Estado. Ela haveria de se governar com a menina Madalena e algum Conservador piedoso que desse vida a quem não tinha.
Passou-se outubro e o nervoso miudinho ia-se entranhando nos dois, até a Tirone andava agitada, mais do que o habitual. Tudo era preparativos, a lista de convidados, as vestimentas, as flores para a igreja. Entrou novembro, era vê-los angustiados, ‘se falha alguma coisa’, ‘se o Padre se acama’, ‘se S. Francisco Xavier se aborrece’, ‘se chove’, ‘se faz sol’, ‘se venta’, ‘se se queima o leite creme, logo por baixo, ao invés de esturricado em cima’, ‘se não cabe tanta gente naquela casa de bonecas’, ‘se não seria melhor alugar o salão dos bombeiros’, o pior era o dinheiro, que tinha que mandar algum para o Continente, para que viesse o filho à festa, e rezava a D. Ercília para que se retivesse por Coimbra, porque nem aniversário dele tinha tido tanto luxo, mas ele teve pai e tinha mãe, embora se esquecesse, e o Tião não tinha nada, haveria de compreender que filho de ninguém, afilhado de coisa nenhuma, sobrinho de tia ruim, merecia coisa de que não se esquecesse nunca, para compensar outras que lhe haveriam de custar lembrar. Apaziguava assim a alma, e deitou-se na véspera com formigueiro no estômago, com sensação de coisa estranha, com um amor pelo garoto como se fosse seu, que já o era e ela sabia-o, ele deitando-se também, cadela nada, logo na noite em que precisava dela, havia de ser algum cão, que ali havia-os, dormiu nada, que parecia ter bebido Coca-cola, assim enervado, já a ver-se sagrado, Credo rezado até ao fim, sem um engasgue, ainda que sem perceber o consubstancial, mas não era hora de acordar a madrinha, que repousava, que ele amava tanto, e ela sabia-o.
Sacudiam-se já os dois pela casa, seis e meia da manhã, encalhando-se, parecia preparo de casamento, não que ele tivesse ido já a algum, mas se batismo era isto, como seria boda, com muito mais arranjo, noivo e noiva, família de um, família de outro, penteados e vestidos, alianças e cantorias, tudo a duplicar. Haveria de preceder à água benta a missa aos Santos todos, ainda com direito a feriado, nos idos anos oitenta, e assim foi, só depois o batismo, Sebastião muito sério, D. Ercília muito direita, engomada, penteado novo, Catarina de fotógrafa, o professor de desenho de nada, a menina Madalena de embevecida, o Senhor Padre de enfastiado, o bombeiro de lágrima no canto do olho, não se sabia se pelo sacramento se pela partida para as Américas, o sargento sem convite, o Presidente da Junta em campanha, o pescador chegado em demasia à costureira, o São Francisco Xavier só em estátua. Gabriel nem sinal dele e a Tirone ainda sumida.
Água na testa, bênção dada, retrato de família, beijo de madrinha, agora sim, de pleno direito canónico, salva de palmas, uma alegria imensa, retratos, um tremor tão grande, quase ao mesmo tempo, o chão que se lhes fugia, a gente que gritava, que tombava, o Sebastião também, a madrinha com ele, os que corriam, as pedras que se largavam das paredes, o Cristo que nada fazia, o barulho que a terra deitava, todos os Santos que se partiam, no seu dia, deles e dele, do seu aniversário, do seu batismo, no dia que ele pensava ser o mais importante da sua vida, que nem à cabeça lhe tinham vindo comboios, nem putas, só coisas pias e a pia batismal.
A seguir o silêncio. O céu que se via do chão da igreja destelhada. O medo à natureza. O saber que aquelas terras tremem, só não se sabe quando, diferente da chuva, que é quase sempre, contrário ao verde, permanente, quem lhe dera o verde que agora lhe parecia tão bonito. O pó era castanho e custava-lhe tanto. O tremor era de repente, escondido, traiçoeiro, letal, mas consubstancial às ilhas, agora percebia-o, ao termo. Era agarrado àquele povo, que o temia, que o sentia, que não o abandonava, que persistia que a fé move montanhas, mais do que os sismos e outros fenómenos naturais. O Abade levantou-se, empoeirado. Perguntou ao Senhor porque não o tinha levado a ele em troca de corpos mais novos, já sem almas. O Senhor não respondeu, do alto da sua cruz, cara sofrida, parecia pedir ao Pai que afastasse dele aquele cálice. O Sebastião fechou os olhos para não ver a madrinha, e pensou só lhe ter largado a mão gelada depois de uma eternidade de dor, como ele nunca tinha sentido, sem ter pai a quem apelar. Alguns gemidos iam esmorecendo, outros recuperavam a fala. A menina Madalena chorava muito, em pé, o que era bom sinal. A professora Catarina tinha tirado a sua última fotografia. Era o que dizia, que partia para Lisboa, o que era sinal de que estava viva. Partia sem pousar nua, que se soubesse, pois do artista nunca mais sairia uma palavra.
 
Xavier!
 
Sebastião, sem recusar o nome, olhou para o Padre.
 
Que fazemos?
Enterramos os mortos e cuidamos dos vivos.
 
O Padre olhou-o, espantado, e ele espantou-se com a frase que tinha dito.
 
O filho de D. Ercília chegou atrasado à igreja, feito Doutor e tudo, canudo na mão, que a mãe já não viu.
 
Gabriel!
Rafael…
Estás triste?
Sim.
Aquilo de Lampedusa?
Também.
Que há mais?
Histórias bonitas que são tão tristes.
Como o Romeu e Julieta, como o Pedro e Inês?
Sim.
E não podes fazer nada?
Não, são os desígnios de Deus.
Assim seja.
 
E poderia acabar assim a história do Sebastião, mas continuou por semanas de silêncio e de ausências, de despedidas, de espaços vazios, de incógnitas, de sabe-se lá, de réplicas de recordações, que a terra não mais se mexeu, o que parecia quase humilhante, um sacudir tão forte, segundos, uma destruição barulhenta e depois nada, absolutamente nada, como que tendo partido para outras bandas, como que não querendo saber mais daquelas ilhas, como que de propósito, só para lhes lembrar que era quando tinha que ser, que a qualquer momento as suas vidas estavam nas mãos da natureza, forte, única, produto de Deus, mas parecendo coisa do Diabo.
Acampavam-se todos em tendas gigantes trazidas do Continente, comoviam-se todos com as ajudas, a mobilização da Nação. Sebastião percebia o que era ser português, percebia que embora no meio do Atlântico tinha uma pertença a algo maior, logo ele que não pertencia a nada, que estivera quase, mas que o quase acabara debaixo de água benta, rezas e de um telhado. Culpava-se a ele, estivessem noutro sítio, talvez numa procissão, talvez no campo, talvez em algo a céu aberto, talvez no seu quartinho dos fundos que resistira sabe-se lá como, tão frágil ou tão insignificante que nem para terramotos servia. Culpava-se de ter empurrado todos para um batismo que virara enterro, para um Todos os Santos que acabara em finados, festa que culminara em tragédia, madrinha que acabara em defunta, brancos que acabaram em negros de lutos, viúvas, mais órfãos como ele. A Catarina partira, o Padre fora-se abaixo, o filho da D. Ercília não o via, a Tirone sempre sumida, tempo demais, a Fajã engolida pelas águas do mar, dizia-se, ele à deriva em terra. Invocou Gabriel, procurou a pinturinha nos destroços de casa, achou-o despedaçado, benzeu-se, pediu perdão por se querer batizado duas vezes, por querer madrinha duplicada, por querer algo para o qual sabia não ter nascido, já que era ninguém.
Lembrou-se de invocar a menina Madalena, a do Estado, que afinal servia para alguma coisa, como aqueles exércitos, aqueles médicos, aqueles enfermeiros, aquele descarregar de comida e camas. Ela apareceu-lhe, não como o Gabriel, real, em carne e osso, sem brilho, séria, enlutada também, foi seca, embora triste, rápida, que arrumasse o que tivesse, que o vinham buscar na quarta-feira, que tomava um avião, que parava em Angra e seguia logo para Lisboa, que família não tinha, quem olhasse por ele ainda menos, tinha que compreender, que o Dr. de Coimbra lhe ligara, que dele não se ocupava, nem pela memória da mãe, que ela não o demovera, ainda na quarta-feira chegaria à capital, que alguém o haveria de esperar, dali para uma casa, que era pia, que por isso haveria de ser boa, que tinha outros rapazes, que havia pior. Sendo de ninguém, assim fez, tal e qual, sem tirar nem pôr, tintim por tintim, até ao mais ínfimo, caminho da capital, até ao beliche, até ser enxovalhado pelos mais velhos, até ao Natal, até ao verão, até às colónias de praia, até ao encarregado lhe perguntar se queria ver os comboios, até ele dizer que sim, até perceber que não os via, até à casa de alguém, uma vez e outra, pior no início, indiferente depois, ele e mais outros, silêncios ensurdecedores, coisas piores que a natureza, sempre rotinado, calado, anulado, desprezado, porque crescia, porque fugido, angariado para obras, Espanha toda, tijolos, baldes de massa, ferros, músculos. Corriam crises, tudo parado, voltou ao seu país, feito homem.
Olhou, espantado, para as escadas da pensão, nem estreitas, nem largas, e viu-a, ampla, não gorda, mas como que tudo ocupando, branca, aloirada, preenchida, quase alta, olho azul, quase impondo o seu aluguer, quase impossível, como que por medo, dizer-lhe que não. Emanava-lhe autoridade de meretriz, embora nova, embora despertando vontades.
 
Decide-te, homem.
Acabei de chegar, primeiro quero acomodar-me. Vê as malas?
Quero lá saber da tua vida, quero é descer. Anda, sobe, encolhe-te, cabemos os dois.
Isto é estreito...
Às vezes dá jeito.
Sobe lá!
Vou subir.
 
Por um milímetro quase se tocavam, e ele sentiu o seu perfume barato, embora nunca tivesse cheirado grande coisa dos caros.
 
Vai lá ao quarto deslargar as malas e vamos tomar um café.
Acabei de chegar, primeiro queria acomodar-me…
Já disseste isso. Põe lá as malinhas e vamos a um cafezinho antes de eu entrar ao serviço. Gosto de uma bica com desconhecidos, desabafo melhor. Com os clientes não estou para conversas, é outro negócio, com os daqui já me cansa.
Quer desabafar?
Logo se vê.
Estão cá muitos hospedados?
Uma dúzia e meia, perdidos na maior parte. Cuidado com a Evangelina Joly, que é um homem. Os outros velhos, o resto somos todas iguais.
Qual é o meu quarto?
Eu é que sei?!
É o sete.
Então é esse aí, já à esquerda, não é grande charuto. A primeira porta, essa. Anda lá.
 
Sebastião abriu a porta, acendeu a luz, viu uma janela com vista para nada, uma cama minúscula de largura, parecia-lhe só comprimento, uma esteira levitando, pernas finas, duas mesas de cabeceira, uma de cada feitio, um quadro com uma gravura torta de Sintra, uma cómoda moderna, parecia de plástico, um tapete russo de tanta esfrega, um fio com cruzetas metálicas, fininhas. Suspeitou de uma barata e ouviu um grito.
 
Anda lá, que não tenho a noite toda! Ai a moenga…
Está quase!
 
Correu a um espelho enferrujado na casa de banho e pensou que não estava mal, ele, não o espelho, esse uma miséria. Uma pensão destas até devia ter daqueles de teto, mas só lá viu o candeeiro, forma de flor, luz por milagre, com lâmpadas do século passado.
 
Ai a minha vida...
Desço… Você é impaciente, mulher.
Vais pagar-mas! Um café e um bolinho de arroz. Sou maluca por tudo o que é tipo queque. Isso e favas com chouriço.
Ainda está no mesmo sítio?
Aqui de seca. Se ponho o pé na rua já se sabe, entro na labuta e sem café não funciono, quer dizer, funcionar funciono, que sou uma profissional, mas parece que não acordo, que me falta alguma coisa, que pino dormente. Parecem manias, mas é assim.
Onde vamos?
Aqui ao lado, à Ivone, a do café Princesa da Almirante. Paramos lá todas. Já sabe ao que vamos. O que quer é que a pinga saia. Ao que vens? Nunca paraste lá?
Cheguei hoje a Lisboa.
Tens um sotaque esquisito.
Sou açoriano.
Vens de lá?
Agora de Espanha.
Nunca tinha visto nenhum assim às claras. À noite não sei, que todos os gatos são pardos.
Um quê?
Um açoriano.
E você?
Você... Gente fina! Trata-me por tu.
De onde és?
Sou alentejana, mas fui em gaiata para o Algarve, para Olhão, fiz-me marafada.
Já percebi.
Ainda não viste nada. Ponho esta pensão às avessas se me picam. Que achaste do quarto?
Falta-lhe um espelho.
Tu vens para aqui de chulo ou maricas?
Nem uma coisa nem outra.
Então deves andar perdido.
De alguma maneira…
Sr. Rogério, o homem aqui tem uma reclamação... Quer um espelhinho.
Para quê, menina Zeza, não lhe chega o seu?
Não é isso, homem, é cliente do estabelecimento, não meu, deu-lhe agora mesmo a chave do sete. Vossemecê já não dá conta do recado!
Isto é um entra e sai... É tanta cara! O sete não tem espelho, cavalheiro?
Um bocado enferrujado, pouco se vê...
Ai, temos caprichos… Quer-se ver, este!
Quero. Hei de cortar as faces a escanhoar-me, claro que quero.
Vou ver o que se arranja. Mais algum reparo, cavalheiro? Talvez um toucadorzinho...
Só o espelho.
Olhe, para não ficar à espera vá ali ao chinês e compre um, que depois a gente acerta com o preço do quarto.
Então o homem não é paquistanês, Sr. Rogério?
Filha, eu troco-os todos. No meu tempo era tudo lisboeta ou galego. Agora há de tudo. O Intendente é que devia ser o Parque das Nações, daqui até ao Martim Moniz. Tanta cor, tanta língua, parece o festival das canções, o de agora, não o de antigamente, que era tudo em falar que se sabia de onde era. O cavalheiro também não é de Lisboa, tem um sotaque esquisito.
Sou açoriano.
Ah, mas é dos que se percebe.
Sou de S. Jorge.
Ah, e esses percebem-se?
Pelos vistos…
Então quais são os que não se percebem?
Vocês não percebem os de S. Miguel.
Ah...
És da terra do Ronaldo?
Não, menina Zeza, isso é a Madeira!
Eu confundo isso tudo. As ilhas algarvias é que são boas, que água tão quentinha. São Jorge fica em São Miguel?
Não, Zeza, S. Jorge é uma ilha, São Miguel outra, tudo nos Açores, mais umas poucas.
Eu cá para mim é tudo igual. Nunca fui grande coisa com as geometrias.
Geografias, menina Zeza, geografias.
Não me inferiorize, Sr. Rogério, não tenho a sua vida para passar o dia deitada em cima dos jornais, só quando vou à cabeleireira é que pego numa revista ou noutra, mas fala-se doutras coisas, das sociedades, das festas, dos divórcios, dos finos. Ah, e os classificados, também lhes passo os olhos. É para ver como está a concorrência. É cada malcriadona, fotografias e tudo! Há de me guardar os de hoje.
Olhe que é azar, forrei uma gaveta com eles.
Guarda-me os de amanhã, ou então leio na gaveta. O pior é a vista. Isto são que horas?
Um quarto para as dez.
Ai, Mãe Santíssima. Despacha-te lá, homem. Desafias-me para um café e não saímos disto.
Vamos lá a isso, Zeza!
Ai, as confianças... Menina Zeza! Como é que te chamas?
Sebastião. Tu és Maria José?
Eu não. Sou Mariana, mas quando vim para Lisboa mudei-me para Zeza. Mariana não é para este serviço.
Mariana é bonito.
Por isso mesmo. O serviço nem por isso. Aqui chamas-me Zeza. Posso passar sem o menina, estava só a armar-me.
Ainda bem. E és Mariana mais quê?
Mais quê do quê?
Não tens mais nenhum nome?
Mariana Alcoforado, e nada de graçolas senão sai já chapadona.
Graçolas?! Ah... Já percebi.
És de compreensão lenta. Arranja lá aí um cigarrinho que eu esqueci-me dos meus. Sra. Ivone, este é o Sebastião. Vem da terra do Ronaldo, ou de lá perto. É ilhas também. Vem-se instalar, mas diz que não vem de panasca nem chulo. Já sei, vens de prostituto, vender-te a velhas ricas. Aqui nesta zona não te safas!
Fiquei ali porque calhou. Cheirou-me a barato. Quando arranjar emprego mudo-me.
Cala-te, mulher, olha o chuledo já a olhar, ainda me arranjas um trinta e um!
Comigo? Era o que mais faltava! Sou livre, não há homem que me governe. Nem eu me governo a mim, quanto mais... Bastou o meu pai. Se não fosse coxo já tinha vindo ver de mim cá a Lisboa.
Bom, fala baixo que isto é café de respeito...
Sra. Ivone... De respeito é como quem diz. Vá, tire lá dois cafezinhos e um bolinho de arroz, que paga aqui o amigo. Senta-te, Sebastião. Tive um tio Sebastião e outro Chico, não sei que é feito deles. Então, vieste à procura de trabalho... Olha que isto está muito ruim, só crise, só crise...
Cansei-me das Ilhas, afoguei-me em verdes, vacas e chuvas.
Há de ser bonito, tudo verdinho… Aqui é mais para vacas. Chuva é quando calha. No Algarve é que era pouca.
Bonito em excesso.
Olha que Olhão também, muito peixe, muito marisco, muito homem, rijo, do mar.
E porque te vieste embora?
Cansei-me do meu pai, sempre em cima de mim. Para isso não coxeava o cabrão...
E a tua mãe?
Mais puta do que eu, mas muito acabada.
Sempre fizeste disso vida?
Que remédio! Quando cheguei a Lisboa ainda andei de mulher a dias mas, filho, aquilo ganha-se mal e dá cabo das costas. Cada vez que me lembro do varrer e do brunir até se me estala a espinha. Voltei para mulher a noites.
Sempre se trabalha deitada, não é?
Ai, a confiança...
 
Mas soltou uma gargalhada de tolerância. Simpatizava com o ilhéu.
 
Ainda hás de cá vir bater à porta da Zeza. Até te faço um desconto por seres vizinho e teres boa pinta. Olha que tu para ruivo...
Posso chamar-te Mariana dentro do quarto?
Para quê, homem? Eu encanito com isso… Começas com um cafezinho e já vais a querer chamar-me pelo nome de família. Olha, arranja aí outro cigarrito que me esqueceu o tabaco.
Então queres fazer isto para o resto da vida?
Não, a gente é de desgaste rápido. É como os do futebol. Quando amealhar e os velhos baterem a bota volto para o Algarve. A casa não é grande coisa, mas é nossa.
Não tens irmãos?
Uma que se finou de cólera.
Cólera? Pensei que já não havia disso.
Cólera de ruim que era. Invejosona, caçava-me os gajos todos, tinha a mania que era melhor.
Morreu com quê, afinal?
Toda picada, com heroína até às orelhas.
Tu também te metes nisso?
Olha bem para mim… Eu quero viver muitos anos, trabalhar, amealhar e dar descanso ao corpo, sobretudo às partes.
 
Soltou uma gargalhada.
 
Dá aí mais um cigarrinho que me pus nervosa a falar destas coisas antigas. Eu não te disse que desabafo melhor com desconhecidos? Tenho é que me pôr a andar, senão não faturo. Nem que fosse um... Sra. Ivone, arranje-me aí palitos.
Tu e os palitos, mulher... Não podes meter nada na boca que te paulitas toda.
Depois diz que isto é uma casa de respeito!
 
Soltaram as duas uma gargalhada.
 
Sebastião... Há uma coisa que eu gostava de ser, sem ser puta ou a dias, mas parece-me ruim de se arranjar.
O quê?
Eu se não fosse puta gostava de ser Santa.          
Santa?!
Santa. Não como a mãe de Deus, Deus me livre, que isso foi caso único e virgem onde lá vai... Uma Santa assim daquelas que se fazem na terra, por muito milagre, muita visão. Daquelas que andam por este mundo e fazem o bem.
Como a Madre Teresa?
A de Calcutá? Já a fizeram Santa?
Ou Santa ou Beata.
Para Beata não presto. Eu sou de extremos. Só santificada é que me deslargava de puta. A pessoa tem que ponderar tudo. Perder a renda e ficar só de Beata...
Quantos milagres há de ser preciso para Santa?
Ao certo... Pelo menos meia dúzia.
E Beata?
Diz que é mais fácil.
Sebastião, dizem que os madeirenses são muito devotos…
Eu sou açoriano, Zeza.
Mas és devoto?
Têm-se-me baralhado as coisas na vida, mas a minha madrinha disse-me que os caminhos de Deus eram sinuosos. Quero acreditar nela.
Não percebi nada, mas um destes domingos vais comigo à missa.
És de ir à missa?
Todos os domingos.
Zeza…
Diz lá.
Visões, já tiveste?
Só uns sonhos, com uma freira, fechada num quarto, fechada num convento, de lá não sai, passa-me os dias a escrever, mas nunca chega ao fim, nem ela, nem o sonho.
Pode ser uma mensagem… Eu em pequenino falava com um anjinho.
Ui, eu estava a achar-te muito escorreito, mesmo para madeirense. Vai lá ao chinês que ainda fecha, para comprares o espelho, que eu vou rodar a balsa aí para a avenida. Olha, deixa-me só um cigarrinho dos teus, só para mais daqui a bocado.
Sra. Ivone, quanto devo?
Dois euros e oitenta.
Dê-me também um SG filtro.
A Zeza é boa moça, mas tem este vício…
O da vida?
Não, o de cravar tabaco. O da vida não é vício, é a vida.
Boa noite.
Até depois.
 
Regressava à pensão e viu-a, acima, abaixo, entalada num corpete encarnado, mini-saia preta, perna ao léu, fumo a sair-lhe pela boca, séria, fingiu não o ver. Trabalhava. E em Lisboa sufocava-se neste mês de agosto.
Acordou com fortes pancadas na porta. Não se assustou porque há muito tinha perdido o medo.
 
Sebastião, levanta-te!
Zeza?!
Quem haveria de ser? Vá, toca a erguer, vamos à missa.
É domingo?
Sim, combinámos no outro dia. Vá, andor.
Combinámos? Dá-me cinco minutos.
 
Acordou quase bonito, como quase sempre, molhou mãos, cara e cabelo, alisou caracóis numa pressa, só com os dedos, que mais não tinha, deixou a barba, vestiu-se, tropeçou na calça, trocou a manga, enfiou sapato, sempre velho, o melhor que tinha, para ir à presença de Deus, com uma puta. Lembrou-se da última vez no templo, tremeu um pouco. Tanto tempo... Desceu escada, passou rápido, ‘bom dia Sr. Rogério, bom dia menina’, saiu à rua, procurou, nada. ‘Pôs-se a andar’…
 
Sr. Rogério, viu por aqui a Zeza?
Cavalheiro, ao seu lado…
 
Virou-se.
 
Zeza?!
Que foi, homem? Parece que nunca me viste...
Assim com tanta roupa não...
E querias que eu fosse feita corrécia à igreja?
Não... Mas pareces uma freira!
Essa agora! Anda lá, que temos que apanhar o metro.
Onde vamos?
Ao Chiado. Gosto de missa chique.
Vamos a pé, escusamos de gastar dinheiro.
Não dá tempo, e não conto pagar bilhete. Depois confesso-me.
E eu?
Isso é lá contigo.
Se sou apanhado...
Ai, homem, tanta mariquice… Vamos embora!
 
Sebastião…
Diz.
Às vezes parece que falas espanholado, como os de Vila Real de Santo António, de tanto ir a Aiamonte, como o Ronaldo, que joga no Barcelona.
No Real Madrid.
Tanto me dá, coño é coño, seja lá de onde for. Uma vez tive um espanhol. Falou pouco, deu-me mais cinco euros. Chamava-me cariño enquanto eu o fazia.
Trabalhei em Espanha mais de dez anos, andei nas obras.
Não vieste dos Açores?
Antes de ir para Espanha.
Ah... E as obras?
Acabaram-se.
É como cá?
Pior. Aqui é a nossa terra.
Puta da crise! Também ando a render pouco.
Puta da crise…
Como te safas?
Trouxe pouco. Ando à procura de alguma coisa, qualquer coisa.
Tenho aí uma ideia, mas agora cala-te que vem o Padre e o que estou a pensar é assunto para ser pecado.
O que é? Diz lá!
Com um corpão desses, tens que pôr isso a dar dinheiro, homem. Agora cala-te.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
 
Ela concentrada, saia abaixo do joelho, casaquinho pelas costas, tanto calor, sapato raso, carteira discreta, ajoelhando-se, dizendo tudo ao ritmo certo, o mea culpa, os aleluias, cantava, comungava, igual às outras senhoras.
 
Ide em paz.
 
Sebastião… O que raio significa consubstancial?
 
Ele fingiu não saber.
 
Pensei que sabias. Tu falas bem. Foste educado?
Nalgumas coisas. Zeza, então conta lá isso...
Do quê?
Do meu corpão.
Então, está fácil de ver, com essa idade, esse músculo de obras, com esses caracóis, com essa diferença de seres tipo ruivo ou tipo loiro, não sei bem, depende do sol, fazes-te puta, só que em gajo. Agora é normal. Pões um anúncio no jornal e ele começa a entrar. Na pensão não te ponhas a receber, ficam-te logo com metade. Fazes domicílios ou enfias-te noutra residencial, como elas ou eles quiserem.
Eles...?
Não te faças esquisito!
Não sei...
Sei-o eu. É disfarçar e despachar. O que achas que me aparece ali no Intendente? Lá de vez em quando uma coisa que estimole, o resto é velhos e bêbedos. Nem os sinto.
Estimule.
Foi o que eu disse.
Já foste com mulheres?
Eu não. Não é o meu mercado, isso dá pouco. As fufas andam umas com as outras.
Pôr o anúncio e não pôr, mais o dinheiro que deve ser, nem daqui a dias…
Dois, três dias, faturas.
Não me dá, o que tenho é para a pensão, cigarros, comer alguma coisa.
Por falar nisso, arranja aí um cigarrinho.
Tens que parar com isso...
O quê?
De cravar.
Eu?!
Zeza…
Diz.
E assim no curto prazo?
O que é isso?
Preciso de dinheiro para ontem...
Lá em Espanha deram-te subsídio?
Estive sempre ilegal.
Esses anos todos?!
Eu sou como se não existisse.
Eu também sou ilegal, deixa lá…
Tens sonhado com a freira?
Todas as noites, parece que me quer falar.
Um dia destes fala-te.
Se calhar… Que me quererá? Sebastião…
Diz.
Assim no curto prazo, como tu dizes, se não te queres meter no gamanço, só se fores ao Parque.
Que parque?
Ao Eduardo VII.
Nem morto.
Faturas para o anúncio, só lá vais uma vez! Fechas os olhos e recebes 30 ou 40 euros. Como está para os homens não sei. Se calhar uns 50. Com a crise é melhor 35. Só o oral, pois claro. Mais é mais.
Nem morto.
Uma noite, pões o anúncio e depois é só gajas. Eu guita não te posso emprestar.
Não pedi nada.
Uma noite, homem... Se isso do anúncio depois correr bem, montamo-nos os dois por conta própria, tipo sociedade, apartamento e tudo.
Deixas a rua?
Deixo.
Só esta noite, então…
Isso é de homem!
Não sei se é...
 
Não queria pensar em nada, não queria recordar-se de coisa nenhuma. A noite estava quente o suficiente para lhe tolher os sentidos, para não saber o que fazia, para se entregar ao que quer que fosse, sem se entregar a coisa nenhuma, para não se deixar levar agora pelo destino de que fugira aos dezasseis anos, para preferir as madrugadas geladas de Castela, o cimento frio nas mãos, o silêncio dos outros emigrantes, também dos castelhanos, dos que não tinham subido na vida. Percorreu a pé meia cidade, pernas fortes que lhe fraquejavam ao aproximar da mancha verde do Parque. Sentiu-se regressado à Fajã, ao temor só de duas cores, sentiu-se gaiato pio, que se tornara daltónico só para não ver qualquer tom. Seria isto o escrever direito por linhas tortas, seria este o seu caminho sinuoso, que ainda não tinha sido senão isso? Lembrava-se da madrinha e achava que sim, que algures, um dia, a escrita se haveria de endireitar, as letras todas alinhadas. Precisava de acreditar nisso à falta de destinos retilíneos. Pensou na Zeza, na sua forma de estar, no seu ar conformado, tola, fazendo-se tola, aceitando-se tola, aproveitando-se de tola. Perdeu-se em sombras noturnas de árvores, hesitou mostrar-se, pensou que ninguém o conhecia, nem ali nem em parte alguma, pensou que a sorte lhe haveria de mudar, alguma empreitada, uma estrada ou uma barragem em África, iam todos para lá, pior seria o dinheiro para a passagem, talvez pudesse ser angariado, como o fora para a Espanha, era um risco, tinha que ser, talvez Boston ou o Canadá, a França estava ruim, talvez a Alemanha, lembrava-se de quase tudo, falava sozinho à noite para não se esquecer, até lhe servira um dia para um certo embaixador, embora não precisassem de grandes palavras, ambos.
Achou-se encostado à janela de um carro. Podia ser pior. Asco por asco que não fosse asqueroso. O outro puxava conversa, quase simpático, gelou ao ouvir falar algo da Casa Pia. Deixou de pensar. O outro pediu-lhe um nome. Saiu-lhe Xavier, balbuciou algo mais. O outro seguiu, ele fugiu dali, pernas fortes, que não lhe fraquejavam com a vontade de desaparecer depressa. Não chorou porque já tinha chorado tudo na vida. Lembrava-se da madrinha, jurou que tinha de se fazer bom homem, não que se achasse mau.
Roía-lhe o estômago no quarto da pensão.
 
Zeza!
Quem é?
Sou eu, abre a porta.
Deitei-me agora, estou toda amassada, isto hoje não foi pior, deve ser do subsídio de férias, dos que tiveram. Volta mais tarde.
Abre agora, por favor.
Correu bem?
Bem mal.
Nada?
Nada.
Estranho.
Abre a porta, desfaleço de fome aqui no corredor...
Não tenho aqui nada.
Não sejas assim. És sovina demais.
Entra lá, porra, está aberta.
Nem galletas?
Que é isso?
Bolachas.
Um pedaço de pão com queijo.
Serve, já nem vejo…
Come.
Dorme comigo.
Contigo... À borla?
Sim, dorme comigo. Só esta noite.
Mau... Eu sei que não és maricas. Aquilo era só para fazer algum!
Não quero provar nada. Só que durmas comigo. Isso e o pão com queijo.
Tudo de borla...
Não sejas sovina.
Que mania a vossa, sou só poupada. Deita-te e dá-me um cigarro.
Não fumes agora. Abraça-me.
Mau... Lamechices!
Abraça…
E o pão com queijo?
Depois. Abraça-me.
Não seja por isso...
Mariana…
Nem penses!
Mariana.
Eu assim vou-me abaixo, homem...
Mariana.
Tião…
Hummm?!
Fica bonito, Tião...
Fica…
 
Enlaçaram-se. A cama ferveu pelo colchão ruim de pensão barata, pelo calor dos seus corpos, pelo arruivado dele, pelo louro dela, tudo incandescia, pela entrega dos dois, pelas réplicas, por algo que não tinha preço, pelos sonhos de cada um, meras ilusões, assim pensavam. Punha-se o sol.
 
Sebastião…
Sim, Mariana?
Fizemos amor?
Creio bem que sim.
E agora?
Agora temos que nos amar.
Esqueceste-te do pão com queijo.
 
Deixaram cair a noite. Ela ofereceu-se para pagar um comer fora, um restaurante tipo tasca, que não fosse caro, que ela não era forreta, só queria aforrar, sair dali, fazer uma vida normal, tudo menos limpezas. Disse-lhe que brincava muito, que tinha que ser, fazia parte, mas que ao regressar à pensão chorava, depois de emporcada por tanto homem, enquanto se lavava vezes sem conta, depois de contar o dinheiro vezes sem conta, que não chegava nunca, que a obrigava a manter-se de puta, quando o que queria ser era, senão Santa pelo menos séria, senão em altar pelo menos em casa que fosse dela, senão por amor a Cristo pelo menos com o amor de um humano, senão virgem pelo menos penetrada só por quem lhe quisesse bem. No fundo, só isso.
 
Que idade tens, Mariana?
35. Tu?
41.
Largavas isto?
Se isto me largar a mim, se tu não me largares…
Podíamos partir.
Para onde?
Por esse mundo.
Estou cansada.
Para mais perto.
Voltemos para a pensão, para dormir.
Sobre esse assunto?
Dormir mesmo, estou cansada, amar cansa.
Amar dá vida. A vida cansa.
És um romântico.
Deus queira que sim.
Tornas-me mole.
Durmo contigo?
Deus queira que sim.
 
Sebastião!
Humm…?
Acorda. Acorda mesmo!
Que horas são?
Madrugada, não interessa.
Que se passa?
A freira falou-me.
Falou-te?!
Não, escreveu-me, é maneira de falar, que ela não fala, só escreve, e hoje deixou-me ler.
Que leste?
Uma língua estrangeira que se transformava em português. Magias, ou assim. Escrevia que partíssemos, que estava contente por estarmos juntos, que ela nunca tinha conseguido ficar com o seu amor, o que estranhei, pois pensei que só amaria a Cristo, deve ser por eu ter sido puta que me saiu uma freira mais atrevida, que fôssemos para o estrangeiro, onde eram quase todos loiros, falavam língua arranhada, tu a trabalhar em fábricas, não em obras, em fábricas com pedaços de automóveis, eu a cuidar de gaiatos pequenos, não sei se meus se de outros, um ruivo, bonitinho, disse que isto aqui há de ter destino, sempre teve, mas que há que pená-las, vai demorar uns anos, como sempre, empregos poucos, ainda pior para nós que somos de fracas instruções, tu mais alguma, só pelo falar se vê, eu já me vi grega para conseguir ler tudo isto, se calhar por ser em sonhos, que tudo fica mais difícil, pior que os classificados, apesar das letras miudinhas, mas dúvidas não tenho, nisso foi clara, que partíssemos.
Mariana, eu fui Casapiano…
Casa quê?!
Estive interno na Casa Pia.
Como aqueles do escândalo?
Como esses.
Sofreste?
Como esses.
Que fizeste?
Tentei esquecer, fugi, tornei isso falso.
E viveste do quê?
Das partes boas.
Dessa casa?
Não, lá não houve partes boas.
Onde houve?
Nos Açores.
Não eras pobre? Para ires para a Casa Pia havias de ser pobre...
Nos Açores fui rico, pouco tempo, mas fui.
Quanto tempo?
Mais ou menos um ano.
E tens vivido a vida agarrado a um ano?!
É melhor do que nada. Tu vives agarrada a quê?
A ano nenhum… Escutamos a freira?
Ela falou?
Não… E maneira de falar, já te disse.
Que estrangeiro terás lido?
Essa é a parte que me desnorteia. Que vais para mecânico, ou assim, e eu com crias, ou assim, foi claro, já a língua... Que raio de língua, nem de se ler era se não se transformasse na nossa! 
Tipo chinês ou árabe, assim com uns desenhos esquisitos?
Não, que se fosse desses eu até chegava lá, a viver no Intendente há tanto tempo.
Francês, inglês?
Inglês até dou uns toques, sou quase algarvia. Franciu não me cheira, senão aparecia eu de limpezas ou porteira. Aquilo era palavras do mais comprido, cada uma, tudo arranhado, palavrões engalfinhados.
 
Sebastião desatou-se numa papagueada em alemão. A Zeza escutou-o atenta, surpresa, braços cruzados em cima das mamas, combinação vestida, que não se lhe dava para se deitar nua, senão quando tinha que ser, ainda menos desde que amava, que se achava de ter que andar mais composta, olhos virados ao ar, concentrada em cada som.
 
Que te pareceu isto?
Não sei que raio é, Sebastião, mas digo-te que se tivesse que falar o que li, andaria lá muito perto.
É alemão, Mariana.
Então é para irmos para a Alemanha.
Onde aprendeste o alemão?
Nos Açores.
Ele há coisas... Foi na base?
Não, a base é americana. Fica na Terceira.
Também falas americano?
Não.
Pena, gostava de ir para a América, mas se a freira nos manda para a Alemanha, ela lá sabe o que nos reserva.
Pois...
Até fica mais barato.
Lá isso...
Um dia ainda hei de decorar essas ilhas todas.
 
Falaste em parir?
Um dos gaiatos deve ser nosso…
Escreveu-te a freira?
Não, falta-me o período.
Mariana...
Abraça-me.
Se for rapaz?
Francisco Xavier.
Pode ser.
Se for menina?
Não vais gostar...
Diz lá!
Ercília.
Pode ser. Chamamos Cilinha.
Mariana... Abraça-me.
 
Quando partimos?
Logo que acabe os biscates à Ivone. Mais uma semana e o café fica um brinquinho, pintura nova e tudo.
Aquilo estava amarelo... Achas que dá para os bilhetes de comboio?
À justa. Diz lá outra vez o nome da cidade.
Dusseldorf.
Que raio de língua. Poças, que isto vai ser complicado.
Habituas-te.
Sebastião, eu tenho um sonho.
Seres Santa.
Acho que vou ter que pôr isso de lado, assim prenha, num país em que nem me percebem, Santa casada, Santa com filhos. Desconvenço-me disso.
Então?
Ir a Paris. O que eu gostava… Comprávamos o bilhete lá para isso do Seldorf, mas íamos por Paris, íamos ver a Torre Eiffel. Dá um desvio muito grande?
Uns bons quilómetros, mais do que daqui ao Algarve aí umas quatro vezes, assim a olho.
Não, em dinheiro...
Não deve dar.
Também sonhas ir a Paris?
Não, mas sonho com o Sud Express. Para Paris vai-se no Sud Express.
Não percebi nada...
Eu explico-te os meus sonhos, um dia.
Sebastião…
Diz.
Esse gajo que te arranja a fábrica lá na Alemanha será de confiança?
Foi Casapiano comigo.
Não te enganará?
Não, temos os nossos segredos.
Foi sorte encontrá-lo.
Estava escrito.
Essa parte não.
É maneira de falar… A freira tem aparecido?
Desde que estou grávida não, só aquela noite.
 
Quantos dias ficamos em Paris?
Só três, não se pode esbanjar.
Vou comprar os bilhetes.
Que alegria imensa! Quando partimos?
Dia 7, chegamos a 8 de setembro.
Vou ligar à minha prima Adelaide para nos dar guarida.
Ela é...
Puta? Não, vive dos subsídios, lá há muitos.
 
Sebastião espantava-se agora na viagem com tanto verde do bom, deste que até se gostava, certinho, entre cercas, delimitado por bosques, arrumadinho, harmonioso, como tudo o resto, desde que atravessara a fronteira francesa. Apercebia-se dos primeiros toques de Europa, da Europa mesmo, onde não se gritava nos transportes, onde só se murmurava, onde as estações eram no centro das cidades, com avenidas e praças logo em frente, quase iguais, à escala, aos esquadro, à régua, tudo apropriado, até os portugueses que vinham de Lisboa e que tinham embarcado pelas Beiras transformados em mais direitos, mais silenciosos, menos os espanhóis, que esses são de ruído sempre. As cidades faziam-se anunciar docemente, Biarritz, Bordéus, Poitiers. Entravam e saíam jovens, com mochilas, com livros, com os seus iPhones, com os seus laptops, sempre em murmúrio, sempre em civilizado. Poderia viver num comboio, ver lugares só a partir das janelas das carruagens, ouvir línguas estranhas, talvez faltassem azulejos nas gares, talvez o som dos carris, aquilo ali deslizava, parecia nem se mexer, só as paisagens, o gado lá fora, nem se despenteavam as mulheres dos apeadeiros, de pau no ar, nem se abriam cancelas, nem se parecia num comboio, talvez um avião. Poderia correr mundo com a Mariana a dormitar em intermitências desde Portugal, talvez por se andar ainda a adaptar ao fuso de gente do dia, talvez pela gravidez, talvez pela sonolência que dão as máquinas, ibéricas ronceiras ou francesas sofisticadas.
 
Mariana!
Que foi?
Olha, Bordéus.
Parece o Porto.
Já foste ao Porto?
Não, mas deve ser assim para o escuro. Será que Paris é escuro?
Dizem que é a cidade luz.
Ainda bem.
 
E era. Paris era a cidade luz, ainda que num dia cinzento. Quantas Avenidas da Liberdade, umas a seguir às outras, quantos Restauradores ali todos coladinhos, em grande, em quartiers, quantas pessoas bonitas, quantas gentes de todo o lado, mais do que no Intendente, só estranho porque ninguém olhava, como no comboio, viviam lá a vida deles, alheios ao rolar do resto, alheios às caras diferentes, às falas, às cores, ficariam por ali, não fosse o escrito da freira que os mandava para a Alemanha, que não haverá de deixá-la mal. Quem seria a freira? Mariana só fechou a boca para dizer que não deveriam ter apanhado um táxi, que valia pelas vistas mas que haveria de ser caro.
Sebastião só abriu a boca para dizer ‘Pois é’.
A prima pouco se incomodou com eles.
 
Já vão dia 11, não é?
Sim.
Pois, é o melhor, dois ou três dias cá chega bem, um Sacré Coeur, uma Notre-Dame, uma Torre Eiffel, uns Inválidos e está tudo visto. Vocês não devem ser de se enfiar no Louvre a ver a Mona Lisa, ou lá o que é.
Inválidos?
É uma espécie de igreja, só que para maior, parece que está lá enterrado o Napoleão. Nunca lá fui.
Pouco sais?
Assim doente fico em casa, por causa do subsídio. Dizem que até posso sair, mas não me arrisco.
O teu marido?
Numas obras em Nantes.
A tua filha?
Num hotel qualquer no Luxemburgo. Muito português, qualquer dia são mais que eles. Como os do Magreb aqui.
Quem são esses?
Tipo marroquinos.
Vimos muitos.
É o que mais há, ainda rebentam com os subsídios! Assim doente não tratei da janta…
Que tens afinal?
É nervos.
E não espaireces, numa cidade tão linda?
Não sou capaz! E há o subsídio…
Eu acho que entraste numa espiral recessiva.
 
Sebastião admirou-se com a Zeza, que aumentava de Mariana de dia para dia.
Extenuaram-se nos dias seguintes por boulevards, Montparnasses, Gares de l’ Est, du Nord, Austerlitz, ela fazia-lhe a vontade, comia croissants, xixi de meia em meia hora, barriga a crescer, até dava jeito tanta estação, já percebia que em Paris não se mijava em qualquer café como em Lisboa. Seletivos os franceses, embora não lhe parecesse bem, que mijar é como a água, não se nega a ninguém. A Torre Eiffel sempre em fundo, a espreitar por cima de cada prédio bonito, a marginar o Sena, parecia que andava, a brilhar à noite, não percebia porque se lhe havia dado tamanho susto quando pousara ao lado dela para a fotografia, porque sentira o pontapé do filho, que suspeitava ser mais Francisco Xavier do que Ercília, não escondia que preferia homem, porque mulher sabe Deus como acaba. O Sebastião insistiu na subida, ela preferiu os Inválidos.
Extenuados e comidos chegavam à noite a casa, direitos ao divã da prima, porque de roer nada, felizes por andarem a apagar uma vida velha, que ali não importava, que parecia mentira, ainda mais se calhar na Alemanha, por mais longe. Passariam a emigrantes dignos, trabalhadores, com direito a férias de verão no Algarve, carro novo, era só esperar que os pais dela, que nunca deveriam conhecer neto ou neta, se fossem para outros mundos, para a terra, não que os quisesse apressar, só esperar que a vida seguisse o seu curso e que o tempo fosse ocultando aquilo que embaraça. O tempo, sem contratempos, pode curar quase tudo, menos algumas memórias, mas dessas cuida o silêncio, tão precioso como algumas frases certas nas horas acertadas. Tempo ao tempo.
 
Sebastião, ajuda-me!
Sentes-te bem? É madrugada. Estás a ferver! A criança...
Está tudo bem. Ainda agora se mexeu.
Que tens?
A freira falou-me!
Escreveu-te de novo?
Não, falou-me, de viva voz, claro como água.
Que te disse?
A torre, aquela torre…
É pesadelo, Mariana... Aquilo almareia, ficou-te a pesar.
Não é, foi visão, assim tal e qual uma Santa.
Comeste muitos croissants...
Foi tal e qual!
Sentiste santidade?
Toda eu!
Que disse?
Que a torre vai cair. Parecia ontem, talvez já tenha caído.
Está no sítio. Vê-a ali à janela. Inteira e brilhante.
Então há de ser hoje!
Que disse a freira?
Que acudisse, que não deixasse ninguém subir, que aquilo tudo se desfarela.
É impossível! Aquilo não vem abaixo, é grande engenharia. Caía como?
Só vi um grande clarão. Depois a imagem de Nossa Senhora da Piedade, a Mãe Soberana, a de Loulé, a passar, cheia de penas.
Fugimos?
Não, temos que avisar alguém. A freira disse-me que acudisse.
Aqui nesta terra que nem é nossa… Como?
Chama a Adelaide.
Assim nervosa?
Chama-a, traz-ma, nem que seja à força.
 
Mas que desassossego, prima, que consumição, tiram-me à bruta da cama, nem as pernas me querem andar, tal estou…
A tua doença não é da cabeça?
Não é da cabeça, é nervos, tolhem-se aonde calha, agora andam nas pernas. Já foi os rins e o estômago. Que raio se passa? São cinco da matina! É a criança? Ainda não estás no tempo mulher, tu não te faças prematura, tu aperta, não me vás parir aqui em França.
 
Falei com uma freira, Adelaide, em sonhos, falei com ela e vi Nossa Senhora, cheia de dores.
Filha, isso é pecados que carregas, tu confessa-te, tu reza, toma um copo de água, chá não tenho, volta para o divã e amanhã descansas que já abalam. Abalam a 11, não é?
Isto não vem de hoje, mulher, já via a freira ainda andava eu de puta, longe de amar e de me pôr de esperanças.
É o que eu te digo... São pecados, quem os não tem? Deixa isso para trás, que o que lá vai lá vai, dou-te um comprimido dos meus e vamos todos dormir.
Tu escuta-me, prima. A freira passou anos que só escrevia, nem via, que ela não mo deixava ver, depois fomos ganhando confiança, eu espreitava, coisas poéticas, coisas de amor, depois coisas mais claras, que me largasse da vida, que me acomodasse com o Sebastião, pôs-me uma cidade em letras, uma língua nova, um país para onde vamos, descansa que abalamos, escreveu-me rodeada de gaiatos, um já vem a caminho, foi-me conduzindo ao destino. Há tempos apagou-se. Uns poucos de meses sem sonhos com essa monja de olhar triste. Hoje falou-me, pela primeira vez, tão claro como água.
Será a irmã Lúcia?
Paz à sua alma. Não, mais antiga, mas mais nova.
Mariana, tu não te perdeste com as drogas como a tua irmã?
Nunca.
Nem apanhaste nenhuma doença por baixo que te afetasse por cima?
Adelaide, isto é coisa séria, é assunto celeste! Tu acredita, a freira anunciou-me uma tragédia.
Tragédia?! Isso muda o assunto. Guerra?
Pode ser, as guerras de hoje. Pode ser atentado.
Contra quem atentam? Contra o Santo Padre? Olha que é a irmã Lúcia. O que eu gosto dele, deste, do argentino, o alemão já pouco conta. Olha que isto de ter dois papas também tem que se lhe diga. Já tenho pensado, imaginem lá a França com dois Presidentes... Ou até mesmo Portugal, ainda que não seja a França.
Atentam contra muita gente. Atentam contra a Torre carregada de povo, só japoneses é uma mão cheia.
Japoneses? Que raio de torre é essa?!
Aquela, mulher, a que espreita sempre em todo o lado, a Eiffel.
Nunca lá fui...
Mas afinal aonde é que tu já foste?
Ao Carrefour, aqui mesmo ao lado, e a Versailles, mais o meu homem, tão bonito o palácio…
E se a freira estiver certa?
Como é que atentam?
Um grande barulho, uma explosão, muito grito, muito corpo despedaçado, muita sirene, uma grande cratera.
E Nossa Senhora?
Passando no andor, tão linda, no fim.
As saudades que tenho de ir à procissão da Mãe Soberana…
Que fazemos?
Nós?! Nada, que havíamos de fazer? Se chegar aqui é só um estilhaço ou outro. Trancamo-nos muito trancadinhos, o pior é que vocês têm que abalar. Vais ver que na Alemanha não se sonha, é gente muito séria, não se dão a essas coisas. O que sei é da televisão, é o que me parece, nunca lá fui.
Amanhã é 11 de setembro?
Tal e qual.
Dia de atentados.
Tem sido.
E mesmo assim não acreditas?
Acredito, filha, que eu com essas coisas não brinco, logo eu com este sistema nervoso! Um dia até fui a uma bruxa, que eu andava encucada de estar possuída. Mas que vamos fazer? Se explodir explodiu, se não explodir foi a freira que se enganou. Se só estava habituada a escrever, há de ter-se confundido com as falas.
E estavas?
Estava o quê?
Possuída.
Estava em parte, o resto era mesmo nervos.
Ah... Sebastião, não dizes nada! Não me acreditas…
Acredito, estava em Madrid no 11 de março. Oxalá alguém tivesse tido uma premonição.
Ah, é isso que eu tenho?
É capaz.
Isso é de santidade?
É capaz.
E que fazemos?
Avisamos a polícia. Telefona-se.
Nossa Senhora, então vamos alarmar a gendarmerie podendo não ser nada, primo?
Mas se for perde-se muita vida. Só em japoneses...
Prima, ainda vamos é todos presos e tiram-me o subsídio. Eu cá não telefono.
Mas tens que ser tu, Adelaide, a gente não se dá com o francês.
Eu não, Sebastião.
A mim sai-me...
Sai-te o quê, Mariana?
O francês.
A ti?!
A freira falou-me em francês e eu percebi tudo.
Não pode ser. Tu nem merci! Ora fala aí alguma coisa...
Je veux apeller, je doit parler avec la policie, raconter eux la tragédie qui arrive, un vrai attaque terroriste.
 
Pasmaram-se os dois, até os três.
 
Nossa Senhora das Dores! Tu falas francês, mulher! Um discurso esquisito, mas sotaque dos bons.
Vês, prima, como anda aqui coisa misteriosa, eu que até era só de algumas frases de inglês lá no Algarve, as necessárias sabes bem para quê, dou em francófona por intermédio de sonhos.
Francófona, Mariana?
Sim, Sebastião, francófona.
Foste tocada...
Ou por Deus ou pelo demo.
 
Adelaide benzeu-se. É melhor que se dê ouvidos à freira, venha ela de onde vier.
 
E que fazemos?
Se tu deste em falar francês, se eu falo francês e o teu homem alemão, vamos cada um para uma cabine telefónica diferente apelar às polícias. De cá de casa não, que se for falsidade não somos apanhados. Não se fala português, para não prejudicar a nossa comunidade, tão tranquila, nunca metida em assuntos destes. Não se dura na chamada mais do que um minuto, como nos filmes, senão localizam-nos. Diz-se que ouvimos uma conversa entre uns árabes, que esses é que se dão em rebentar com coisas, que falavam aqui no bairro, falavam de implodir a torre, a Eiffel, carregada de gente, invocavam Alá, choravam de alegria, limpavam a cara às mãos, depois cu para o ar, rezas e sonhos com virgens lá no paraíso para onde hão de ir depois de se fazerem explodir também no Pompidou.
No Pompidou, que raio é isso?!
Uma coisa cultural, ou assim...
Mas a freira não me falou de tal coisa!
Mariana, temos de ser realistas. Os árabes gostam de se explodir com os outros. É lá a tradição deles. A gente canta o fado, eles arrebentam-se. É melhor dizer que é a torre mais o Pompidou.
E achas que me sai isso tudo em francês? Como é que se chama o centro comercial?
Pompidou, mulher. Cultural, comercial não. Há de sair-te tudo certo, se estás possuída pela monja.
É capaz...
Então vamos a correr cada um à sua cabine, que amanhece. Ainda se dá a tragédia e não chegamos a heróis.
 
Uma hora depois passava o alerta nas telefonias e nas televisões. A torre era encerrada a visitas com aparato mediático. O cordão de segurança era estabelecido. As polícias não facilitavam onzes de setembros. A repórter que comentava a ameaça de atentado a partir do Trocadero voou com a explosão que repentinamente surgiu por trás do direto, a torre despedaçou-se em mil bocados, ferventes, como meteoros, os Inválidos caíam, sucediam-se outras notícias, um pouco por todo o mundo, doutras torres, de aviões caindo. Mariana, Sebastião e Adelaide olhavam embasbacados, pela premonição da primeira, por terem salvado tanta alma, e pelo rumo que levava o mundo.
 
Mas quem será a freira, prima?
Não sei.
E que hás de fazer depois disto?
Pôr-me a jeito de Santa.
E eu fui testemunha, Deus seja louvado.
Deus seja louvado, Adelaide.
Isto parece-me quando Nossa Senhora foi visitar a prima, de esperanças, como tu.
Mas eu não carrego o Salvador, como Ela.
Mas salvaste muita gente hoje, mulher.
 
O comboio ronronava para Dusseldorf. O ronrono já não trazia sono à Mariana, nem sonhos, nem visões. O francês perdera-se. O silêncio apoderara-se dos dois. Quebrou-o.
 
Tu não compreendes, Tião?
Hei de compreender, Mariana.
Se não me fizer freira morro.
Morrerei sem ti, eu.
Terás os meninos, terás um trabalho, hás de ser feliz.
Sem ti…
Comigo, pensaremos um no outro.
Mariana… Para que convento vais?
Para um qualquer em Beja.
Mariana…
Dize-me.
Disseste meninos?
São dois, Sebastião.
Já o sabias?
Sinto-o.
Mariana, e se um se há de chamar Francisco Xavier que nome pomos ao outro?
Cilinha. É uma menina.
Mariana… Amo-te.
Sebastião, sou-te consubstancial.
 
 
2013
 

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