A Coveira
Capítulo I
A criada
Gostava quando acabava o serviço e deixava tudo a brilhar, a
cheirar a detergentes, por ela até a lixívia, não fossem as tendências das
patroas modernas para marcas floridas.
Lixivia sim, aquele odor que ficava nas mãos, nas roupas, nas
casas, limpeza séria, morte de qualquer bicho, naquela coisa incolor, transparente,
quase inocente.
A comadre Adelina, certa noite, engripada, sem nariz capaz,
bebera umas goladas, cuidando tratar-se de aguardente.
Ainda hoje vivia, de boa saúde, fina, dizia que a beberagem lhe
tinha limpo os interiores de tudo o que era ruim. Ela a tal não se atrevia, há
anos que lhe carcomia uma úlcera, no duodeno, diagnosticara o médico, embora
tivesse para consigo que seria na boca do estômago, tolhida de nervoso.
Os nervos onde se agarravam eram morte de homem, de mulher
nem tanto, mais rijas à doença, habituadas a parir, não era o seu caso.
Os homens prendiam-se à morte e às mulheres da vida, as
mulheres só à vida.
Um viúvo pouco se aguentava, não se sabia aviar sem esposa,
não costurava, não esfolava a gordura do fogão, as sanitas por desinfetar, lixivias
nada, o cheiro, o odor das roupas miúdas, um homem sozinho e velho não era coisa
para este mundo, quando muito para lares e pouco duravam, duas biscas num
jardim e finavam-se sem fêmea.
Conhecia mais viúvas do que viúvos, mesmo sem os contar com
rigor, tinha empírico, como lhe dissera uma advogada que lhe tratara dos
registos de uns imóveis.
Um apartamento de rés-do-chão, com dois quartos e um quintalinho,
nos Anjos, onde vivia, uma casinha à Ajuda, doada pelos senhores que servira
noutras eras, tinha-o à renda, baixinha, daqueles contratos antigos, um olival,
em Baleizão, e dois mil e trezentos euros, era o seu património.
Adiava o telefonema para o primo Silvestre lá no Alentejo, que
lhe queria comprar a terra com as oliveiras, por pouca monta, mas andava cismada,
desconfiava que era ele quem lhe ficava com a azeitona, desculpando-se com os
ciganos. Ademais era comunista, como todos ali naquelas bandas. Quem não seria?
Tendo passado por tanta agrura e fome noutros tempos, até mortes, como a
Catarina. Bem fizera o pai e a mãe que tinham abalado, era ela gaiata, para
Lisboa, ou não, sabe-se lá, comunista e proprietária talvez fosse melhor do que
sem partido e criada, mas quis Deus que fosse assim e ela não se via em
comícios de foice e martelo. Tinha ido uma vez à festa do avante, mas não
reteve discursos e sermões, só cantorias ao vivo, a alegria da juventude, os
comes e bebes. Um dia ainda lá iria de novo, mas este ano já se tinha
comprometido para o Santo António, com a vizinha Carmo. Ir a todas não, que o
dinheiro não esticava.
Ainda assim, voltando ao olival, esse assunto não podia ser
adiado senão mais um ano, ou dois, no máximo.
Pôs as mãos na banheira e levantou-se. A tijoleira luzia,
como ela gostava. Um chão em condições tinha que ser esfregado de joelhos, mais
aquele, branco, qualquer pubiano enganava a esfregona, pior agora que não via
como dantes. As casas com homens eram mais complicadas, embora agora também se
depilassem. Vendo bem, era outro asseio, um corpo sem cabelos.
Já tinha comentado com o Manuel pedreiro e biscateiro que piso
branco em casas de banho era trabalhos para patroas e criadas. O chão queria-se
mais escurinho, mesmo as paredes, como uns wc modernos que havia agora, tinha
visto um tão lindo no Parque das Nações. Até podia parecer que era para
disfarçar o sujo, mas não, era moda e poupança em mulheres-a-dias, contra ela
falava.
Suspirou e sentou-se na retrete para lhe passar o almareio
que sempre lhe dava quanto se punha de gatas, coisa passageira, tensões, com
certeza.
Recomposta, deu um passo largo para não pisar o lavado e quase
à porta do apartamento assentou as horas no papelinho que deixava sobre a chapeleira.
Três, mais coisa, menos coisa, nunca arredondava para cima, ainda menos para
estes dois rapazes, muito educados, já tinha servido a mãe de um deles, eram
criativos, haveria de perceber melhor o que isso era.
Não que se metesse na vida de cada um, só o que bastasse para
conhecer melhor as patroas e patrões, ajeitar o seu serviço ao gosto de cada um,
deixar uma almofada no sítio certo, regar plantas mesmo que não lhe fosse
pedido, não esquinar os bibelôs, como faziam as suas colegas, para fingir que
por lá tinha andado um pano, aldrabices, não ficava jarra nem Santo direito,
gatos e cães é que a apoquentavam, mas agora estava em moda ter bichesa em
casa, raças com nomes estrangeiros e animais com nomes de pessoas, tinha pouca
jeito, isso sim, parecia-lhe mal, apesar de por alguns até sentir estima, mas, pior, eram as crianças, furacões que
lhe davam cabo do esmero em segundos, uma ralação, não que não gostasse delas,
Deus a livrasse.
Se calhar ia acelerar a venda do olival …
Endireitou a saia três vezes, com a palma da mão, rápida,
como um corte de espada, parecia acabada de engomar, enquanto esperava pelo
elevador. Isto da saia seria empírico também, como tudo o que sabia fazer. Não
lhe tinham dado grandes estudos, mas a vida ensinara-lhe muitas coisas em
demasia e nada em outras.
Gostava de ser empírica. Falara disso com a Carmo, que
adormeceu entre a sua conversa e um concurso para adivinhar os preços na
televisão. Ela acertava todos, mas não ganhava coragem para se expor daquela
maneira, mais a mais sem família próxima para lhe dar apoio, para se levantarem
quando o apresentador a chamasse ao palco, fazer deslizar a roda, acertar no
kilo da batata ou no preço da bilha do gás, baterem palmas e saltarem no fim
quando ganhasse o carro. É verdade que não conduzia e que nos estúdios,
dizia-se, fazia um grande calor, o que também lhe dava apreensão, não gostava
de suar, ainda menos em público.
Arrecadou as chaves, deu duas de conversa com o carteiro que
chegava e começou a descer devagarinho a rua para a paragem do autocarro.
Caia uma morrinha, abriu a sombrinha e entrou-lhe o nervoso
miudinho do costume. Aquela paragem era a pior, tinha um autocarro direitinho
para os Prazeres.
Recitou as bem-aventuranças e um credo. Felizmente vinha
outro. Entrou, mostrou o passe ao motorista desinteressado, sentou-se e pousou
o olhar nas ruas de lisboa, empapadas de flores roxas num mês de junho molhado.
Deu um salto. O chapéu-de-chuva ficara na paragem. Boa
desculpa para voltar a sair e apanhar o autocarro para o cemitério, fazer só
uma horinha, daria tempo. Deixou-se estar, os chineses vendiam-nos baratos, o
mau tempo haveria de ser passageiro, os Santos estavam à porta, era tempo de
sardinhas e manjericos, de vivos, não de velar mortos e limpar campas. Além disso
não era quinta-feira, já tinha prometido a si mesma que só às quintas se
entregaria à limpeza de finados.
Recitou uma salve-rainha, mas a calma não lhe entraria até à
próxima patroa, a Dona Luisinha, velha, velhíssima, altiva, rebitesa, que a
perseguia a papaguear mais alto do que o aspirador, as artroses, a
fisioterapia, o filho cônsul, a neta de novo enamorada, os dias que haveria de
passar em agosto no Luso, depois em setembro no Algarve, já mais fresquinho,
sem meia Lisboa por lá, isto de ir tudo para a Praia da Rocha era coisa que no
seu tempo não acontecia, só depois do 25 de abril, maldita revolução que tinha
posto tudo às avessas, uns em cima dos outros, brancos e pretos, mestiços,
ultramarinos, já não se sabia quem era cão ou gato, já nem uma boa charcutaria
na Lapa se encontrava, nem criada de servir a tempo inteiro, como as que vinham
antigamente das Beiras, de lá, dantes, só coisas boas, como o Presidente do
Conselho, Deus o tivesse, tinha com certeza, a ele e ao seu falecido marido,
há-de puxar brilho à moldura de prata com o retrato dos dois ali naquela cómoda,
Lurdinhas.
Desligava o aspirador, suspirava uma glória ao Pai e dizia
pela enésima vez que se chamava Joaquina, para espanto da idosa, que se
retirava a sacudir a cabeça.
Mis encene feita, a centenária sentava-se numa
poltrona a dormitar, com um clássico na mão, como lhe dizia, e deixava-a terminar
o serviço. O que diabo seria um clássico? Só falava enquanto ela aspirava, era
assim há sete anos, nem um até para a semana de despedida, um não se esqueça de
levar o lixo.
E ela não se esquecia. Na vida só se esquecera de si, um dia
teria de pensar melhor nisto, se ainda fosse a horas, por agora tinha que se
apressar para o apartamento na praça de Londres, daquele casal tão simpático
que uma colega lhe cedera há dois meses. Coitada da Adelaide, diagnosticada de
morte tão nova, duas crianças pequenas, pai incógnito, para ela não seria, uma
renda em Alfama que já não podia pagar.
Agora era tudo franceses, que graça acharia aquele povo a
ruelas estreitas e casas empoleiradas umas nas outras, sem conseguir dormir no
mês dos santos, tanto arraial, tanta bebedeira. Mas o mundo era assim, ora ninguém
queria viver naquele labirinto, ora corriam com os poucos que lá havia para se
instalaram os estrangeiros. Se calhar por gostarem de criadas portuguesas? Estavam
habituados a elas, tinham boa fama por essa Europa. A ela nunca lhe tinha
puxado para abandonar o país.
Enfim, mudavam-se os tempos, mudavam-se as vontades como ela
achava que tinha lido num aconselhamento de divórcio na revista Maria,
publicação tão útil, o Senhor a perdoasse, mas o pouco que sabia de sensual
fora lá que aprendera.
Mas quem ficará, voltando ao assunto para consigo, com as
crianças quando se finasse a Adelaide? Tinha de trocar uns pensamentos com a
Carmo, criatura mais expedita do que ela no que a resolver coisas tocava, isso
e falar-lhe das oliveiras, até poderiam ir as duas a Baleizão, de camionete, mostrar-lhe
o Alentejo ao cair da tarde, o amarelo das planícies, nem o Tejo quando
brilhava, lá é que era o mar da palha, as sombras no montado, um bom ensopado
de borrego, uma parede bem caiada, não era como Lisboa, riscada de uma ponta à
outra, nem lixivia limpava aquilo, a torre do Castelo de Beja, os doces do Luís
da Rocha.
Não acreditava que isso acontecesse. A vizinha, vendo sol, só
pensava na Caparica.
Muito gostava aquela mulher de praia, de se expor em fato de
banho, cinta justa por baixo, para lhe apertar as banhas, merendar à sombra do
toldo, fazer a sesta, esturrar a reforma naquele vaivém na época alta.
Dizia, já que não podemos ir as duas à Madeira no fim de ano,
tanto que sonhavam com isso, as poupanças ficam na Costa, cacilheiro para lá,
cacilheiro para cá, minis e sorvetes.
Parou, fez uma raspadinha, nada, ainda não era desta, mais um
réveillon no Terreiro do Paço, também era bonito, embora o fogo-de-artifício
não se comparasse com o da ilha, tanto paquete, tantas cores em cima do mar,
aquele Funchal parecia um presépio. Suspirou!
Gostava daqueles prédios com entrada marmoreada e elevadores
gradeados, espelho com moldura, dourados, soubesse o que sabia hoje tinha-se
feito porteira, era outra vida, outra autoridade, reportar ao imóvel todo,
doutores e senhoras, questionar as visitas, por um ar sério aos homens da luz e
da água, podia ter saído casamento com um deles, escutar um barulho noturno na
porta principal, conhecer os hábitos, um prédio era uma cidade inteira, cada
criatura, cada família, cada segredo, os orgulhos e os vícios, os maldizeres,
que em gente fina só se percebe no olhar, as felicidades, os desgostos, que
esses tocam a todos, os cargos, os com motorista, os sem ele, tinha tido
hipótese de seguir essa carreira, não de motorista, claro, de porteira, num
edifício moderno, ao tempo, ali nas avenidas novas, mas metera-se a revolução e
o seu contacto fugira para o Brasil, atrás do Marcelo, também ela fora vítima
da ditadura ou da democracia, tinha que pensar melhor nisto, mas o Marcelo
agora era outro e também gostava de televisão, afinal as coisas não tinham
mudado assim tanto.
O elevador saltitou anunciando a paragem, ela perdida em
pensamentos de nada, o cérebro deambulava-lhe o santo dia, se calhar era o que
lhe provocava as tonturas, descanso só quando a Carmo lhe ocupava a mente com as
regatices do Bairro, quando se ria porque descobrira que fulano dormira com
beltrana, que o velho do supermercado chamara os fiscais à mercearia do
nepalês, que a vizinha com alzheimer
deixara a panela ao lume, um ai jesus que arde o quarteirão todo, sirenes,
corpo de bombeiros, tudo controlado, jeitosos que eram, sempre tinha animado as
vistas e o dia, mas ela ali parada, frente à porta, mão rodopiando na carteira,
a rebuscar os molhos de chaves das patroas, tudo enleado, mais de dez minutos
perdidos naquele enredo, ora lhe saía Bairro Azul, ora Alvalade, ora Parque das
Nações, ora Campo de Ourique, Praça de Londres nada, prática nesta tarefa é que
ela não era, já tentara de tudo, primeiro juntara-as num só molho, para não
andarem espalhadas, depois molho por cada casa, depois etiqueta, depois a porta
do prédio, depois a porta do apartamento, depois fitinhas, cores, precisava era
dos óculos, também eles na carteira, saia-lhe a escova do cabelo, ralhava
consigo, depois rezava responsos e finalmente a chave certa, quando lhe pareceu
ouvir uma voz e um estalo, seco, limpinho, nenhum choro, deixou-se estar,
sossegada, como se não existisse, não para ouvir, mas para cumprir a sua missão
de criada discreta, agora vozes, homem, mulher, choro nada, vai-te e volta só à
noite, o mais tarde que conseguires, quando te livrares das putéfias, ele, olha
quem fala, santinha, gosta de rapazinhos, tiveste azar, quinou, nem os novos te
aguentam, galdéria, fútil, a porta que se abria, ele sorriu, os dedos dela
ainda a brilhar-lhe na face, boa tarde senhora Joaquina, boa tarde Sr.
Engenheiro.
Deu uma palmada a direito, bem seca, na saia, entrou,
dirigiu-se à cozinha, viu as horas, foi buscar os panos, os detergentes
cheirosos, uma bacia, vestiu a bata, passou em silêncio na sala de estar, persianas
semicerradas, em direção à casa de banho comum, ela fumava, desfolhava uma
revista, recostada numa chaise-longue,
linda, aveludada, daquelas antigas com cadilhos, parecia a Ava Gardner, que
saudades tinha do Monumental, quem teria tido a ideia de transformar aquele
cinema num quadrado de vidro, pobre Praça do Saldanha, ela era contra, não que
rejeitasse as modernidades, mas que se substituísse o velho pelo novo assim, sem
mais, postais a preto e branco, tinha lá visto Zorba, o Grego, e uns indianos
tão lindos, o que tinha chorado, custava-lhe a crer aquela conversa, pareciam
um casal tão educado, é verdade que tinham discutido baixinho, ainda bem que as
meninas não estavam em casa, ouvir dizer que a mãe gostava de garotos, não
havia de ser tanto assim, ia nos quarenta e tal, se calhar gostava deles na
casa dos trinta, a Carmo também preferia mais novos, mas muito não, a culpa seria
dele, andava certamente com mulheres, que necessidade teria uma senhora
daquelas de procurar outros se o marido cumprisse e não saísse às noites, se
calhar para boîtes, estrangeiras, brasileiras, novas também, a pagar-lhes
bebidas finas, caras, o resto.
Não sabia se lhe devia perguntar se estava tudo bem, ganhou
coragem, não se fazia ouvir por cima daquele tapete persa, comprado no Irão,
disseram-lhe para ter cuidado com o aspirador, quem iria a um país daqueles, aiatolas e bombas nucleares, hoje tudo
se podia comprar em Lisboa, até na internet, aproximou-se e perguntou se podia
abrir as janelas, sempre se via melhor o pó.
Ela sorriu-lhe, embora se notasse tristeza nos olhos,
disse-lhe que sim, que se retirava para o quarto, que fizesse o que tinha que
fazer, que também ela o faria, quisessem ou não ia ao enterro do amigo, no dia
seguinte, morrera sem família, o marido estava descontente, daí a discussão,
menos grave do que no dia em que lhe tinha contado que estava grávida, naquela
idade, o que diriam às filhas, que era ele o pai, claro, não queria escândalos familiares
ou sociais, naquela idade, de esperanças, fácil de justificar, eram católicos,
conservadores, abortar estava fora de questão, que lhe perdoasse o desabafo,
esperava que não se escandalizasse, neste extrato social tudo acontecia, coisas
que ela nem imaginava, nem nas revistas cor de rosa, ocupadas hoje em dia por
gente que ninguém sabia quem era, atores de segunda, com nomes modernos, enfim,
não se misturavam, e publicações para a classe deles já não as havia, nem eles
as queriam.
Ainda bem que vai, minha senhora, enterro sem acompanhamento
é coisa muito triste e o que está feito, está feito, vele o morto e salve a
vida que traz dentro de si, pobre do seu amigo, se calhar ainda novo, algum
acidente de carro, as estradas hoje são ceifeiras de vidas, isso e os fogos,
mas é lá para cima, aqui em Lisboa morre-se de outras coisas.
Suicídio Joaquina, foi suicídio.
Isso é caso ainda mais greve, nem a alma lhe encomendam,
então se for padre dos velhos, só com cunha ou silêncio quanto à causa, se
calhar ainda é o melhor!
Capítulo II
Roxo
Jacarandá! Tinha dificuldade em fixar o nome das árvores que
cobriam meia Lisboa de roxo no mês de junho, que desviavam os olhos da sujidade
do chão, empurrando-os para os céus, azul, cinza, que o tempo andava instável, sol
alternado com chuva miudinha, nalguns dias vento, lixo a voar pelas avenidas,
os alfacinhas a gabarem as flores, com os pés colados aos passeios, pétalas caídas,
merda de cão misturada com beatas, os parvos de olhos no ar, os turistas a
captar o exótico, púrpura, jacarandás, que asneira ter regressado a Portugal,
soubesse o que sabia hoje, soubesse o dia de amanhã, passar de amante das
outras a corno, herdeiro de prenhez alheia da mulher, fruto do simplório falecido,
nem para se defender tinha tido tomates, só para fazer um filho, morte mais
parva, um homem defende-se, se calhar gostou, o cabrão se calhar queria morrer,
mais paspalho do que os que olhavam para árvores com nome tupi, vindas das
Américas, Portugal não tinha nada de seu, endógenos só palhaços, palhaço era
ele, talvez por ser português, um par de chifres, um bastardo novo, ou outra filha,
a mulher só sabia parir fêmeas, talvez do corno saísse varão, não o iria levar
ao futebol, ao rugby, assumir-se-ia pai
tardio, meio avô, sem paciência, ela deveria abortar, só para o lixar não o
faria, para que de cada vez que ele olhasse para a criança se lembrasse da sua única
traição, foste traído uma vez, porque eu fui traída uma vida inteira, martirizá-lo-ia
para sempre, o segredo a unir os dois, como gémeos, nunca se separariam, um
sofrendo o mal do outro, que psicose. E se a mulher parisse gémeos?
Jacarandá, tinha que arranjar uma palavra bengala para se
lembrar do nome da árvore, comentar nos jantares com os clientes internacionais,
várándá, jácáré, mandálá, qualquer uma era boa, porque se iria esquecer, como
se esquecia que tinha morto o outro, nem um pingo de remorsos, um desejo, ainda
que ténue, de atrasar o relógio por um dia, para evitar o desfecho, se pudesse
atrasava-o anos, não teria deixado os Estados Unidos, onde fora feliz na
universidade e no primeiro emprego, não se teria casado com ela, não era agora um
assassino, se calhar estava aí um assomo de consciência, pouca, arrependia-se mais
da sua vida do que com o facto de ter acabado com outra, cara de parvo, apesar
de bonitinho, mas um ser humano, porra, o melhor era afogar-se em gin, em
putas, não precisava de as pagar, bastava que procurasse galdérias, casadas,
descontentes, solteiras e divorciadas não, agarravam-se, um gajo mandava um
sorriso e saltavam-lhe em cima, a seguir mensagens, não percebiam que primeiro
estava a família, que seca, agora com mais uma criança, a mulher é que haveria
de pagar os bons colégios, não, um ano ou dois mais e divorciar-se-ia, voltaria
para Washington, deixaria esta pequenez, iria foder até rebentar, fazer um coast to coast, road 66, mota, com uma tipa com metade da sua idade, boa, largá-la-ia
na cidade dos anjos, quiçá atirá-la-ia ao pacífico, porque ele era um demo,
tempestuoso, predador, estava-se a cagar para os outros e sentia-se cheio de
vida.
Tomou a direção de Cascais, enquanto não partisse aproveitaria
o pouco de civilizado que o país tinha, a Linha, a marginal, um copo frente ao
oceano, ver decotes, saias curtas, biquínis e pranchas de surf, peles jovens douradas,
odiava o inverno em Portugal, as mulheres vestiam casacões feios, desmazelavam-se,
espacialmente o cabelo, nem neve caia nesta terra para cobrir o sujo, pequenez,
em todos os aspetos, ia veloz, recebeu um WhatsApp
da Vera, professora da filha mais nova, um smile,
fazia-lhe olhos, agora caras, bonecos a sorrir no telemóvel, sentiu-se excitado,
respondeu com um “às 17h”, ela confirmou, deu meia volta para Lisboa, saiu de
mão, em cima da curva, o mar ao fundo, ao perto um carro de jovens surfistas, quatro,
cabelos russos queimados pelo sol, t-shirts bonitas, o que se pode ver nos
segundos antes da morte, parecem minutos, depois o embate, as pranchas que
saltavam, os putos projetados, as rodas guinchando como animais, o muro que
separava o alcatrão do mar, que não o deteve, a arriba, o voo, o som das chapas
nas rochas, um breve silêncio, depois o barulho de uma rebentação suave das
ondas, depois o de uma rebentação forte, o seu topo de gama, ele carne para
canhão, já não pensou que pudesse ser o do forte do bugio, porque já não
existia, ele, o forte sim, no passeio gente que se assomava, uma tragédia, diziam,
matou os garotos, excesso de velocidade, vinha disparado, telefone na mão, filho
da mãe, coitadas das famílias, esta marginal é um cemitério, as sirenes, os bombeiros,
o desencarcerar de corpos, a polícia, a chamada, a Joaquina a atender, a
senhora não está, teve um compromisso, da polícia? Apontou o número, é grave?
Só à esposa diriam, paz à sua alma, replicou ela, pois, disse o guarda, coitada
da criança que vinha a caminho, bom, pior está a Adelaide, que tristeza!
Capítulo III
Concebido com pecado
Então?
Ela riu-se, e riu-se de novo, muito, mas sem o magoar, um
riso infantil, quase, és carinhoso, compensas por isso, não te preocupes, mas
ele preocupava-se, queria ter dado prazer e no entanto era tudo tão
desconfortável, a carne, os cheiros que exalavam de corpos quentes demais, tudo
lhe parecia algo animalesco, carnal em excesso, exceto os beijos e as carícias
inocentes na pele ou quando tinham estado de mãos dadas, no fim, não nos toques
mais profundos, nas entranhas, corpo dentro, essas tinham-no repelido, deixado tenso,
apesar de se manter firme, uma coisa quase mecânica, mas era um pão sem sal, como
imaginava, como já tinha ouvido os colegas sussurrar, quando saiam todos para
um copo, depois do emprego, às sextas-feiras, ele desculpava-se com jogging junto ao Tejo, levava consigo
uma mochila com calções e ténis para disfarçar, não tinha happy hours, nem com eles, nem com ninguém, por vezes uma
caminhada, não era de correr, mais de fugir, um concerto, lírico, um cinema,
sempre só, naquela casa enorme, onde ninguém entrava, janelas sempre fechadas, a
empregada residente insistia para que as abrisse, ele que não, entrava pelo
portão do jardim, mais discreto, nas traseiras, nunca pela majestosa porta
principal, que denunciava a sua aristocracia, algo decadente já, sem
descendência, podia vendê-la, o mercado imobiliário estava bom para isso,
assediavam-no com propostas de compra na caixa do correio, à campainha nem prestava
atenção, o palacete poderia ser transformado em cinco ou seis apartamentos,
alguns vista rio, não faria nada para o resto da vida, poderia ficar com um T2,
térreo, com uma porção de jardim, para o Leonardo, o cão, que envelhecia, mais
do que ele, os primeiros bigodes brancos, o sono, suspirava quando ele chegava,
ladrar já não, melhor deixar tudo assim, sem negociatas, até que o bicho parta,
para quê sujeitá-lo a obras, mudanças, nunca seria coisa rápida, projetos de
arquitetura, licenças, empreitadas, gente a dormir paredes meias uma vez tudo
pronto, garagens, carros, crianças, agora não, talvez nunca.
Espero que sejas um rapaz bem-comportado!
Porquê?
Fazer isto sem proteção … um homem tem sempre umas camisinhas
à mão!
Sou um rapaz bem-comportado …
Então não há-de ser nada e eu estou velha demais para ficar
grávida!
Capítulo IV
A Carta
Cerimónias de morte não se improvisam, por isso Joaquina tinha-as
encaminhadas, escritas num caderninho que guardava na mesa-de-cabeceira, na
capa uma etiqueta que dizia “por meu falecimento”, letras grandes, para que, na
pressa dos arrumos dos que partem, ninguém depositasse as suas próprias
vontades numa caixa de papelão.
Que interesse poderia ter o caderno de uma mulher com uma
vida banal como a dela, sem uma chamada de atenção? Decerto pensariam tratar-se
de apontamentos sem importância, algumas moradas ou números de telefone, uma
receita de barrigas de freira, um rol de compras para a mercearia, ou mesmo
nada, um caderno sem uma letra, um traço, um número, um apontamento, quando
muito horas de limpezas, era ao que poderiam resumir a sua passagem terrena e
atirar o caderno para o lixo.
Avisada de tudo estava a Carmo, mas, não fosse o destino
querer que ela embarcasse antes, tinha preparado uma carta para o que lhe
restava de família, o primo de Baleizão, pedindo que ele, ou os seus, não fosse
o parente abalar também primeiro, tinha que pensar em tudo, se encarregassem
das formalidades.
“Silvestre,
Espero que esta carta te encontre bem, assim como à tua
mulher e filhos. Dá-lhes saudades minhas.
Não estranhes o contacto não ser por telefone, como é
costume, mas coisas há que devemos deixar por escrito, como já te farei saber.
Não se trata do olival que me queres comprar, talvez lá mais
para o fim desta missiva te escreva sobre isso, mas o que hoje me traz é
assunto ainda mais sério.
Como sabes, o que temos de mais certo na vida é a nossa
própria morte, não que eu esteja às portas dela ou ela da minha, salvo seja,
nem para isso tenho ainda idade, mas é matreira, aparece sem licença, às vezes
silenciosa, como uma bênção, no meio de um sono, quando é natural, outras com
barulho, antes do tempo, um acidente, uma catástrofe, agora há tantas.
Pior é quando se faz anunciar aos poucos, vai entrando,
senta-se, fica o tempo que lhe apetece, como aquelas doenças prolongadas, nem o
nome digo, ou quando agente acama, nos vai falhando o juízo, inválidos de corpo
e mente, é ao que muita gente se vê sujeita, nalgum lar ou ligada à maquinaria
num hospital.
Se for esse o meu destino, não me desliguem, não ponham nas
mãos dos homens o que só a Deus nosso Senhor cabe. Há quem cuide que se Ele
consente nestas invenções de nos ter presos à vida por interruptores, também aceitará
que alguém os desligue, que pare um corpo, para que se lhe liberte a alma.
Custa-me a crer.
Mas o que me traz não é a forma que a morte escolherá para
mim, é o que vem logo a seguir, com o corpo ainda meio quente. Antes que me
esqueça, vejam lá se conseguem evitar a autópsia e se não conseguirem garantam
que estou bem rija, ouve-se cada história ... dar as entranhas a terceiros
também me faz espécie, mas se for para o bem de alguém que seja, menos vistas e
estômago, que é do que mais sofro, não servirão para por gente sã. A vesícula
também não me parece que esteja capaz, enjoo-me com alguns comeres, o azeite,
tanto que gosto.
Ainda assim, o que me acode são coisas terrenas, como os
arranjos do meu enterro, sou mulher só, pus-me a caquenhar nisto e não quero
deixar trabalhos aos outros.
Sei-te homem com ideologias, com políticas, pouco dado a
religiões, mas olha que nosso Senhor Jesus Cristo foi o primeiro comunista que
à face da terra andou e que quando cá voltar muito irá estranhar tanta
desigualdade, se calhar abala de novo e desta vez para sempre, deixando cada um
à sua sorte, com a sua cruz, já sem contar com a Dele, que bem pesada foi.
É verdade que tudo perdoa, mas, como este mundo anda, até
para o filho de Deus deve parecer em demasia. Quem lhe vai explicar que morre
gente vinda do outro lado do mundo, tantas crianças, nas mesmas praias onde
outros fazem veraneio, que nos ardem as terras, com gente lá dentro, assim de
um dia para o outro. Eu cá não seria capaz de o convencer a perdoar estas
coisas no dia do julgamento de vivos e mortos.
Estou inteirada do teu afastamento da igreja, por isso toma
os encargos desta carta em segunda mão, pois se a vizinha Carmo por cá andar e
estiver capaz de corpo e espírito, encarrega-se ela das burocracias, que já
deixo pagas ou apalavradas.
Caso se fine ela primeiro que eu, encaminhem-me vocês para o
outro mundo da forma que te vou descrever, tenham lá paciência.
Missa, peço-te, quero-a de corpo presente, na igreja dos
Anjos, aqui ao lado, onde vou aos domingos, às vezes uma vespertina aos
sábados, não há lá beata que não saiba deste meu desejo. Supondo que alguma me sobreviverá
ou que não estarão já todas presas ao passado, como acontece amiúde com a
idade, saberão como proceder. Também lá andam umas catequistas mais novas que
podem ajudar.
O senhor Padre está a par, mas noto-o tão enfraquecido, que
lhe pedir que arque com estes recados, mais as confissões, não que as minhas
lhe deem grande ralação, me parece demasiado. Até pode ser que ele se jubile no
entretanto e que venha uma cura mais novo, que encomende almas de forma mais
moderna, com outra alegria, ao fim e ao cabo o caminho para o céu deve ser de
felicidade, não de tormento, já para o purgatório e lá para baixo nem quero
pensar, nem os comboios suburbanos em dia de greve, sei do que falo quando tive
uma patroa ali para os lados de Queluz, um inferno, mal comparado, claro está.
Tenham cuidado, seja ele o padre que for, que me encomendem
com o nome completo, Joaquina Estrudes Banha Garcês da Silva.
Abreviada para Joaquina da Silva, sabe Deus quantas estarão a
caminho no mesmo dia? Alentejanas uma dúzia e no Brasil alguns milhares, calculo
eu, apesar das moças mais novas terem por lá nomes que a pessoa nem sabe dizer.
Seguro mesmo era o nome todo, acrescentado de “também
conhecida por Quinita Silva”, mais o número do cartão de cidadão ou de
contribuinte, mas calculo que não lhes pareça bem na igreja. Quero é ficar descansada
que rezam pela alma certa.
Ao caixão não ponho requisitos, pela simples razão de que já
o comprei.
Ainda pensei dar um sinal de entrada e vocês depois levantavam-no
contra o pagamento final, que vos deixaria num envelope, dentro da jarrinha às
flores em cima da mesa da casa de jantar, aquela a imitar louça de alcobaça, gosto
muito, mas das verdadeiras saía-me cara.
Contudo, dei em matutar que a empresa poderia ir à falência,
vê lá, é daquelas firmas antigas, cada vez agente dura mais e crianças pouco
nascem.
Vão ter problemas de falta de clientes mais dia, menos dia, nem
com os chineses a viver por cá. Diz-se por aqui em Lisboa que não morrem, ou
melhor, diz-se que se finam, mas que são substituídos por outros, ninguém sabe
como os despacham, com certeza é no meio de tanta mercadoria para lá e para cá.
Ai em Baleizão calculo que não haja fenómenos destes, não é que me incomodem, os
chineses, até dão muito jeito pelos preços que fazem e pelos horários das lojas,
sobretudo na minha profissão, não se compara o custo de uma esfregona ou de uma
bata.
Voltando ao caixão, já está cá em casa, só peço ao Altíssimo
que não entre um fogo no prédio, foi o que pensei de mais prático, é muito
simples, castanho para o escuro, sóbrio, madeira de qualidade média, uma cruz
muito linda, para o dourado, vou-lhe puxando brilho, almofadadozinho, num rosa
muito clarinho, agora há muita variedade, até de firmas americanas, mas os
preços para uma última viagem são para o alto, logo eu que tão pouca excursão
tenho feito em vida, aquela ao Gerês, mandei-te as fotografias do São Bentinho,
umas poucas a Fátima, a pé é que ainda não fui, talvez para o ano, se as pernas
não me atraiçoarem, Sevilha, uma à serra da Estrela, é do que me lembro agora,
o meu desgosto é partir sem conhecer a Ilha da Madeira, a Carmo bem que
insiste, mas o voo é caro e dizem que aterrar lá não é para todos. A reforma
dela também deve ser mais composta do que as minhas horas de mulher-a-dias.
Acomodei-o debaixo da minha cama. Ainda o pus na sala, ali ao
lado do sofá, mas, não vá ter alguma visita, podia parecer mal, cuidarem que
não estou boa da cabeça, quando a mim isto me parece de grande lucidez, enfim
cada um com as suas preocupações.
Comprem duas coroas, para que não fique muito despido o
espaço onde me velem, podem fechá-lo à meia-noite, em Lisboa já não se usa
prantear até de madrugada, cada um vai descansar para as suas casas, fiquem na
minha, a hotelaria está pela hora da morte, como os enterros, há quem tenha que
os pagar em prestações, não deixa de ser triste, tanto custo, mesmo dando o
Estado alguma coisinha, desse subsídio têm que tratar vocês, já me informei,
mas antecipado não aceitam.
Flores! Brancas. Acredita, primo, que não havendo surpresas,
saio sem certos prazeres deste mundo, não que me queixe disso, agora menos, com
esta idade, mas por vezes penso como teria sido a minha vida com marido e
filhos, uma coisa é certa, não tinha que vos fazer este pedido, não se
justificava esta correspondência.
Mas o passado já não se remedeia, só para pedidos de
desculpas, como tem feito o Santo Padre aos ciganos e a outros martirizados,
até criancinhas, pelos pecados da igreja ao longo dos tempos, dizem que é
comunista também, mas gosto dele, como de ti, temos é que resolver o assunto do
olival, veio-me isto outra vez à lembrança porque me comentas que os ciganos
arrebanham a azeitona antes de varejares. Perdoa-os tu, que eu a ti também,
pois faz-me confusão essa história todos os anos, nem um litro de azeite.
A roupa também está já pendurada numa cruzeta no
guarda-vestidos, do lado direito, não dá para enganar, saia e casaco pretos,
camisa branca, um lencinho branco para me cobrirem a cara, o cordão que nos
deixou a nossa avó com o retrato dela, sei que é de ouro, mas gostava de o
levar comigo para a cova, os sapatos estão por baixo, a estrear, têm umas
fivelas, vou-lhe pondo nívea por dentro para amaciarem, calçar um corpo tem que
se lhe diga.
Pensando melhor, fiquem com o cordão, para que quero eu um
fio de ouro num corpo que os bichos irão come? Enferruja, perde-se na terra,
ou, pior, ainda me assaltam, agora nem os mortos estão a salvo, entram de noite
à socapa, profanam as campas e furtam sem dó um indefeso, nem de algum espírito
que por lá vaguei a bandidagem tem medo, muitos são drogados, coitados.
Campa é rasa, está paga, Alto de São João, nº 1942, já com o
meu nome e data de nascimento, vocês só têm que se ocupar de acrescentar o dia,
mês e ano da partida, a fotografia sou eu em mais nova, tirada a la minuta,
para renovar o passe, mas fiquei bem, às vezes é no improviso que a vida nos
sai melhor.
Aproveitem as flores das coroas para as por em duas jarrinhas
que já lá deixo, são leves demais, foram baratas demais, coloquei pedras dentro
de cada uma, para não abalarem à primeira ventania, mas depois o melhor é
comprar duas jarras de mármore, daquelas retangulares, é verdade que também as
roubam, flores, de plástico, essas não murcham, vocês não têm vida para vir
amiúde a Lisboa e muito menos ao cemitério, talvez se dê o caso de virem a alguma
consulta e a oportunidade de darem lá um salto, só para ver se está tudo em
ordem e passar com um balde de água por cima, mas, como te disse, a Carmo está
muito agarrada à vida, deve-se aguentar mais do que eu, dar conta do recado
sozinha, conheceste-a da última vez que cá vieste, até te fez olhos,
atrevimento não lhe falta, a tua mulher que não a leve a mal, tudo lhe dá festa
e alegria, nada a derruba, e olha que é viúva e perdeu um filho, em pequenino,
umas febres muito grandes, um anjinho, esses têm as portadas dos céus sempre
abertas, mas isto do feitio é de cada um de nós, há os que se vão abaixo por
tudo e por nada, se chove é porque não faz sol, há os conformados, também é uma
atitude, mas não faz ninguém feliz, tenho para mim que é este o meu género, às
vezes penso, nem peixe, nem carne, uma açorda, assim meia deslavada, daquelas
que fazem aqui em Lisboa, não acertam com o piso do coentro e o pão não se
ajusta, é daquele que não sabe endurecer, que se espapaça assim que se deita
água quente, e depois há as Carmos, tudo lhes dá pagode, a coisa mais sem
graça, calhandra a vida dos outros, inventa, não por mal, para se divertir,
agarra-se a novelas, para entreter o dia, e ao baile dos velhos para lhe animar
as noites, eu faço-lhe companha, mas não abalo da cadeira, não me ajeito a
danças, nem a homens, ela convida-os para ir a passeios organizados, alguma
feira, um festival de marisco, não coisas com muitos monumentos, uma vez lá a
convenci a ir ao Convento de Cristo, que coisas maravilhosas faziam
antigamente, mas só porque lá andava muito tabuleiro e povo com eles à cabeça, é
que ela gostou. De torneados manuelinos e da janela não quis saber.
Não é que a Carmo não sinta falta do falecido, que lhe morreu
ali na Graça, um dia em que o elétrico perdeu os freios, era ele o pica, foi
ladeira abaixo, sorte que nesse tempo não havia turistas, ainda passou dois ou
três dias no hospital de S. José a agoniar, mas não se aguentou, e do filho,
coitadinho, olha que não há noite que não acenda uma lamparina daquelas
elétricas aos pés de uma Nossa Senhora de Fátima muito bonita que tem no
quarto, nunca arranjei uma assim, com aquele olhar, dizem que não se consegue
fazer nenhuma imagem igual à outra e deve ser verdade, quando vou à Cova da
Iria e vejo aquelas montras, cada Santa sua cara, seu sorriso, sua forma, é uma
coisa muito misteriosa para mim e, como a que está na capelinha das aparições,
não há nenhuma que se assemelhe.
Foi o destino, se calhar agora safavam-se, o pai e o filho, mesmo
esperando umas poucas horas de pulseirinha na mão nas urgências, nunca passei
por isso, mas apoquenta-me muito o nosso sistema de saúde, ainda mais ai, que
fecham tudo, oxalá não os correios, para que me possas enviar a resposta, não
que tenha que ser escrita, também pode ser por telefone, mas preferia que este
compromisso, se o aceitares, ficasse redigido por ambas as partes, até por
e-mail, a Carmo deu-me o dela, eu não me ajeito a computadores, vai o endereço
ai num papelinho dentro do envelope, vê se não cai ao abrires.
Ainda quis que eu me metesse com ela num curso de informática
para seniores, ali na Praça do Chile, pagavam e tudo, são dinheiros de fora, da
Europa, mas tinham um horário muito complicado para mim e não me chama a
internet, só se fosse para fazer os impostos, porque me dá despesa pagar à
contabilista todos os anos, mas a pessoa tem que andar meia legal, senão
caiem-nos logo em cima.
Silvestre, não te ocupo mais, apesar de reformado, também
tens a tua vida e a carta já vai longa em demasia, nem eu me pensei capaz de
escrever tanto, a metade não ligues, mas à questão do enterro diz-me alguma
coisa, senão entro em aflição, até já a sinto, só de te pensar a ler o pedido e
a demorares na resposta.
Dá cumprimentos a todos aí em casa e quanto ao olival, não se
fala mais nisso, um dia vai ser vosso, não tenho outros herdeiros, mas não me venhas
com a conversa dos ciganos, isso não.
Desta tua prima
Quinita”
Capítulo V
Prazeres
Saiu de casa, hesitou um pouco, cemitério do Alto de São João
ou o dos Prazeres. Optou por descer a avenida Almirante Reis até ao Martim
Moniz, em direção à paragem do 28.
Parecia-lhe ontem os tempos em que o elétrico, agora feito
monumento ambulante, filas de turistas a que não se dava vazão, não era mais do
que um mero meio de transporte, quase em desuso, quase a levar a extrema-unção,
chegou a pensar que a Carris ia acabar com eles, como tinha acabado com os
autocarros verdes de dois andares, o que gostava de ver Lisboa de cima, em vez
de por baixo da terra, como o metro, evitava-o sempre, debaixo do chão era para
outras coisas, ela sabia-o bem, não só condutas e cabos, águas e eletricidades,
mas mortos, a terra paga-nos em vida, agente paga à terra em morrendo, como se
cantava no seu Alentejo natal, assim é que deveria ser, coisas sérias, como um
defunto, merecem chão, sacro, não se metem em gavetas, emparedados, não se
queimam como troncos de madeira, temperaturas muito altas, nem carvão ficava, só cinzas, enterradas no
jardim de uma vivenda, flores a medrar sobre finados, como se fossem adubo, ou
dentro de um pote, até ela, habituada a lidar neste mundo com coisas do outro
lhe fazia confusão, restos de gente esvoaçados para o mar, qualquer dia para o
Tejo, como faziam na Índia, diziam que era ilegal, cá em Portugal, na Índia
tudo se queimava, até mulheres vivas, castigo por serem viúvas, teria a sua
lógica, quanto melhor cuidassem dos maridos, mais viviam elas, mas isso eram
tradições do outro canto do planeta, não de um país de gente religiosa, que se
benzia frente a uma Cruz, ao invés de adorar elefantes com colares ou bichos
com várias cabeças e vários braços, cada um com as suas crenças, estava muito
bem, mas cada um com a sua civilização, e umas eram mais evoluídas do que
outras, o Buda não era filho de Deus, nem ele se arrogara a tal, justiça lhe fosse
feita, um homem bom, rico, tinha-se feito pobre para ter umas visões debaixo de
uma figueira, para os católicos árvore ruim, onde Judas atara um baraço ao
pescoço, esse sim, o Senhor lhe perdoasse, deveria ter sido bem queimado.
Pior ainda era guardar as cinzas em casa para o resto de uma
vida, quando elas eram testemunho de morte, na sala, em cima de uma lareira ou
de uma cómoda, numa caixa de metal, falta de gosto e perigo para criadas mal
informadas, o risco que havia de se espanar um falecido, pensar na
responsabilidade, não querendo ser indiscreta, nos apartamentos que limpava,
inteirava-se do destino dos antepassados para estar segura de que não andavam
ainda lá por casa, não como almas, isso sabia-se que podia acontecer, só reza
ou benzedura forte os fazia abalar para o que lhes calhasse depois do
purgatório, mas em poeira, à mão de uma vassoura.
Chegava aos Prazeres, última paragem do elétrico, perdida nestes
pensamentos.
Viu o coveiro depois do portão do cemitério, passo lento,
coxeando, dia encalorado, que o tornava ainda menos ágil, mais seco, como os
torrões da terra que atirava para cima dos caixões, o som do “pronto,
acabou-se”.
Não lhe conseguia adivinhar a idade, novo não, velho tão
pouco, cinquenta e muitos, sessenta e picos, vá, por aí, parecia que andava ali
há séculos e por outros tantos poderia ficar, como as estátuas de anjos que por
lá havia, podia reformar-se, com certeza, por invalidez, defeituoso da perna
como era, mas para onde iria, pôr-se em fila de espera para a vez dele? Coitado,
quem o enterraria? Não haveria de ser fácil arranjar moços novos para aquelas
tarefas, nem no centro de emprego, quem quereria ser coveiro, e enterravam-no
onde? Os Prazeres era para quem tinha tido ricas vidas, não para gente humilde.
Não fosse assunto sensível, pergunta-lhe sobre estas e outras coisas, onde
vivia, porque fechava os portões por dentro e não por fora, onde era a sua casa?
Que lhe confessasse tudo, dela não sairia uma palavra, nem à Carmo,
desconhecedora destas suas limpezas, percebia que ele era homem pobre e só
neste mundo, aliança não trazia, ainda por cima manco, podia conviver à noite
com os mortos, que mal faria, algum jazigo abandonado, tamanho tinham, onde
cabia corpo, cabia colchão, onde entrava caixão entrava um fogão, duas ou três
prateleiras, uns cabides, uma pia para lavar a cara, com eletricidade até um
aquecedor a óleo para os invernos mais frios.
Coxos também os havia cada vez menos, já nem os sapateiros,
como no seu tempo, profissão de sentados, para os quais só se impunha ligeireza
de braços e mãos, um banquinho, uma banca, baixa, um molde de ferro para o
calçado, martelo, fio, instrumentos de corte, tudo aquilo que já não era
preciso hoje.
O que ela tinha que gastar solas a correr meia Lisboa para
arranjar quem lhe compusesse um tacão, uma fivela, coisas simples, às vezes lá
estavam num canto de um centro comercial ou na entrada do metropolitano, hesitava,
descia, uma misturada, chaves, fura cintos, porta-moedas, porta-chaves, nada
especializado, o povo agora descartava tudo, até os sapatos, e aviava-se nos
saldos, nem as roupas ofereciam aos pobres, bastava ir ali à igreja de Fátima e
colocar num contentor roleta que por lá havia, parecia a dos conventos, onde se
metiam dantes os nascidos do pecado, para que alguma madre olhasse por eles, os
fizesse religiosos, à força, talvez jardineiro, se homem saísse, ela da roupa
não se desfazia, era de reciclar, inspirava-se nas patroas, nisso era muito
boa, nas tendências, ora encurtava saia, não muito, claro, ora abria mais um
decote, não muito, claro, escolhia bonitas echarpes no indiano do Intendente, o
cabelo aparava-o ela, não arriscava sair frisada de um salão barato, a Carmo
nisso descuidava-se, encaracolava-se demais, cores berrantes, uns encarniçados,
com as pontas amareladas, agora queria tatuar-se, uma borboleta no ombro, uma
flor na parte mais atrevida da coxa, já a imaginava na Caparica a exibir os
desenhos franzidos a um velho baboso, enquanto disfarçava que fazia cruzadexes
que nunca acabava, rindo, a vizinha gostava de ser assim, um pouco boçal, dizer
umas asneiras que a ruborizavam, chamar-lhe criada chique e beata, mas ela
tinha para consigo que a partir de certa idade tudo era mole e ridículo, não as
tinha apreciado em vida, mas as vergonhas na juventude tinham outra frescura, repulsava-a
pensar em dois velhos enleados, pregas contra pregas, descaídos a roçar uns nos
outros, pelos brancos.
A Carmo dizia que não queria saber, nem disso, nem de estar
anafada, os homens gostavam de mamas e charolas roliças, até tinha rapado a sua
um pouco, para ficar à brasileira, quase caíra de susto ao ver aquela coisa
papuda e meio despenteada, em segunda mão, tinta preta, muito se rira, um dia
haveria de lhe contar das suas quintas-feiras, pois se a vizinha não a poupava a
intimidades ao ponto de lhe exibir as partes, ela também não o deveria fazer,
ainda mais o seu segredo, sem importância, quando muito dir-lhe-ia que perdesse
o dia a pavonear-se na avenida, ir a uma boa pastelaria, ver uma revista
matiné, em vez de cuidar de finados sem tesão, nem com pastilhinhas azuis lá
iam, ela gabava essa inovação da medicina, que dava vida aos murchos, mas
esperava que não se finassem no ato, os comprimidos atacavam o coração, mal
dela ficar com um morto por cima, ou por baixo, que não era dada só a posições
canónicas, gostava de outras posturas no coito.
Desejava longa vida à Carmo, não se via com amigas que
sofressem do mesmo recato que ela, tédios e pudores bastavam os seus.
Sentaram-se os dois à sombra de um cipreste, junto a um
jazigo que se lhe tivessem dado mais tamanho poderia dar-se ares de catedral,
daquelas que há por essa europa, como a que tinha visto em Sevilha, cá não
tínhamos igrejas daquelas altitudes, que pareciam querer tocar em nosso Senhor,
como se isso fosse possível, olha o que tinha acontecido a Notre Dame, tinha sido a ambição dos homens em elevar aquilo aos
céus que provocara o incêndio, Deus não quer os homens tão lá em cima, olha o
que tinha acontecido àqueles prédios na América, Deus não queria os homens a
seus pés por estas vias.
De mais parecido, uma Batalha, uns Jerónimos, mas eram mosteiros,
o primeiro por acabar, o segundo mais para o deitado, nada com ornamentação em
demasia, como têm os espanhóis, no país ao lado até as nossas senhoras
brilhavam, coroas e mais coroas, vestes incandescentes, andores que pareciam
altares, homens e mulheres a gritar à volta, cantando e batendo palmas, aquela
semana santa parecia o carnaval, quando o que mais se impunha era o silêncio. Como
perceber a paixão de Cristo no meio de tanta algazarra? A dor não se grita,
acomoda-se profundo na alma, como uma espada que faz sangrar, só o olhar o
revela, não a garganta. Deus não quer os homens aos berros.
Bastava pensar na mãe de Jesus, aos pés da cruz, sentada,
enlutada, num calado que suportava as segundas maiores penas do mundo, as
primeiras cabiam ao filho, resignada, sem um grito, era essa a Sua vontade,
ainda que lhe dilacerasse o coração, nossa Senhora das Dores, da Soledade, da
Piedade, sempre em silêncio.
Apreciava mais a singeleza das nossas imagens, humildezinhas,
às vezes até um pouco mal-amanhadas de vestidinhos, uma peruca pouco
apropriada, pequeninas, ou então a alvura e ternura de Fátima, a mãe de todas
as mães, ademais portuguesa.
Mas os jazigos dos prazeres eram assim, dados à imponência,
para garantir que os compridos nomes de família cabiam na pedra, que os artistas
e os políticos se perpetuavam, se não fossem dignos do Panteão, nem todos saíam
Amálias e Eusébios na pátria. O que fariam com o Ronaldo?
Apreciava-os, limpava-os, com tanta dedicação como se de
campas rasas se tratassem, dando-lhes mais horas, até, porque gente mais
humilde cuida dos seus defuntos com mais afinco, não se desliga tão depressa,
põe uma frase no mármore, com tinta preta “dos teus netos queridos”, ou assim,
em laje de nobres ou burgueses nunca se via tal.
A verdade é que os jazigos davam mais trabalho, rococós,
figuras angélicas, pináculos, colunas retorcidas, as cruzes muito subidas, as
suas cruzes já a dificultar-lhe tanto esforço.
Que temos hoje Sr. Seixas? Isto está um pouco parado!
Morre-se mais no inverno Srª Joaquina, janeiro e fevereiro
são foices, sobretudo para os velhos, vem um frio, uma gripe, não se aguentam,
na primavera e no verão escapam-se melhor, não saem de casa ou andam pela
sombra.
Mas olhe que dizem nas notícias que as vagas de calor também levam
muita gente, eu não, alentejana, sou de sequeiro.
Daqui a uns anos isto vai parecer Marrocos, o seu Alentejo
fica feito num deserto.
Preocupa-se isso tanto, se calhar nem a água da barragem do
Alqueva chega para encharcar aquelas terras, depois de tanta década à espera de
ser levada por diante, regar aquelas campos todos, está tudo tão bonito, tanta
cultura, tanto arvoredo, ainda há dias deu na televisão, mas para dizer mal
daqueles olivais muito grandes que os espanhóis por lá fazem, muito intensivo,
as oliveiras encavalitadas umas nas outras, cansa as terras, são como agente,
precisam de pousio de vez em quando, já se sabe de Espanha!
Nem bom vento, nem bom casamento.
É assim a vida, nascemos com a água e havemos de morrer com o
fogo, com isso do aquecimento.
Com a água Sr. Seixas?
Sim, a primeira bichesa que se fez à terra vinha do mar, há
muito documentário sobre isso.
Agente vir de peixes ou rãs?? Então o Adão e a Eva?
O Adão veio depois, quando Deus nosso Senhor percebeu que
isto não podia ser perfeito só com animais, mas se calhar devia ter descansado
logo ao sexto dia.
Hei-de perguntar isso ao senhor padre.
Isso o quê?
Se o Adão e a Eva foram de criação divina, assim num repente,
primeiro ele, claro, ou se derivaram da bichesa, dos macacos, de coisas com
guelras nunca ouvi.
Em qualquer dos casos milagre foi, mesmo o passar de animal a
homem não é coisa pouca. Pode ser que o convença assim.
Não me espanta, a própria igreja se baralha e desdiz, veja lá
o purgatório, toda a vida pensei que era uma espécie de apeadeiro, triste, nem
céu, nem terra, uma barcaça num rio escuro, cada um à espera da sua sorte,
sabe-se lá quanto tempo, sem dia e hora, sem relógio, agente a deambular, meios
mortos, meios vivos.
E então?
Então agora vêm dizer que o Purgatório é figurativo e que o
inferno a mesma coisa.
E o céu?
Julgo que não se atrevem a figura-lo ...
A igreja também dizia que a terra era plana, ainda queimou
uns poucos que disseram o contrário, e afinal …
Afinal andamos todos aqui à reboleta.
Riram-se os dois.
Sim, um belo dia a rebolar aí para dentro de uma cova dessas,
o Senhor me perdoe, disse ela, e benzeu-se.
Ajeitaram-se ambos para dentro da estreita sombra do
cipreste, porque virava o sol, prova de que era redonda a terra.
Sendo assim, vossemecê tem televisão?
Então porque é que não havia de ter?
Dessas do cabo, quero dizer.
Tenho aquele pacote mais barato, pouco aprecio filmes, vejo a
bola, programas da vida selvagem, de história, mas ovnis é onde me entretenho
mais.
Não lhe parecia que o cabo chegasse ao cemitério dos
prazeres, muito menos a algum jazigo, mas imaginou-o sentado numa daquelas
cadeiras de praia, com riscas, das que se dobram para ocupar menos espaço, à
noite, roupão vestido, a ver os leões a correr atrás de gazelas e objetos
voadores, enquanto os mortos e os vivos descansavam.
Acredita nisso? Se calhar já viu algum ovni aqui no cemitério
no escuro da noite ou ao romper da aurora.
Com esta profissão ando com os olhos mais postos na terra do
que nos céus.
Há uns anos deu-se um avistamento lá no Alentejo, até
entrevistaram um pastor que disse que aquilo voava nos céus a uma velocidade tal,
a um ziguezague tal, para cá e para lá, que avião não podia ser, ou acabava tudo
morto lá dentro, que se parecia com um charuto acabaçado, um objeto nunca visto
pelos ares, mas tenho para mim que isso são coisas dos americanos ou dos
russos, não descartando ter o zagal bebido um copinho a mais.
Riram-se novamente.
Eu é raro, mas às vezes bebo uma mini ou duas, com uns
caracolitos, com a minha vizinha Carmo, também já me deu para ver coisas, não
tão fantásticas que justifiquem entrevistas, mas o que é certo é que agora se
fala menos nessas aparições.
São invisíveis aos nossos olhos, nem os radares dão por eles.
Calculem, então deve ser por isso!
Se agente evolui, eles também. O que achará o senhor padre
destes mistérios?
Posso-lhe perguntar um destes dias que vá em confissão, como
nunca tenha nada de especial, pode ser que cuide que isto é um pecado em
pensamentos, sempre me recomenda alguma penitência, então se juntar a história
do Adão e dos macacos ...
Bom, tenho que me fazer à vida, que está para chegar um
morto, veja lá como são as coisas, o morto precisa do vivo para ser morto de
vez, eu preciso dos mortos para ter a minha vida.
Realmente, o morto só é morto depois de enterrado, nunca
tinha pensado nisso.
Por isso se diz morto e enterrado, enquanto não for para a
cova é só morto.
Realmente!!! E quem é hoje, gente conhecida aqui de Campo de
Ourique ou da Estrela?
Alcântara, não sei bem, um moço novo.
Alguma rixa de miúdos drogados, agora há tanto disso.
Não tão moço, na casa dos trinta, pela sepultura para onde
vai é filho de gente fina, fica lá para o fundo, boas vistas, rio, ponte,
Cristo Rei, do melhor que há aqui, ou não, com esta fúria de construção
qualquer dia levam daqui os defuntos, carregam com eles para Loures ou para a
Amadora e transformam isto num condomínio de luxo.
Olhe que nunca se sabe, nunca se sabe, já viu o que fizeram
com o monumental, deitarem abaixo uma obra daquelas, calcule lá que
arrebentavam com o Instituto Superior Técnico!!
Já lá tem um cubo por cima.
Mas deixaram-lhe o corpo por baixo.
Não sei, só via umas coisas aí num jornal, nunca vou para
esses lados.
Não dá o seu passeiozinho?
Só este passeio dos tristes, a perna não me deixa afastar
muito.
Pois claro! Ainda assim, quem quereria viver por cima dum
antigo cemitério, se se desse essa transladação coletiva?
Estrangeiros.
Ah, pode ser sim, mais a mais não conhecendo Lisboa, se
comprassem os apartamentos por folheto ou na internet, uns árabes ou chineses à
cata de vistos dourados ou lá como é que isso se chama, parece que é tudo uma grande
trampolineirice … O parque de Monsanto é que era, todo em lotes, aquilo sim,
tem umas bonitas vistas, pagava a dívida do país.
A Senhora Joaquina está sempre a imaginar coisas!
Entretenho-me, enquanto fantasio não penso na vida, nem na
morte.
Tem assuntos que a ralem?
Coisa pouca, não me posso queixar, tomara muitos, gente
simples como eu não tem grandes problemas, não há bolsas a cair, quando muito
vazias, prédios para restaurar, viagens para planear, até nas doenças os ricos
sofrem mais do que os pobres, quando o mal é ruim agarram-se a esperanças, fazem
operações no estrangeiro, Londres, vão muito para lá, quero ver agora que ingleses
vão abalar da europa, mas no fim é só para durarem mais uns meses, para não
falar na complicação das heranças e nos escândalos em que se metem. Um pobre às
vezes morre antes da operação, quando chega o postalinho a marcar o dia da
cirurgia já ele se foi, deve ser uma coisa muito desagradável, para quem fica, receber
a convocatória, que o que partiu já não lê, e ainda bem, senão podia acalentar
ilusões iguais aos da alta, mas não, já foi com o corpo em dores, porém com a
alma mais preparada, o rico prende-se ao luxo, a boas casas, carros, joias, até
parece que não acabamos todos com as manitas sobre o peito, encovados, brancos
que nem cera, frios como a pedra, devem pensar que lá do outro lado os espera vida
igual, vistos gold, é assim que se
diz. Enfim, um desgraçado ou um remediado prende-se menos a este mundo.
Parece uma comunista a falar … olha que os ricos também fazem
cá falta!
Comunista não sou, cristã, cristã, era o que faltava que do
outro lado não fossemos todos iguais, olhe que se isso também for figurativo
passo-me para os muçulmanos ou para os jeovás. Para os judeus, não.
Nem diga isso ao padre, já não é coisa de penitência, é de
excomunhão.
Ela deu-lhe um encontrão com o ombro e riram-se.
Vem aí o carro. A senhora hoje não limpa?
Limpo, mas estas tonturas, quando me agacho, fica-me tudo
escuro com umas pintinhas a brilhar, parecem umas estrelinhas, muito miudinhas,
tenho que ver se marco uma consulta, hoje se calhar só esfrego ali o jazigo dos
Sacaduras e vou mais cedo para casa.
É o melhor, mas vá ao médico, eu todos os anos faço a revisão.
Não o imaginava assim cuidadoso!
Dá-me ideia que às vezes imagina às avessas Srª Joaquina,
além de ser manco, todos os dias vejo gente a ir-se antes da hora, muitos por
descuido, uma dor aqui, outra acolá, não ligam, quando vão ao médico, tarde
piaste passarinho, não vou cair nessa, há que vigiar a saúde.
Mas não há vivalma atrás do carro?
Parece que este só mortalma e os cangalheiros.
Nem um parente, um amigo?
Hoje em dia há muita gente só no mundo!
Ainda assim, um primo, um colega, o patrão! Como se chamará?
Qualquer coisa Sottomayor.
Gente de bem, mais me estranha, não são de vir aos magotes,
como para as festas, mas juntam-se uns poucos, até para não parecer mal!!
Este nem Padre leva Srª Joaquina.
Mãe Santíssima, quem lhe encomendará a alma?
Pode não ser católico.
Se é para ser enterrado neste chão, mesmo que não tenha sido,
tem que se conformar! Nem que seja um padre nosso e um credo havia de se lhe rezar.
Com a experiência que tem, deve saber encomendar.
Deus me livre, isso é coisa de cura. O Sr. Seixas tem mais
experiencia do que eu, mal por mal, é homem.
Parece que o Santo Padre quer ordenar mulheres.
Não se acredite nisso, ele custa a dar conta deles, já pensou
o que era aquele vaticano cheio de saias.
De saias já andam.
Ai homem, não me faça rir agora, vamos ajudar aquele
pobrezinho a não partir desta terra sem companhia e encomenda.
Já viu que partimos da terra para a terra?
Isso é o corpo, Sr. Seixas, o corpo, eu estou preocupada é
com a alma, que vagueia aí por cima e vê um enterro sem um familiar que seja. Que
há-de pensar o espírito? Que terá feito em vida, que ninguém lhe sente a falta
em morto? É muito triste!
Então porque se ocupa tanto do terreno, das campas, dos
jazigos? Se são as almas que a preocupam, rezava-lhes missas.
Não se reza missas por defuntos que não são nossos e saia-me
muito mais caro.
Os detergentes também são caros.
Lixivia Sr. Seixas, lavo tudo com lixivia, que é outro asseio
e não é tão dispendioso como missas por almas.
Contudo, cuida da terra, não dos espíritos.
Homem, você já viu o que é uma alma penada olhar cá para
baixo e ver o sepulcro do corpo que foi seu todo desmazelado, sujo, alguns em
ruinas? Já basta terem de assistir ao arrumar das suas coisas nas gavetas das casas
onde estavam em vida, retratos tirados das paredes, roupas a ganhar mofo ou
dadas a qualquer um, o esquecimento do dia do aniversário, nem uma oração, uma
velinha acesa de quando em vez.
Nunca vi nenhuma alma penada.
Não se deixam ver a toda a gente e para que o haviam de
incomodar a si se cuida delas?
Então, vossemecê, também nunca viu?
Nunca vi, gostava, mas nunca vi. Escute lá, isso da perna foi
em África?
Pior, foi de nascença, nem à guerra fui, nem a pátria pude
servir.
Serve todos os dias! Agora vamos lá cuidar deste soldado que
já não luta mais.
Vamos, que os rapazes da funerária já me parecem impacientes.
O sol estava abrasivo, especialmente para transportar caixões
e tons escuros, devia-se enlutar de branco, a ausência total de cor, o regresso
à inocência, no nascer e no morrer, Deus mo deu, Deus mo levou.
Para quê chegar ao paraíso, sendo esse o destino, carregado
de preto? Para mudar de roupa logo de seguida, vestir-se de anjinho? Ou para os
quintos dos infernos? Lá, até de encarnado, cor do mafarrico! E o purgatório, que
deveria ser o local onde a pessoa se apresentaria com mais esmero, como quando
se está em qualquer fila de espera? Ninguém vai a um médico ou a uma repartição
de finanças descomposto! Mas se nem esse interface já existe ...
Senhora Joaquina …. Vamos lá. Já está perdida em pensamentos
outra vez.
Aproximaram-se dos cangalheiros, novos ainda, boa pinta, bem
vestidos, gel no cabelo, óculos escuros, retiravam a urna da carrinha, um deles,
repentino, parecia um modelo, largou as asas do caixão, recuou abruptamente,
dois ou três passos para trás, que cena é essa, gritou, cambalhota e meia,
tumba tombada, tampa a abrir, o finado a deslizar, meio fora, meio dentro, de
repente todo fora, cara no chão, fato sujo, bonitos cabelos alourados, um
telemóvel que tocava caia com o morto por terra.
O outro cangalheiro atendeu.
Sim, disse, não, não me esqueço de ir buscar o puto, sim,
fica descansada, não, não o vou buscar no carro fúnebre, sim, já sei que ele
não gosta, não, agora não posso falar mais, estou no meio de um serviço nos Prazeres,
ok, depois falamos, sim, também gosto muito de ti, desligou, chata, disse.
Que é essa merda?
Calma, esqueci-me do telemóvel dentro do caixão, pousei-o
para ajeitar a almofada ao homem, estava com o pescoço de lado.
Calma o caralho, o gajo nem acompanhamento tem, quem é que
quer saber se vai direito ou torto para o outro mundo, apanhei um cagaço do
caralho!
Ainda vais apanhar mais, nesta vida de mortes, sorte que a
minha mulher ligou, senão ficava sem o telefone, novo em folha, umas centenas
de euros, última geração. Foda-se, ainda bem que tocou!
Quinita admoestou-os, tanto palavrão num chão sagrado,
carregado de cruzes de pedra e de vidas já mortas, falta de respeito, o defunto
tinha acompanhante, era ela, família, o cangalheiro do telemóvel riu-se, bem a
conhecia, disse-lhe que sendo assim era prima de meio Prazeres e meio Alto de
S. João, ela que não, que deste era mesmo, era só deste, criada, todas as
sextas, mais do que família e melhor do que ele deveria ser para a sua, até tinham
que lhe ligar para que se não esquecesse do filho, pobrezinho, num carro
funerário, envergonhado em frente aos colegas, se calhar deitava-o lá atrás,
cansado que vinha da escola ou dos tempos livres, uma criança tinha que ser
poupada a coisas que lembram o fim, para eles tudo é começo, daí os quartinhos
de cores suaves, os papagaios pendurados, as florzinhas desenhadas nas paredes,
azul meninos, rosinha meninas, arcos iris para casais mais modernos, quais cá
coisas pretas como o carro de uma agência, isso era para quem já sabia que não
havia vidas cor de rosa, só nas revistas, mas vamos lá acabar com isto, o Dr.
aqui espalhado no chão, cheio de pó antes de se transformar nele, dar tempo ao
tempo, há que virá-lo, compô-lo, ela agachada, apesar das tensões, mãos nos
ombros e meia volta, que lindo, que cara, apesar de morto, abriu a boca de
espanto e a almareação levou-a ao chão desmaiada, o coveiro a abaná-la, pô-la à
sombra, uma aguinha, perguntou se conhecia o falecido, quando ela se recompôs, ela
que não, nunca o tinha visto, parecia-lhe aquilo um dejá visto, mas seria do sol, o calor que se punha, da irritação
com os rapazes, se tivessem posto o telefone no silêncio parecia menos mal, mas
depois ficava o gaito à espera do pai à porta do colégio, nem sabia o que era
melhor, enfim, eram estas coisas que a enervavam, que não lhe desse água da
torneira, que os tubos andavam junto às covas, em contacto com cadáveres e
bichos, apesar do serviço que fazia não estava tão habituada como ele, que vivia
num cemitério.
Acalme-se Srª Joaquina, não está a dizer coisa com coisa.
Sr. Seixas, diga-me, não vive num jazigo lá para o fundo,
daqueles que já não têm hóspedes?
Eu?
Sim, eu bem o vejo fechar o portão por dentro, quando isto encerra.
Mulher, eu vivo na Rua Maria Pia, vou coxeando pelo cemitério
abaixo, para não ter que dar a volta ao quarteirão, escapo-me por uma frecha
larga que há no muro, está disfarçada com um arbusto, ninguém sabe, saio direto
no quintalinho lá de casa, não me desgrace, não conte isto por aí, o Presidente
da Junta despede-me e a minha mulher se sabe que me desboquei mata-me.
Ai vossemecê é casado? Aliança não usa!
Não vê que me pode cair quando estou a abrir um buraco!
Ponho-a quando chego a casa, senão a minha Maria ….
Pois claro, então e o pobrezinho, ainda por terra?
Voltaram a pô-lo na urna, agora estão à sua espera, por
pensar que é a mulher a dias.
Já lhe puseram a tampa?
Não, estão ao telefone, lá na vida deles.
Agora é isto dos telemóveis, não lhes tiram os olhos de cima,
nem em campo santo, falta de respeito.
Tirou um paninho do saco, molhou uma ponta em água e lavou a face
do falecido com muito cuidado, para não o arranhar com os grãos de terra que
lhe tinham ficado na cara, depois passou uma toalhita, daquelas húmidas, para o
refrescar e com a outra ponta do pano secou-lhe a pele, por onde passou um
pouco de pó de arroz, com alguma cor ainda ficava mais bonito.
Percebendo os homens e o coveiro de costas, forçou as
pálpebras do cadáver e viu uns olhos ainda muitos verdes, pareciam vivos, julgou
já os ter visto um dia, tão lindos que os seus deram em deixar cair lágrimas,
que rolavam como fios, aos anos que não chorava assim, desde a partida da sua
falecida mãe, tão trabalhadora, tão boazinha, tão doente, muito se tinha
aguentado, criada de servir como ela, uma vida toda, mas a tempo inteiro, em família
de linhagem, queriam lá saber se lhe doía a espinha quando subia as escadarias
com alguidares e baldes, se lhe arfava o peito quando se mudavam as camas, se
se fazia pálida quando areava as pratas, ela sempre atrás, quando não tinha
escola, gaiata, a rezar para não ficar órfã antes do tempo, até que ficou,
estavam as duas sentadas na mesa da cozinha grande, um panelão ao fogo com
comida, a mãe encostada à palma da mão, olhos fechados, o comer a ferver, a
transbordar por cima da chama do bico, a mãe nada, desligou-o, pensou que
dormitava, esgotada, ela mãe, mãe, a mãe nada, foi abraçá-la, o cotovelo caiu, sentiu
pela primeira vez o esfriar de uma pele que se vai, onde já não corre o sangue,
jurou que nunca mais tocaria num corpo sem vida, só por cima da roupa, onde não
se sente a morte, gritou, a Senhora desceu à copa, que maçada, chamou a outra
empregada, para que despachassem as coisas depressinha, um jantar para servir e
aquele enorme contratempo, melhor a criada viva ocupar-se da refeição, embora
menos apta, a filha que cuidasse da mãe, ali no quarto dos fundos, alguém que
avisasse o pai, ao menos foi como um passarinho, mas não tinha sido pior que
resolvesse voar só no dia seguinte, que percalço, já nem daria tempo de
cancelar ou pedir que a refeição fosse servida por um bom restaurante, eram tão
poucos em Lisboa e os comensais eram gente esquisita, alguns estrangeiros,
talvez fosse melhor desculpar-se com uma criada nova, do que com o falecimento
de outra mais velha, a morte incomoda sempre, parece que fica a pairar, que se
entranha nas almas dos que ficam, mesmo que não conheçam os que se vão, é
diferente de quando alguém diz que tem acamado um primo que nunca vimos, ai
coitado, Deus queira que não seja nada de grave, meia volta e não nos lembramos
mais do desgraçado, menos ainda nesta classe social, doenças não se cometam, só
na intimidade, mas a morte não, pode-se falar, mas fica a pairar, a morte
paira, melhor a desculpa da troca das domésticas, isso todos compreendiam e
falar de criadagem dava bom assunto de salão, e ela ouvia aquilo tudo, em
silêncio, só as lágrimas, também mudas, a caírem no chão, como fios.
À mãe nem a deixaram arrefecer, a ela nem o luto fazer, 14
anos, avental, alguma coisa deves ter apreendido, sempre atrás das saias,
estudos perdidos, para quê menina, julgavas que te fazias secretária ou
professorinha, ilusões menina, ilusões, agarra-te ao trabalho, põe-te de namoro
com um polícia, não para já, és novita, ao menos analfabeta já não ficas, do chauffeur
afasta-te, é marialva, tem idade para ser teu irmão mais velho, afasta-te dele,
era o que me faltava ter namoricos ou sabe Deus que mais cá nos pátios.
A Senhora Dona Isabel tinha corpo de viúva, com seis filhos
paridos, cinco mortos, todos homens, sobrava-lhe a mais nova, poucochinha, como
diziam pelas costas, sou a Catarina da Áustria, comentava, tudo me morre, à
rainha de Portugal sobrou-lhe o neto Sebastião, aparvalhado, para tragédia
deste país, a mim tocou-me filha sem trono e sem tino, ao menos não se propõe
conquistar o norte de África, guerrear mouros, não se propõe a nada, a quem
deixarei o nome, não de barões assinalados à medida de favores de monarcas, mas
de conde, da velha tradição.
Mas a filha propôs-se, sem se saber como, peito inchado,
ancas a alargar, alguma esperteza tinha afinal, para aprender o que não devia,
melhor é despedir o motorista, pode ser obra dele, que fazemos nós à vida,
desonra-me a casa, tens a certeza que as regras não lhe têm chegado, estou
segura minha Senhora, case-a quanto antes, com quem criatura, não me leve a mal
minha Senhora, com alguém mais parvo do que ela, está bem visto rapariga, parva
não és tu, mas quem, talvez o filho do ministro das finanças, coitado, nem para
diplomata serve, é o que dizem, nem adido, num país desses que ninguém sabe onde
fica, onde não o possam achar, nem mulher o queira, quando muito algum moço de
estrebaria que gostasse de florzinhas, é o que o rapaz é, daquelas que ninguém
sabe onde se coloca, nem numa jarra, nestes círculos não se fala, é uma doença,
mas vê-se, vamos lá as duas salvar a honra dos dois.
Mas se já se lhe vislumbra a pança, como faremos isto sem se
notar?
Entrapa-se-lhe a barriga para que não sobressaia, depois
diz-se que nasceu prematuro, há é que apressar a coisa Senhora D. Isabel.
Vou convidar o ministro para jantar, desta semana não passa,
depois é encaminhar a boda, aqui mesmo na capela, só família próxima, cada um
resguardando as suas vergonhas, só peço ao Altíssimo que me saia neto ou neta
escorreitos.
A velha condessa ainda viu o neto durante seis meses, depois
foi-se ela, uma queda muito grande no Chiado, dia de muita chuva, animada às
compras para o menino, que lhe parecia tão esperto, uns olhos muito vivos,
claros, lindos, tal qual os do chauffeur
despedido, coincidências, ainda acamou uns dias, médicos à cabeceira, mas as
fraturas eram profundas, assim se foi, depois o testamento, muito de imóveis,
pouco de rendas, contas quase vazias, ela contemplada com uma casinha na Ajuda,
para sua surpresa, com certeza pelo apoio que dera na sucessão, depois
dispensada pelos herdeiros, quase falidos, talvez o ministro das finanças os
ajudasse, já que percebia de números, ela poderia arrendar a casinha, compor um
bocadinho o mês, até que tivesse trabalho estável, o pai forrava na mercearia
para conseguir pagar o apartamento nos Anjos, para novo já não caminhava,
queria deixá-la amparada, disse-lhe, tu não te entregues a uma só patroa, faz
muitas, uns dias umas, outros dias outras, criada de uma só senhora é
escravatura e menos de metade dos rendimentos, torna-te liberal filha, não
deixes que só um mande em ti, com a loja não contes, há muita concorrência, o
país não se endireita, gente na miséria não compra nada, e eu, não me leves a mal,
mais ano, menos ano, regresso ao Alentejo, acomodo-me em casa do tio Matias,
cuido do nosso olival e espero sossegado pelo meu dia, que também há-de vir,
quando puderes junta os ossos da tua mãe aos meus lá em Baleizão.
Foi interrompida pelo coveiro, está a escovar-lhe o cabelo há
demasiado tempo Srª Joaquina, melhor ele já não fica e vossemecê também não,
está muito apresentável, para morto, os rapazes estão a atrasar-se, têm outro
serviço daqui a pouco e o carro é o mesmo, mas que bem lhe vai a franja para o
lado, quem o teria penteado de marrafa ao meio, e enxugue as lágrimas, decerto
não chora pelo defunto, serão penas suas, vamos despachar isto e se precisar, a
seguir, desabafa, dá uma alma nova, deitar os problemas cá para fora, mais a
mais se for com alguém que não se conhece muito bem, como eu, embora há anos que
agente se cruze e troque conversas fiadas, que sabemos um do outro, nada, eu
casado, a senhora surpresa, julgando-me a viver enfiado ai numa tumba, Deus me
livre, um homem trabalha no cemitério, mas é como outro emprego qualquer, veja
lá se fosse eu ajudante no Instituto de Medicina Legal, via-me a pernoitar por
lá, dentro de alguma arca frigorífica, com certeza que não, a minha mulher
também é dada a pensar na vida dos outros, não por mal, entretém-se na janela,
um vizinho novo que chega, agora é um corrupio, será solteiro, divorciados hoje
há muitos, depois os poderes paternais, a que dia ficará com os miúdos, será
formado, antigamente havia poucos, na Rua Maria Pia mais drogados do que
doutores, afinal nem uma coisa nem outra, ou as duas, ela lá vai desfiando
sobre as vidas de cada um, sem lhes conhecer a voz ou o olhar, o que não
aprecia são os alugueres de curta duração, um entra e sai muito grande, não
merece ter apego a quem não fica mais do que uma mão cheia de dias no bairro,
vá um casal que discuta ou uns estrangeiros muito despenteados, mas isso não
passa de um comentário tão passageiro como eles, ainda bem que já secou as
lágrimas, vamos lá encaminhar o Eduardo Sottomayor para onde já está atrasado,
apesar de ter ido antes do tempo.
Ela olhou para ele com um ar pensativo.
Eduardo …
Com cuidado, para compensar o primeiro trambolhão, os
cangalheiros taparam a urna, pegaram um à frente, outro atrás, depois
pousaram-na em cima de duas cordas, que levantaram e depositaram-na sobre a
cova, fazendo-a deslizar para dentro do buraco já aberto.
A Senhora Joaquina rezou um credo, em voz alta, o coveiro
recitou um responso.
Eu sou a ressurreição e a vida, quem crê em Mim, mesmo que
esteja morto, viverá, e quem vive e crê em Mim não morrerá eternamente.
Santos de Deus, vinde em seu auxílio, anjos do Senhor, correi
ao seu encontro! Acolhei a sua alma, levando-a à presença do Altíssimo.
Dai-lhe, Senhor, o repouso eterno e brilhe para ele a vossa
luz.
Senhor, tende piedade de nós.
Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.
Descanse em paz.
Amém.
Tão bonito Sr. Seixas, bem lhe disse que o faria melhor do
que eu.
Nesse dia já nem o jazigo dos Sacaduras, despediu-se a correr
do Sr. Seixas, disse ao cangalheiro para não se esquecer do filho, apanhou um
táxi para casa, chá de tília, uma folhinha de hortelã dentro, duas boas
colheres de açúcar, meio comprimido para os nervos, meia persiana corrida,
sentou-se estafada na senhorinha, ligou a televisão, som baixinho, a volta a
Portugal em bicicleta, deixou-se estar a ver o pelotão que subia em esforço
umas penedias, o povo a deitar-lhe água por cima, devia ser lá para o Minho,
cerros de pedra e vales muito verdes, com casas de vários feitios pelo meio,
havia de ir a Viana, a Santa Luzia, ver a foz do Lima, um corredor sprintava,
afastava-se do grupo, acercava-se da meta.
O sono carregava-lhe as pálpebras, custava a abrir os olhos,
tal o peso, às vezes acontecia-lhe o mesmo nos autocarros, cabeceava, nos
transportes públicos e no sofá, mas já o inconsciente se apoderava dela, queria
ver o homem subir ao pódio, vestir a camisola amarela, mas já se achava ali
para os lados do largo do Calvário, junto ao parque dos elétricos, todos
parados, parecia uma madrugada de inverno, chegou-lhe um frio, um nevoeiro
vindo do Tejo, puxou uma mantinha que estava perto, a casa era fresca, um
rés-do-chão meio enterrado, bom no verão, húmido no inverno, caliço, algumas
manchas, nem com lixívia, andava a poupar para aplicar uns azulejos, pelo menos
meia parede, ou pladur, agora era pladur para tudo, não achava muito bem,
porque os sujos ficavam por de trás, escondidos, a medrar mais ainda, sem agente
ver, como uma doença, a mente outra vez a fugir-lhe, já para lá do Calvário, à Junqueira,
a Senhora D. Isabel em camisa de noite, no meio da rua, descalça, rolos na
cabeça, um colar de pérolas muito bonito, as unhas pintadas de negro, estranhou,
Eduardo, gritava, meu querido, volta, os teus pais não te castigam, a avó cuida
de ti, meu pequeno fidalgo, meu menino, não me morras, já não posso perder mais
ninguém, a manta a aquecê-la agora em demasia, deixo-a escorregar para o chão,
encostou a cabeça à mão, deu um salto, à mão não, à mão não te encostes filha,
disse-lhe a mãe, muito velhinha, mais do que quando tinha partido, tinha
continuado a envelhecer depois de morta, dava uma idosa bonita, sentiu-lhe o
cheiro, mede a tensão Quinita, faz uns exames médicos, afasta-te dos mortos,
tens tempo para ir para o cemitério, quando for a tua hora, cuida-te, agarra-te
à vida, não é pior, como se julga, aqui tudo é infinito, somos estrelinhas,
brilhamos para nada, imóveis, algumas cadentes, mas só para arrumar algum
assunto pendente ai na terra, nada é figurativo, tudo real, imóvel, para
sempre, agarra-te à vida filha, levantou-se e foi à cozinha provar um caldo que
cozia num grande panelão, sentou-se e encostou a cabeça à mão, cotovelo sobre a
mesa, mãe, gritou ela, não me morra outra vez, acordou a suar em bica e com uma
ponta de febre, acendeu uma candeia a Nossa Senhora e rezou o terço, nessa
noite deitou-se cedo, a visita à Carmo ficava para outro dia, o seu tinha sido
triste demais.
Capítulo VI
A pedinte
Dormira em demasia, aquele comprimido, a cabeça pesava-lhe, a
lembrança dos sonhos, a vigília da mãe e da antiga patroa, tudo tão lúcido,
como irreal, logo que pudesse mandava rezar uma missa pelas duas, é o que se
deve fazer quando os que partiram nos invadem o sono, sentia-se perturbada, o
corpo quebrado, não tinha ido à cama, uma chamada perdida da Carmo no telemóvel.
Fazia-se tarde, tinha pouco tempo para chegar à avenida da
República, os patrões de férias, não que lhe controlassem a entrada, pouco mais
tinha que fazer do que regar as plantas e aspirar os pelos do gato, um persa,
lindo, mais vaidoso do que os donos, olhava para ela de soslaio, com soberba,
melhor vida que a sua tinha, belo apartamento, aquela sala cheia de luz,
fechada em marquise, não dessas portuguesas de alumínio, mas à inglesa, cheia
de plantas, canapés forrados a damasco, deveria dar gosto estar ali sentada a
disfrutar do conforto, vidros duplos, nem um som da cidade se ouvia, parecia a
estufa fria, há anos que não ia lá, antigamente era bonito, agora não sabia,
talvez no próximo domingo, se estivesse aberta, ainda por cima ameaçava calor,
mas bom, havia tempo para pensar, depois da República tinha que ir para a rua
do Salitre, ao casal alemão reformado, esses sim, muito rigorosos com as horas,
coisa germânica, mas ela também, anos de serviço sempre em precisão, relógio
adiantado 15 minutos, por precaução e para dar tempo ao tormento de encontrar a
chave certa.
Temia não estar nos seus dias, esgotada, não se podia
desleixar, especialmente com os alemães, acarinhavam-na muito, pagavam dez
euros à hora, o seu melhor preço, com os nacionais era mais complicado, sete,
oito no máximo, podia ponderar ter só estrangeiros, mas custar-lhe-ia abandonar
os atuais, era uma mulher fiel, ganhava-lhes estima, esse era um dos seus
problemas, apegava-se demasiado, mesmo aos recentes, por isso mesmo, no sábado,
excecionalmente, daria um salto aos Prazeres, ver como estava a campa do
Sottomayor, ajeitá-la-ia, deixaria um raminho de flores, por vezes a D.
Gertrude, a alemã, pedia-lhe para levar as que estavam nas jarras, que ela
trocava quase todos os dias por outras frescas, dizia que Portugal podia ser um
jardim, este clima, este sol, a primavera, mas comentava sem rodeios que eramos
um povo desleixado, especialmente nas ruas, nos canteiros, nos passeios, nos
parques, em Lisboa nenhuma fonte brotava água, era incrível, com um aqueduto
daquele tamanho, águas livres em prisão, nem uma pinga, tinha razão, também
deveria ser uma visita bonita, aquele canal monumental, mas, Deus, que altitude,
se lhe baixassem as tensões ali por cima da avenida de Ceuta, tão alto, ou se
aparecesse um louco como o Diogo Alves, contam que a criatura tinha empurrado
uns poucos lá de cima, que assassinatos misteriosos os praticados por aquele galego,
tinha lido uma reportagem numa revista, que engraçado, se não lhe falhava a
memória a mulher do homicida era Gertrudes Maria e ele de Santa Gertrudes, lá
na Galiza, tudo Gertrudes hoje, esses artigos jornalísticos eram perigosos,
algum tresloucado lia e dava-lhe para imitar a bandidagem, tinha que se ter
muito cuidado, era como com os incendiários, por ela não passavam imagens dos
fogos na televisão, só notícias na rádio.
Saiu destes pensamentos quando viu o autocarro partir do
Campo Pequeno para o Largo do Rato, Quinita, valha-te Deus, perdeste-o, disse
em voz alta, uns jovens riram-se, ouviu qualquer coisa sobre uma velha e um uber, que diabo seria isso, ah, deveria
ser o metro, em estrangeiro! O gato! Esquecera-se de mudar a areia do xixi, o
mal que ficaria a cheirar, o que pensariam os patrões, voltou para trás, o
animal virou-lhe o focinho e afiou as garras num varão peludo só dele, parecia
rir-se, ela arrepiou-se.
Mandou parar um táxi, mais esta despesa, fosse eu nas
limpezas como sou de cabeça e já não tinha trabalho, disse para o taxista, olhe
que o 38 parou, saiu gente, entrou, eu ali especada perto da paragem, o autocarro
a abalar, eu metida cá com as minhas ralações, logo com estes clientes que são de
fora, agente ainda tem que ter mais cuidado, calculo que no táxi seja igual, e
entendê-los … estes até têm interesse pela nossa língua, já cá estão há uns
anos, pensavam ir para o Algarve, mas ficaram-se por Lisboa, um apartamento num
prédio muito bonito ali na rua do Salitre, todo restaurado, o melhor é
deixar-me mesmo à porta, são alemães, dizem as minhas colegas que os franceses
são mais difíceis, então para falar, julgam que toda a gente os entende, eu
nadinha, franceses não sirvo, não sabemos o dia de amanhã, mas enquanto puder
evito, também não posso andar nisto para sempre, a idade vai pesando, sete euros,
ai o preço a que está a bandeirada, uma hora das minhas, tenha lá paciência,
gorjeta não posso, do recibo não preciso, sempre poupa no fisco, resto de bom
dia.
Os patrões não estavam. Um post it no frigorífico “golf Sintra flores você :)”.
Arrumou tudo como se fosse um robot.
Saiu do prédio com a cabeça a abanar, dizia que não, consigo
própria, assim era complicado, dispersar-se tanto, não ter mão nos pensamentos,
nem a rezar, só a experiencia lhe garantia que não falhava, deveria ser o tal
empírico, era automática, é verdade que em algumas coisas tinha que matutar,
aquilo dos azulejos, do pladur, do olival, decisões a tomar, mas no mais soava-lhe
a demência, como seria com as outras pessoas, perder-se-iam assim a criar
assuntos? Decerto não, apenas coisas concretas, a vida dos filhos e dos netos,
o que preparar para a janta, a meteorologia, o enredo da telenovela, o dia a
dia, vá, não como ela, que se ocupava de fantasias e defuntos, estava rodeada
de mortos, até a dormir, tinha que parar com as quintas-feiras, iria clarificar
a questão do Eduardo Sottomayor, que lhe não saia da cabeça, um defunto sem
acompanhamento, uns olhos verdes que não a abandonavam, e parar com o serviço
em cemitérios, sim, vendo bem, no fim, quem lhe agradeceria? Se calhar só no
outro mundo, se existisse, existia, as almas eram estrelinhas imóveis no
firmamento, aprisionadas, claro, fez-se-lhe luz, era isso o purgatório … não era
descabido, os padres não tinham percebido, teria de contar isto a alguém, a um
doutor da igreja, a um cónego, por isso o universo era infinito, os espíritos todos
em espera por esse espaço fora, sempre a crescer. E as cadentes? Deveria ser
quando lhes davam ordem de ir para cima ou para baixo.
E se acabasse o mundo um dia, conforme as profecias, não
havendo mais espíritos para acomodar? Bom, nesse caso acabava-se tudo, a não
ser que houvesse outros como nós, noutros planetas, como dizia o Seixas, aí o
universo manter-se-ia infinito … que confusão lhe fazia tudo isto … nem na
terra, nem no céu, na lua, era onde andava, podia ser loucura, o início dela, tinha
que ser capaz de parar com as quintas-feiras, começaria por aí, passava a fazer
horas só a gente viva, ao invés de gente morta, aquela embaixada na Lapa andava
a recrutar, Bulgária, Roménia, Hungria, uns desses, comunistas, pelo menos dantes
eram, já não sabia, havia uns países que no seu tempo eram, depois já não, agora
pareciam meio fascistas, mas estavam na Europa, que confusão lhe fazia, e os
russos e os da América deixavam, antigamente não era assim, quer dizer, era,
mas os americanos e os soviéticos é que diziam quem era o quê, hoje em dia andava
tudo à balda, se pagassem dez euros à hora, nove que fosse, optaria por comprar
azulejos, de boa qualidade, tinha que criar algum conforto para quando se
aposentasse, nesse assunto sim, teria de se concentrar, perder umas horas na
fila da Segurança Social, da próxima quinta-feira não passaria, bem tinha feito
a Carmo que antecipara a reforma, perdera algum dinheiro, mas já estava descansada,
aquilo nos Correios também andava num desgoverno, já não se percebia se era público
ou privado, tinha que lhe perguntar, se fosse privado era uma chatice, oxalá
não fechassem o posto de Baleizão, o primo ainda não lhe tinha respondido, já
lá ia mais de um mês que a carta seguira. Quem enterraria os alemães? Filhos
nunca tinha visto, nem deles ouvira falar …
Deu um salto para trás, parou, deixou cair as flores da D.
Gertrude e a carteira, as chaves todas espalhadas pelo alcatrão, o condutor
lívido, uma carrinha de mudanças, os móveis espalhados pela avenida da Liberdade,
que fazia ela ali? Quase fora atropelada …
Ainda com o coração aos saltos, enquanto apanhava os
pertences do chão, pensou, isso das estrelas não estava conforme com a doutrina
da igreja, Cristo voltaria para julgar vivos e mortos, isso mesmo, vivos e
mortos, não astros brilhantes, cadentes, cadente andava ela e safara-se por um
triz de se apresentar ao juízo final antes do tempo, tinha que ocupar a mente,
bordar, fazer palavras cruzadas, diziam que retardava doenças cerebrais,
trabalhar mais, ganhar mais dinheiro, seria cobiça, pouco católico, não, punha o
pladur, ao invés dos azulejos, olhos que não vêm, coração que não sente, o que
ficasse escondido nas paredes ficava, em pecado mortal é que não incorria, já
bastava padecer um bocadinho de gula, bolos, biscoitos, bolachas, brioches, mas
se calhar era o corpo que lhe pedia açúcar, desgastava-se demais em físico e em
psíquico, ou uma ponta de diabetes, mas outros sintomas não tinha, diz que quem
padecia desse mal sofria de grandes sedes, não era o seu caso, ou tardava em
sarar as feridas, também não, viu uma farmácia e resolveu picar os dedos, ,
medir a tenção, está fina, disse-lhe a ajudanta, não sendo doutora parecia
saber o que fazia, mesmo que não soubesse, resultados são resultados, ou acusa
ou não acusa, é verdade que lhe tinha mentido, disse que estava em jejum, minha
senhora, a esta hora, olhe que isso ainda lhe faz mal, mas se comida estava sã,
em jejum ainda estaria melhor, saiu dali mais satisfeita, decidiu ir a pé para
casa, pelo menos uma parte, até lhe faria bem andar, aos anos que não descia a
Rua de São José, às Portas de Santo Antão.
Carmo!!! Gritou. Não o Largo, a vizinha.
Que fazes tu aqui, em frente à casa do Alentejo, toda
andrajosa, sentada no chão? Explica-me o que é isto mulher …
A Carmo por terra, em cima de uma manta coberta de nódoas, ao
lado um papelão grande com um escrito “sou romena, preciso de dinheiro para
ajudar família”, usava uma saia aciganada, uma camisola de alças largueirona, suja,
sem soutien, as mamas descaídas sobre a barriga, carrapito, mas com fios de
cabelo soltos à volta, na nuca e na testa, esvoaçavam os que não estavam colados
com o suor, desgrenhada, os filhos da Adelaide saltitavam ao redor, tinha
reparado agora, saltou-lhe um ai as crianças, que fazem aqui, cada um tinha um
copo de refrigerante onde chocalhavam sem vigor umas moedas, poucas, cêntimos.
A vizinha, quase com naturalidade, perguntou-lhe o que fazia
naquela rua, não era o seu trajeto, tanto quanto se lembrasse dos bairros onde
tinha patroas, das historietas que ela lhe comentava com as chaves, na baixa
não servia.
Todavia, faltava-lhe o normal sorriso, quase perto do riso
que andava sempre com ela, namorava com as gargalhadas, por tudo e por nada,
hoje estava séria, quase chateada, isso pergunto eu, Maria do Carmo, Nossa
Senhora do Carmo, com o menino, tu com dois, mas sem ares de Santa, que
espetáculo é este, a minha alma está parva, contigo espojada no chão, não te
conhecesse e diria que eras mesmo romena, o teu estado miserável, os gaiatos,
olha o Ruben, parece ciganito, aquele cabelo muito russo e empeçado, as feições
deles já se prestam a isso, mesmo lavadas, levanta-te dai, vamos para casa e
explicas-me tudo pelo caminho, aqui não ficas ou eu sento-me ao teu lado,
dou-te cabo deste negócio ou lá o que diabo é que tu andas a fazer, a pedir, a
minha alma está parva!!
A Carmo ripostou que não, que tinha que fazer o dia, que ela
sentar-se ali no chão ainda menos, arranjada como estava, mulher a dias vestida
à patroa, estragava-lha a renda da tarde, ainda nem cinquenta euros tinha
feito, as moedas nos copos eram só chamariz, quando caia acima de 20 cêntimos
era tudo tirado, escondido na algibeira dela, a Joaquina surpreendida, fazes
quase tanto como eu, desvia-te agora, disse-lhe ela, vem ai um casal com ar de estrangeiro
do bom, são os que dão mais, sobretudo com filhos, manda lá uma moeda para o
copito do Ivan, o Ruben não sei onde se meteu, esse rapaz é de fugir, volta e
meia desaparece-me, despacha-te, atira lá cinquenta cêntimos, ela fê-lo, o
casal também, dois euros, viste, obrigado meus senhores, sayonara, auf
wiedersehen, Lisboa, não sejas francesa, com toda a certeza, não vais ser
feliz, lisboa vaidosa alfacinha ….. o Ruben voltava e cantava o fado.
Mas se são romenos … vocês não estão bons da cabeça!
Porra, enganei-me na placa, essa era a de ontem, a que levo
para a porta das Amoreiras, mas Joaquina, minha Santa, agora desampara-me a
loja, assim não consigo mendigar em condições, vai para casa e falamos logo à
noite, eu vou, respondeu-lhe, preparo umas ervilhas com ovos, leva os gaiatos a
comer, até estão com olheiras, um ar esfomeado, deveriam estar com a mãe,
vai-te, vai-te, agente come contigo sim, a mãe não pode, está a dar as últimas,
vai-te Joaquina, tenho muito para te contar, largou-se num pranto, os
transeuntes a olhar, a Joaquina foi-se afastando, os miúdos acercaram-se da
Carmo, sentaram-se um de cada lado, a chorar também, baba e ranho, pareceu-lhe
encenado, ou não, ao longe viu os turistas a deitar mais moedas e um empregado
de restaurante, calças pretas, camisa muito branca, a chegar com umas carcaças,
a minha alma está parva, continuava a dizer, enquanto se afastava abanando a
cabeça, foi maior este susto do que o quase atropelamento, podia ter ficado
ali, estendida, na avenida da Liberdade, e dou com a Carmo, estendida nas
Portas de Santo Antão, há dias em que é melhor não sair de casa, quando se
pensa que se sabe tudo sobre uma pessoa, a minha Carmo, mais do que família,
mais do que irmãs, a vida parecia-lhe tão arrumada, a reforma deveria dar-lhe
para as despesas, a renda, a água, a luz, condomínio não tinham, o comer, a tv
cabo, ou lá o que é, o telemóvel, as idas à Caparica, o passe, uma excursão ou
outra, umas roupitas novas, sapatos, entrega-se muito aos sapatos, aos caracolitos
e às cervejas, se calhar não chega, estica-se um bocadinho nestes luxos, mas
podia cortar nalguns, para quê tanta tagarelice ao telefone, para quê tanto
canal, tanto programa estrangeiro, os portugueses chegam bem, passam romances
tão bonitos, no cabelo o mesmo, aquelas tintas são caras e não lhe assentam, a
verdade é que não sabemos nada de ninguém, nem de nós, até metade do que
sabemos de nós é mentira, sonhos nossos que contamos aos outros, vidas que
gostaríamos de ter tido, famílias fantasiosas, coloridos que damos à história
da nossa vida, que vamos criando para os outros e para nós próprios, episódios
que alindamos, olha aquela ida ao Gerês, o calor que fazia, o que foi de vomitar
naquelas curvas, nunca mais, ainda por cima dispendiosa, a comida fraca, toda boca
fora, um desastre de passeio, mas o que tinha ficado para memória era uma
bonita fotografia no São Bento, umas montanhas muito verdes, um céu muito azul,
nada de enjoos ou temperaturas altas, 35 graus que pareciam 27, tudo perfeito,
como sempre, nos retratos, Deus a livrasse, nunca mais, táxi, táxi, devo estar
doida, ando mais de carro de praça num dia do que no ano inteiro, mas depois destes
sustos quem galga a Almirante Reis nesta pilha de nervos, ainda tenho que
passar no supermercado, ervilhas há lá em casa, congeladas, ovos também, falta
aviar uns chouriços e um pedaço de toucinho, senão fica-me deslavado, carnes
não posso, faço mais aguado, corta-se umas fatias de pão e ensopa-se, como se
fosse borrego, tenho é que encher a barriga àquela gente. Ou me explicam o que era
aquilo ou rebento …
Capítulo VII
Eduardo
A mãe entrou na penumbra da sala de novo, da primeira vez
tirou o som à televisão, Eduardo focou-se nas legendas, corriam rápido, mas
conseguia ler tudo, era o melhor aluno da turma na disciplina de português, e nas
outras, embora disso pouco quisessem saber lá em casa, o único estímulo vinha
da criada Rosa, que fazia de sua encarregada de educação, embora pouco letrada,
vamos lá menino, hora dos deveres, recite uma tabuadazinha, pode ser a dois
oito, essa para mim é a pior, que lindos desenhos, tristes, mas bonitos,
aprume-se, a mamã gosta muito que seja um estudante de primeira, o papá também,
quando cá fica por algum tempo diz-me sempre que está muito orgulhoso de si,
pergunta como estão a correr os testes, coitado, ter que se dividir entre este
casarão e o outro lá do Minho, para cuidar dos seus avozinhos, o que o senhor
ministro e a mulher têm durado, passaram pelo 25 de abril, não foi fácil, quase
iam presos, quase que tiveram de fugir para o Brasil, pena a sua avó daqui, Deus
a tenha, não durou muito depois de ver o neto, era uma grande mulher, austera,
mas boa, lá no fundo, de si gostava muito, o que partiu deste mundo ralada com
o seu futuro, ainda nos disse, a mim e à Joaquina, olhem pela criança, não a
abandonem, sabem que vai ser complicado, e tem sido, enfim, cá andamos os dois,
meu lindo, que a Quinita teve que ir à vida dela, por onde andará, coitada.
Ele ouvia com atenção estas conversas da empregada, de quando
a quando, sem alcançar tudo o que se lhe dizia, mas agora olhava para a mãe, a
mão direita a dedilhar, no normal gesto de quem quer apanhar alguma coisa, ou
nada, agarrar o vácuo, desta feita ela desligou o televisor, de forma brusca,
dirigiu-lhe um olhar longínquo, frio, sai, disse, ele ficou, ela sentou-se no
sofá, encolheu as pernas, abraçou-as e começou a balancear o corpo, como fazia habitualmente,
ficaria horas assim, até que o físico cedesse, até que a Rosa, única que fazia
algo dela, a viesse buscar, ajudar a subir a imponente escadaria, metê-la na
cama, encharca-la em comprimidos, para que passasse umas horas a dormir,
imóvel, relaxasse os músculos, desligasse a mente, se possível como se não
existisse, fingir que aquela coisa magra que por vezes aparecia no rés-do-chão era
um equívoco, uma não pessoa, um espetro, uma não mãe.
Ele sabia que a Rosa a retinha, na medida do possível, no
primeiro piso para o proteger, sabia o que sucedia quando a mãe não levava a
medicação à risca, ficava num terrível estado de excitação, ele era um alvo
fácil, ou o alvo, a empregada reforçava o tratamento, por vezes, suspeitava,
assaltavam-no outras dúvidas, não percebia a sua família, diferente da dos
outros meninos, o pai dizia-lhe que a mãe sofrera muito no parto, ficara assim,
talvez a culpa fosse sua, isso não lhe dizia o pai, imaginava ele, embora não
soubesse muito bem o que era um parto, daí ela não o olhar a direito, dias de
sossego esses, porque quando o fazia era para seu tormento, como acontecia
naquela manhã, a mãe saiu do sofá e tirou-lhe das mãos o livro, atirou-o à
parede, espedaçou-o, a capa dura para um lado e as folhas soltas pelo chão, para
outro, ele não tinha marcado aquela em que estava, sai, ele não saiu, não sabia
porquê, talvez tivesse as pernas paralisadas de terror, a Rosa às compras, o
pai ausente como sempre, a mãe distraiu-se com uma abelha que tinha entrado na
sala, entreteve-se com uma revista a tentar matá-la, foi picada, tropeçou,
bateu com o joelho numa cadeira, a culpa é tua, bastardo de merda, ele não
percebeu, mas achou melhor sair, não gostava quando ela dizia coisas feias,
normalmente era mau sinal, fez um esforço enorme para andar, não te preocupes,
não te faço mal, desculpa, vem cá à mãe, ele foi, inocente, já sem tempo para
desprender os seus cabelos da mão esquerda dela, que funcionava bem demais, um
punhado de caracóis arrancado até à raiz, o sangue começou a escorrer-lhe pela
testa, já confundido com o arranhão profundo que entretanto lhe fizera numa das
faces, seguiu-se um estalo, com as costas da mão, para lhe cravar o anel de
brasão enorme que usava, riu-se, histérica, agora já tens a linhagem estampada
no rosto, sentiu uma dor enorme, as lágrimas invadiram-lhe os olhos, cegando-o,
caiu ao tentar fugir, protegeu a cabeça com os braços, deixando espaço ao corpo
para ser pontapeado, os bicos dos sapatos dela entre as suas costelas, não
parava, ele não se mexia, senão pelos solavancos das pancadas, sentia dó de si
próprio, por ter ali a prova de que não era amado por ninguém, ouviu o grito da
Rosa ao entrar na sala, que faz ao menino, mata-o, ouviu os soluços de louca da
mãe, tira-mo daqui, salva-o de mim, a abelha, a abelha, que abelha, pare, por
Deus, tira-me da vista esses olhos verdes, cegam-me ou eu cego-o, lembra-me o
pai, não diga isso menina Amélia, não confunda a criança, ele a sangrar,
confundido, a pensar que o pai não tinha olhos claros, antes umas coisas
pequeninas, escuras, como uma toupeira, era isso que ele era, uma toupeira,
quase invisual, procurara tantas vezes as parecenças do pai consigo e via um
bicho, talvez um rato, mas não, era uma toupeira, afinal, que só espreitava de
quando em vez, que só se orientava por túneis e galerias escuras, compreendia
menos o pai do que a mãe, ela era louca, não precisava de crescer mais para
entender, o pai nem para lhe bater, uma repressão, um carinho, só um brinquedo
novo de cada vez que aparecia, tinha o quarto cheio deles, repetidos, nunca lhe
dera um livro, desconhecia o que ele gostava realmente, dos pequenos romances,
dos cinco, das bandas desenhadas, quase sempre acabavam bem, como os gauleses,
chegava a rir-se sozinho quando via o bardo pendurado, restava-lhe a
biblioteca, enorme, o seu refúgio, encadernações de couro, letras douradas,
grandes obras de escritores estrangeiros que não sabia pronunciar, lia-lhes o
nome em português e cismava que podia estar errado, alguns tinham w e y, tt
seguidos, coisas que por cá não se escreviam, poucas ilustrações, muitas
letras, guerra e paz, ele ainda agora travava as primeiras batalhas, mas
pareciam-lhe grandes para quem tinha nove anos, e dava-lhe dó de si, um sentimento
que não deveria ser normal, pena própria, mas poucos outros conhecia para ter
pena deles, havia uns meninos na escola que pareciam mais pobres, mas riam o
dia todo, corriam uns atrás dos outros, até porrada se davam e acabavam sujos e
abraçados depois das brigas, para quê ter compaixão deles, se ele é que estava
ali numa poça de sangue, talvez devesse escrever ao pai, qual deles, era a
segunda vez que ouvia a conversa de um outro, de olhos verdes, como os dele,
olhos verdes são traição, dizia-lhe a professora, que lhe beliscava as
bochechas quando ia ao quadro, quando fores grande vais ser um mariola, as
miúdas vão-se perder por ti, não te percas tu por elas, rabos de saia acabam
sempre sozinhos, ele queria ser grande, não por causa das meninas, queria ser
grande, mas já velho, dar tempo a que morressem todos os que o rodeavam, ficar
sozinho naquela casa, ter um filho não, podia puxar à mãe ou ao pai, o
toupeira, ser sozinho, sem ninguém, um bocadinho feliz, por inteiro já não
deveria ser possível, nove anos de amargura já ninguém lhe tirava, embora ele
não conseguisse recuar em memória mais do que cinco, à sua primeira memória, a
mãe a dançar no jardim com uma mangueira, verão como agora, mas mais calor, a
água a colar-se ao corpo esquelético, reparou que ela não trazia nada por
baixo, assustou-se com o vulto negro que ela tinha entre as pernas, desviou o
olhar, passava as mãos num alecrim que emanava um odor tão doce que as abelhas
não o deixavam, as abelhas, a abelha, sentiu um jorro de água gelada sobre as
costas, a seguir a ponta da mangueira a fustigá-lo, uma, duas, mais vezes, ele a
chorar no colo da Rosa, depois, a mãe encostou-se ao sofá, hoje, não
antigamente, que fiz eu, outra vez, manda-o para o Minho, para o pai, que pai,
pensou Rosa, não o querem lá, a empregada ajoelhou-se junto dele, meu menino,
chore se quiser, mas ele não queria, doí-lhe, com certeza, chore onde lhe doer
mais, não vá ter alguma coisa partida, mas ele achava que só o coração, os
caracóis estavam tão bonitos, quase loiros, deixe, eles crescem outra vez,
antes das aulas já tem cabelinho novo, ninguém irá reparar, o que era
indiferente, pois pouco reparavam nele, as costelas, algum osso partido com
certeza, chama-se o médico se não lhe passar, pomos uma pomada para as nódoas
negras, ninguém dará por elas, quem haveria de o fazer, pensou ele, não saia dali,
vou deitar a sua mãezinha, está muito perturbada, depois trato de si, mas deixe-se
estar, parece-me que tanto sangue é do arranhão, apanhou alguma veia, empurre
com este lenço, faça força para ver se estanca, este tapete de arraiolos, logo
se vê, é o menos, o melhor é deixar secar e depois raspar, ou levo à
lavandaria, custa uma fortuna, agarrou na mãe, que tremia como varas verdes,
tirou-a da sala, ele não se mexeu, pôs-se a observar uma formiga que caminhava
em direção ao sangue, devia ser cega como o pai, era daquelas formigas grandes,
trapalhona, patas alçadas, começaram a ficar empapadas, debatia-se na poça, não
recuava, burra, como se se quisesse afogar, ele pôs-lhe o dedo em cima e
esmigalhou-a até não ser nada, nem pernas, nem tronco, nem cabeça, nem antenas,
um ponto negro na carpete, teve finalmente vontade de chorar, nunca tinha feito
mal a nenhum bicho, jurou que não voltaria a fazer, chorou mesmo, em soluços
disse o poema que tinha recitado na festa da escola, no final do ano, chacota
geral dos colegas, é urgente o amor, é
urgente um barco no mar, é urgente
destruir certas palavras, ódio, solidão e crueldade, alguns lamentos, muitas
espadas, em cima de um palco, braço direito erguido a ondular ao ritmo da
rima, a turma a rir, a professora séria, mas sem mandar calar os colegas,
ninguém o protegia, só a Rosa, que regressava com a caixa de primeiros
socorros, disse-lhe, não há mal que sempre dure Eduardo e este, mais umas
horas, acabou, ele sentiu um alívio, no corpo, à medida que ela lhe passava
suavemente com a água oxigenada e a pomada, mas sobretudo na alma, não sabia
ainda bem porquê, mas há frases que nos apaziguam, ditas pelas pessoas que
gostam de nós, não há mal que sempre dure, tudo vai acabar bem, a esperança é a
última a morrer, Deus escreve direito por linhas tortas, cá se fazem, cá se
pagam, poderia ela ter dito, mas não, era uma pessoa boa, ele também, até ter
morto a formiga.
A Rosa tinha decidido que preferiria ir ao enterro da menina
Maria Amélia, deficiente e cruel, do que ao funeral de uma criança, indefesa,
que andava aos caídos.
Tinha conhecido outros atrasados, não faziam mal a uma mosca,
quanto mais aos próprios filhos, quando os tinham. Esta mulher, não. Se calhar,
gente insana não deveria parir.
Tinha decidido, enquanto empurrava a patroa escadaria acima,
em direção ao quarto que não via a luz do dia há anos, nem para arejar, que a
louca também não mais vislumbraria a cor do céu, nem o verde das pupilas do
menino, cegá-lo, Santíssima Trindade, sim, tinha que invocar os três, Pai,
Filho e Espírito Santo, para travassem aquela mãe desnaturada, cega de fúria,
capaz de esventrar os olhos da criança.
Beliscou a Amélia com tanta violência, enquanto a empurrava, pela
revolta que carregava, que se estranhou, porque se tinha por bondosa,
ficaram-lhe os dedos a doer, a demente, nem um ui, só ossos, alheia à dor e ao
amor, alheia a tudo. Que mãe faria aquilo? Nem aos animais.
Tinha decidido, naquele segundo, enquanto lhe empurrava os
ossos, enquanto espenicava um corpo meio morto, como um pronúncio, que iria acabar
com aquela violência, os soporíferos que tinham em casa deveriam ser mais do
que suficientes para fazer com que a alma da Amélia, se é que a tinha, talvez
os deficientes não a tivessem, pelo menos igual à dos normais, de almas tontas
nunca tinha ouvido falar, abandonasse de vez a condição de viva.
Deitou-a, desceu à cozinha, espreitou o menino, estava na
mesma posição, não chorava, nem gemia, bom sinal, ainda assim chamou por ele,
Eduardo, já cá venho, estou só orientar a mãezinha, ele que sim, um sim
esperto, o que a deixou mais descansada, carregue bem na ferida, para ver se
estanca, desfez os comprimidos no almofariz, uns quarenta, despejou tudo no
termo de chá gelado que lhe costumava por à cabeceira, com duas ou três gotas
de whisky, como ela gostava, subiu, beba, beba, menina Amélia, este é
tranquilizante, hoje está muito enervada, vá bebericando tudo até à última
gota, até ao fim, ao fim, que Deus me perdoe, desceu, foi ao escritório, numa
folha escreveu com letras de forma “ADEUS JÀ não AUGUENTO MAIS”, subiu, ela
dormitava, pousou a folha sobre a escrivaninha do quarto, fechou a porta à
chave, por dentro, ela estrebuchou um pouco, abriu os cortinados, ela
estrebuchou muito, com a voz arrastada disse fecha essa merda, ela correu-os,
abriu as portadas, abriu a janela guilhotina, puxou as portadas, pôs o corpo de
fora, deixou escorregar a guilhotina, um pé sobre uma saliência da parede
exterior, o outro, sobre o tronco de uma trepadeira centenária, atirou-se para
o relvado, suava, oxalá se fine, agora é esperar, o marido não deve aparecer,
há-de ligar daqui a um dia ou dois, antes disso ligo eu, por causa da tragédia,
oxalá corra tudo bem, agora vou tratar daquele pobre de Cristo, levantou-se,
sacudiu umas quantas folhas, compôs o cabelo e o avental, tinha-o rasgado, é o
menos, pior o arraiolos.
Vou-lhe preparar um banho morno, Eduardo, hoje dorme no
quarto cá de baixo, se precisar de alguma coisa chama e eu acudo mais depressa,
não tenho que galgar as escadas, posso até não ouvir, durmo pouco, mas o que
durmo, nem trovões me levantam, uma boa noite de sono e fica quase bom, bom
logo não ficará, dorido, pelo menos, um pouco negro, amanhã se verá, se acordar
capaz vamos à praia de Carcavelos, passa o verão metido em casa, não pode ser,
melhor não, o mar cura, mas faz arder as feridas, vamos ao jardim zoológico, se
calhar nunca lá foi, eu também não, calcule, vamos dar uma moeda ao elefante,
já deve ter ouvido falar, eu não sei bem como entreter uma criança, as crianças
nesta casa morriam, não davam tempo à vida, nem agente a aprender a cuidar delas,
menos a sua mãe, foi a que durou mais, que dura, quero dizer, e a Quinita,
filha de uma criada que por aqui andou muitos anos, se calhar não se lembra
dela, era bebé quando ela partiu, um dia morreu, não a Quinita, mas a mãe, não
a sua, a dela, perdoe que hoje troco tudo, espero não ter trocado mais nada, se
desfiz aspirinas, já cá volto, vou ali à cozinha, já cá estou, está tudo bem,
afinal, não me enganei na medicação, dizia-lhe há pouco que a mulher morreu,
ali na mesa da cozinha, que nem um passarinho, com a cabeça encostada à mão, o
cotovelo em cima da mesa, parecia que dormia, a filha ao lado, pobrezinha,
pensei que ia ficar traumatizada, mas aguentou-se, a sua avó apegou-se a ela, à
sua maneira, até lhe deixou uma casita na Ajuda, a mim alguns contos de reis,
era mais madura do que aquilo que os anos lhe deviam, a Joaquina, ficou aqui um
ano ou dois depois da morte da Srª D. Isabel, era ela quem cuidava de si,
tinha-lhe um carinho, como se fosse sua mãe, uma adolescente ainda, um dia o
paizinho dispensou-a, ela abalou com uma grande tristeza, nunca mais cá voltou,
a última coisa que disse foi para eu não me descuidar consigo e com a lixivia,
não havia como ela para esfregar e limpar, de certeza que dava conta deste
tapete todo manchado de sangue, a casa estava sempre num brinco e o menino cheirava
sempre de lavado, punha aquelas almofadinhas de ervas na gaveta com a sua
roupinha, eu pensei que me iam dispensar a mim também, era menos prendada que a
Quinita, não me ajeito a tudo, bem sabe como cozinho, remedeio, mas não apuro,
não é falta de esmero, sou assim, mais parada, ainda pensei que um dia ela cá
voltasse, mas partiu com muita mágoa, se calhar foi lá para a terra dela no
Alentejo, não sei bem onde.
Ele também nunca tinha ido ao Zoo, nem a quaisquer outros
passeios da escola, a mãe não o deixava, nem receber ninguém, não que ele
quisesse que o vissem filho de gente estranha, ficavam assim, ambos
confortáveis, anos mais tarde, já homem feito, iria voltar amiúde ao jardim
zoológico, visitar o elefante, dar-lhe uma moeda, recordar a memória de um dos
dias mais felizes da sua vida, o passeio com a Rosa, viu todos os animais que
só conhecia de ilustrações, tudo lhe agradara, menos os macacos, pelos
guinchos, a lembrar-lhe a mãe, os dois encantados com o resto da bicharada, a
criada especialmente com as girafas, que bicho tão exótico, aquele pescoço, e
ria-se, nunca as pensei tão altas, cómicas, mas olhe aquela com um ar muito
sério, a roer a erva, não gostava de ser criadora disto, imagine um bicho
destes lá no jardim, a espreitar para os quartos do primeiro piso, não é que
fizesse diferença, sempre tudo trancado, pior que uma jaula com animais
selvagens, os leões … aquilo é que é um animal, viu, que medo, acerquei-me de
uma senhora que não parava de nos olhar, disse que tinha sido uma queda, virou-me
as costas e falou de hienas ou assim, estive quase para lhe dizer que tínhamos
que ir embora, mas quando vi os seus olhinhos … ao menos nas jaulas corre ar,
naquela casa não, um dia, quando for sua, lembre-se do que eu lhe digo,
areje-a, uma casa é como um ser vivo, tem os seus cheiros, tem a sua beleza ou
feieza, a sua personalidade, precisa de sol, precisa do escuro e do fresco da
noite para tirar o calor dos ossos, das paredes, precisa que a brisa a
percorra, precisa de vida, precisa de deixar entrar histórias novas e deixar
sair as antigas.
Um dia ele não se lembraria do que a Rosa lhe tinha dito à
sombra de uma acácia no zoo de Lisboa, esquecer-se-ia de deixar entrar a vida
em casa e nele.
O pai esperava-os na sala, fumava um cigarro, não era o primeiro,
pelo cinzeiro, tomava uma qualquer bebida num bonito copo de cristal, que
brilhava conforme ele o fazia dançar para derreter o gelo.
Rosa, o menino que vá para a copa lanchar.
Mas acabou de comer um gelado, não o fazia em Lisboa Sr. Dr.,
ainda há uma semana abalou, costuma demorar-se mais, a viagem é tão comprida.
Tive que voltar, a mãezinha morreu.
A Rosa enrijeceu.
Um avc, um ápice, com aquela idade não resistiu.
A Rosa ficou mais calma.
Vim a Lisboa tratar da papelada, o enterro já foi, relações
de bens, repartição de finanças e essas coisas, sabe, uma chatice …
Os meus sentimentos Sr. Dr., podia ter dito alguma coisa, um
telefonema para a sua mulher, pelo menos mandava-se uma coroa de flores,
ligava-se lá para Ponte de Lima, para a funerária, um cartão do netinho.
Meu Deus, que importaria à minha mulher a minha mãe, punha-se
aos berros, descarregava no miúdo.
É verdade Sr. Dr., melhor assim, mas se era dessa notícia que
queria resguardar o menino Eduardo, ainda aqui está ao nosso lado, já ouviu,
assim de rompante.
Não dei por ele … vai para a copa rapaz, tenho um assunto
para tratar com a Rosa, temos uma coisa para falar só os dois, conversas de
adultos.
Algo que eu tenha feito? Não devia ter levado o menino a
passear, mas olhe que ele passa o verão aqui fechado, é doentio, fomos ao
jardim zoológico, achei que não se importava, podia ter-lhe ligado antes,
realmente foi um descuido meu, divertimo-nos tanto, andámos de gaivota e tudo,
paguei eu Dr., do meu bolso, mas por falar nisso, se me pudesse regularizar o
salário, é que já lá vão dois meses, poupanças não tenho muitas, se eu pudesse
tirava oito dias de férias, também ando tão precisada, mas tem que ficar alguém
aqui em casa, eu percebo, olhe que até poderia levar o menino, fazia-lhe bem uns
dias em casa da minha irmã, lá na Malveira da Serra, outros ares, ele está tão
branquinho, agora um pouco negro, não reparou?
Não! Pode ser, Rosa, podem ir, mas primeiro temos que
resolver um problema que para aqui apareceu, Eduardo, vai lá para a copa. Estás
arroxeado, sim!
Ele foi, mas quedou-se pelo meio do caminho, mudo, imóvel,
para escutar a conversa entre ambos.
A mãe está morta!
Pois já mo disse Sr. Dr., era uma senhora daquelas à antiga,
tão elegante, Deus foi generoso com ela, tanta idade, um neto tão bonito.
Não diga disparates Rosa, olhe a minha figura, escuro,
baixinho, olhos miudinhos, às vezes julgo parecer uma toupeira, todos sabem que
o filho não é meu, nem a minha mãe o tinha como neto, conhecerá melhor a
história do que eu próprio, falava-se do chauffeur,
um rapagão de olhos verdes, não sei, nunca aprofundei, casamentos de
conveniência são assim mesmo, convenientes para ambas as partes, para mim tem
sido, há sempre uns rumores, mas não passa disso, são suspeitas que devem ficar
entre as paredes desta casa, a minha sogra levou o segredo para a tumba, a Rosa
é como um túmulo, eu …, enfim, sou parte contratual, digamos assim, a Joaquina,
ou lá como se chamava aquela criadita, desapareceu-nos da vista, com ela
eventuais inconfidências, dizem que a ideia do casamento pode ter partido dessa
empregada, ao fim destes anos não nos deve aparecer à porta a reclamar mais uma
casinha na Ajuda, já nem as temos.
A Quinita era um poço e a casa foi-lhe doada, por ela ponho
eu as mãos no fogo.
Está morta, Rosa!
A Quinita, como sabe disso o Sr. Dr.?
A Amélia … a Amélia está lá em cima, já não louca, mas
imóvel, finalmente, gelada, direita, fria, inofensiva, defunta.
Mas como? Ainda ontem estava viva, em demasia, veja o que fez
ao menino! Levei-a lá para cima, deixei-a só, trancou-se, hoje não me
respondeu, o habitual, não estranhei, fomos para o zoo, nossa Senhora … Que
Deus a receba!
Não sei se recebe … o miúdo!
A culpa foi minha, ontem fui aviar mercearias sem assegurar
que a Senhora estava sossegada no quarto e com as doses certas, a culpa foi
minha …
A culpa era dela, Rosa, tinha de doida, o que tinha de ruim. Estranhei
quando cheguei e não vos vi, andei cá por baixo, pousei uma avioneta muito
bonita que comprei no Porto para o Eduardo, subi, chamei, nada, bati à porta do
quarto, nada, nem um grito, um gemido, um vai-te embora, cabrão, nada, insisti
três vezes, nada, tentei abrir a porta, nada, trancada por dentro, empurrei-a,
nada, eu esta fraca figura, a porta quase maciça, consegui à terceira tentativa,
não sei onde fui buscar a força, parecia sobrenatural, juro-lhe, Rosa, aqui que
ninguém nos ouve, o meu medo era que estivesse só desmaiada, foi com alívio
quando a chamei de novo e nada, lhe toquei e nada, gelada, tudo tem um fim,
este tardava, os médicos sempre disseram que não iria viver muito, eu tinha
pudor em perguntar o que era muito, porque pedia a Deus, sem crer nele, que o
muito fosse já, agora, ontem, para meu alívio, para alívio principalmente do gaiato,
não há avionetas que compensem a vida desse infeliz, eu estima tenho-lhe, mas
meu filho não é, está a perceber, não é verdade?
A Rosa ruborizou, forçou umas lágrimas que teimavam em não
sair, mas pensou no rapaz, o marido que a chorasse, que se ocupasse agora da infeliz
morta, se não tivesse morrido o mais certo era entrevar, aqueles ossos, tão
fraquinhos, nem sabe onde ia ela buscar força para fazer o que fazia ao
Eduardo, à ruindade, dizem algumas pessoas, ela não sabia, não se julgava má,
preferia ir buscar a força à fé, embora não fosse de grandes beatices, mas
tinha que ponderar confessar-se e rezar para que o padre lhe guardasse segredo,
era sua obrigação fazê-lo, ademais quando o ato tinha sido por piedade, para
evitar uma morte mais triste, mas quem era ela para decidir quem vive ou morre,
uma criada de servir que toma as decisões por uma família, substituindo-se ao
divino, não, o padre poderia entender, mas perdoar em nome de Deus não, que
forte penitência lhe passaria, não haveria de ser só credos e padres nossos,
não sabia há quantos anos não se confessava, e para dizer o quê, nem
premeditara, tinha sido em legítima defesa antecipada, de um inocente, que
merecia viver mais do que a mãe, louca e cruel, ela sim, mesmo tola tinha muito
que explicar lá por cima.
Estava tão fraquinha, disse, com um soluço pelo meio.
Tomou uma caixa inteira de comprimidos Rosa.
Matou-se …
É o que parece. Deixei-a lá em cima, como se estivesse já num
jazigo, mas não está, tenho que tratar de tudo, pelo meio a missa de sétimo dia
da mãezinha, voltei a fumar, já vou no quinto cigarro, eu cá em baixo, ela lá
em cima, morta, por enterrar, não sei se sou capaz de resolver tudo, ainda bem
que a temos Rosa.
Eu, Dr., já fiz a parte que me competia.
Não Rosa, tem que ligar ao médico para vir cá atestar o
óbito, tem que ligar à funerária, para o enterro, vai para os Prazeres, junto à
mãe, na outra campa da minha família não a quero, já lá andam tresloucados de
várias gerações, Sottomayores malucos também não faltaram …
Sempre julguei que o Sr. Dr. se chamava Lacerda.
Chamo-me as duas coisas, o rapaz é que ficou só Sottomayor,
porque o meu pai não lhe quis dar o Lacerda, que era dele, só o dava por via
sanguínea, a Rosa percebe … cuide de ligar para o médico, para a agência e para
a polícia, por favor.
Para a polícia?
O Eduardo estremeceu, dirigiu-se para a cozinha, a polícia,
tinha perdido num só dia a mãe, que era dele, o pai, que não era, uma avó, que
também não, isso faria dele um órfão, ou quase, talvez ainda tivesse um pai,
motorista, não sabia, não sabia se queria saber, cortou uma fatia de pão de ló,
barrou com compota em excesso por cima, pensou que talvez pudesse passar uma
semana de férias na Malveira, não sabia onde ficava isso, no mapa de Portugal
não via onde, mas numa serra era, Malveira da Serra, se calhar na Estrela,
nunca tinha visto neve, mas no verão talvez não houvesse, mas deveria ser bonito
na mesma, não sabia, o mais longe que tinha ido era a Sete Rios, ao Zoo, nem à
quinta dos avós no Minho.
Para quê a polícia, Sr. Dr.?
Para que certifiquem que ela se matou, que era doida varrida,
deficiente, o suficiente para emborcar uma caixa de comprimidos, para por termo
à vida, por maltratar o filho, por falar nele, estás aqui de novo, Eduardo,
olha as migalhas todas pelo chão e esse doce a manchar o tapete, para que não
desconfiem de si ou de mim, a Rosa porque foi a última pessoa a vê-la viva, eu
porque fui o primeiro a encará-la morta, Eduardo, estás todo besuntado, olha
essa boca, olha o tapete, olha, senta-te ai que o pai precisa de falar contigo,
a Rosa vai despachar uns assuntos, tens uma avioneta ali à entrada, acho que já
é a segunda que te trago, ficas com duas, para o caso de se partir alguma.
Senta-se aí, que gostavas que eu te oferecesse?
Livros e um cachorro.
Complicado, dos primeiros não percebo nada e um cão é sempre
uma maçada, mas talvez se arranje, dizes-me depois de que raça, olha, a tua mãe
foi para o céu.
Pode ser rafeiro …
Nem pensar, no mínimo um golden
retriever.
Está bem … pai!
Capítulo VIII
Esmeralda
Esmeralda estranhou o patrão em tamanha azáfama, estupefacta
quando o viu escancarar janelas de par em par, as da rua e as do jardim, é
preciso arejar esta casa, não corre aqui uma brisa desde o século passado,
dizia, era isso o que pensava ela e há muito que tinha desistido de abrir
aquela casa à vida, anos de penumbra e odor a mortos que não tinha conhecido,
só o cheiro, quando subia ao primeiro andar para dar um jeito nos quartos
proibidos, abria a luz, tirava o pó a correr, olhava de soslaio para as camas,
parecia que ainda lá estavam deitadas no leito, a Srª D. Isabel e a menina
Amélia, cada uma no seu, eram os nomes de que lhe tinham falado, pouco, as
colchas direitas, salientes nas cabeceiras, deveriam ser as almofadas, não as
cabeças com um corpo mirrado ou já desfeito, não podia ser, virava-lhes as
costas, saia rápido, embora não fosse de crenças ou de se acagaçar, crescer à
pressa em bairros para lá da Amadora não dava tempo a isso, só a frio, calor,
trabalho, alguma fome, sonhar com Lisboa, exausta de servir gente cansada dos
subúrbios, mulheres que chegavam à sexta-feira com os olhos mais escuros do que
os seus, se calhar por serem brancas, a sua cor de mulata disfarçava olheiras,
escondia rugas, que ainda não tinha, por ser nova demais para isso, nesta casa
ao menos só servia um dono, um casarão enorme para limpar, mas um quarto onde
viver, sem irmãos e primos em cima, o patrão um santo homem, pagava a horas,
cheio de rituais, não fazia nada de diferente do que tinha feito no dia
anterior, trabalho, casa, casa, trabalho, uma breve caminhada, só de quando em
vez, nunca para além do pilar da ponte, nunca junto ao Tejo, fins-de-semana na
biblioteca a ler ou no jardim, a ler, junto a uma grande moita de roseiras
miudinhas, sempre em flor, sem cor, rosas sem tons, vivas que pareciam secas,
como ele, uma cadeira baixa, de recostar, de madeira, desconfortável, ela punha
umas almofadas, ele tirava e colocava-as na relva, onde se deitava o Leonardo,
o cão que suspirava a dormir, que parecia tão triste como o dono, sempre a
segui-lo, sempre a dormir, sempre a suspirar, um cão melancólico, se calhar era
da raça, com os homens era igual, os cabo-verdianos eram alegres, os são
tomenses tristes, era assim, cada povo já com o seu destino, o dono não dormia,
olhos sempre abertos, a devorar os livros todos que podia, ela achava que já
não sobrava nada para ler naquela biblioteca, se calhar repetia as obras, lia e
relia até as saber de cor, capas duras, letras douradas, ele não lhe dava
ordens, nenhuma orientação, apetece-me isto ou aquilo para jantar, está a
acabar o papel higiénico, é preciso arear cobres, limpar melhor um canto, nada,
apenas que não mexesse muito nos livros, mesmo que os encontrasse desarrumados,
empilhados, espalhados, empoeirados, misturados, o livro é o melhor amigo de um
homem só, dizia, ela pensava que eram os cães, como o dele, que o perseguia e
suspirava, os livros não corriam atrás dele, era ao contrário, ela nunca tinha
lido um, às vezes desfolhava uma revista, quando ia ao dentista, era ele que lho
pagava, quando tinha chegado para o servir, com os dentes meio podres,
doíam-lhe tanto, esfregava-os com aguardente, abcessos, gemia, punha gelo, mais
aguardente, ele que não se incomodava com nada levantou os olhos da leitura e
incomodou-se com aquilo, ligou para a clínica dentária, disse-lhe, daqui para a
frente acabaram-se as dores, pelo menos essas, ninguém deve padecer assim,
pagava se ela jurasse que lavaria os dentes todos os dias, três vezes ao dia,
ela estranhou tanta frequência, mas jurou, que sim, todos os dias, duas vezes,
ele que sim, nenhum quebrou a promessa, ele suportava os custos, ela garantia a
higiene, quase igual à lida da casa, dava por si a sorrir frente ao espelho,
orgulhosa da sua nova dentadura branca e da sua pele cor de chocolate, no dia
em que conseguisse ir de férias a Cabo Verde traria um homem de lá para casar,
não queria um cabo-verdiano de cá, feitos lisboetas em demasia, crioulo
afetado, haveria de se apaixonar, amar, parir dois ou três filhos, ter a sua
vida, podia continuar a ser criada do Sr. Eduardo, o marido a cuidar do jardim,
viveriam todos naquele palacete, ela a fazer o que já fazia, o esposo a dar cor
às roseiras, alindar o quintal que parecia um pedaço de África, como havia
alguns em Lisboa, os filhos a brincar pelos corredores largos, quem sabe ainda o
próprio Leonardo, o Eduardo não dava atenção ao jardim, às vezes tirava um
sábado para podar, mas não tinha esmero, era um homem das letras, se calhar um
poeta ou um poético, talvez mais este último, porque nunca o via escrever, só
ler, devia entregar-se mais aos cuidados
dos canteiros e das flores, mas ele era assim, se calhar a leitura era uma
doença, nunca mudava um móvel, um quadro, uma cadeira, carpetes, havia uma há
anos a precisar de ser lavada, tinha umas manchas que pareciam de sangue, ela
que sim, ele que não, que as deixasse estar, não esfregasse, há nódoas que não
se tiram, nem que se raspe, nem com lixívia, as que caem no melhor pano,
maculam uma vida, basta uma e mudam uma vida, essa nódoa mudou duas, talvez
três, mesmo quatro, não tirasse a nódoa para que ele se lembrasse disso tudo e
de não ter filhos, ela sem perceber nada, nem porquê, um homem garboso,
proprietário de uma casa daquelas, devia deixar descendência, se a deixasse ali
viver com o seu cabo-verdiano que reação teria quando ela ficasse prenha, não
quereria filhos dele ou não quereria de ninguém, não sabia, isso faria muita
diferença, ficava confusa, nublava-lhe o futuro onde via crianças cacau a
correr pelas salas e pátios, com recato, porque não era ela a senhora daquilo,
servia, mas feliz, embora hoje estivesse apreensiva por o ver tão excitado, a
abrir as janelas que nunca eram abertas, os livros de lado, quase a sorrir,
algumas portadas presas, o sorriso também, que força para as puxar, o sol a
entrar, ela maravilhada com os tetos e os azulejos à claridade, antes só à luz
das lâmpadas, fracas, a meia luz, sem luz, o louceiro, tudo brilhava, pena que
nunca se servissem refeições naquela casa de jantar, os senhores de fato, as
senhoras de joias, ela de farda, daquelas com um avental branco, bordado, não
se importava nada de ser empregada, de banquetes chiques, engomada, de servir
requintes, agora então que podia sorrir, os seus dentes alvos, alinhados, nunca
mais deixaria de sorrir, nem voltaria para os confins de Lisboa, nem deixar-se contaminar
pela melancolia do Eduardo, nem ler, poderia ser essa a causa, só lia coisas
rápidas no facebook, era o que
bastava para andar informada, a televisão quase sempre desligada, velha, ela
que se deveria comprar outra, ele que não, ela não insistia, e à noite na cama
via coisas na internet, gastava dados, desconetava-se, sonhava com o seu
mulato, de borla, chegava-lhe o sono e os sonhos, no Mindelo, onde nunca
estivera, diziam que lá também se lia muito e ainda se cantava mais, talvez
devesse sair um sábado ou dois à noite para não se esquecer como se sacudia bem
uma anca, em Lisboa um negro podia bandear as ancas e isso era bom, beijaria um
ou outro, mas não mais, guardar-se-ia para o noivo, como guardava os dentes,
não comer muito açúcar, não mascar pastilhas, o Eduardo não lhe pagaria
dentição duas vezes, deveria sair caro, o trabalho dele não aparentava ser de
alto gabarito, de grandes salários, não sabia bem o que fazia, bancário sem ser
num banco, num escritório, algo assim, não percebia bem, funcionário era
decerto, não um chefe, também não o estava a ver a comandar, não um advogado ou
um médico, nunca tinha pedido para o tratar por doutor, ela chamava-lhe Sr.
Eduardo, ou jornalista, contabilista, essas profissões que são mais
percetíveis, como a sua, criada, criada de servir, embora hoje já não se
chamasse assim, empregadas, mulheres a dias, empresas que num dia mandavam uma,
noutro dia outra, improviso, uma casa tinha que ser conhecida a fundo, não por
estreantes semanais, há sempre uma tomada que não funciona, um pó que se
acumula entre o guarda vestidos e a parede, aspiradores que são complicados,
soalhos que depois de lavados mancham, um sem número de segredos que só a
permanência garante, ela sabia disso, estava ali há anos e ainda hoje se
surpreendia com as esquisitices da casa, que era mais do que isso, na rua
chamavam-lhe o palacete, nas mercearias, no quiosque, na farmácia, brasão
tinha, uns animais e umas folhagens, bem colocado por cima da porta principal
que dava para a Junqueira e que o Eduardo tentava agora abrir sem sucesso, puta
que pariu, disse, para surpresa dela, mas sem soar grosseiro, uma vez tinha-o
escutado a dizer porra, para o Leonardo, para o cão não se ir abaixo, outra vez,
merda, que não sabia o que havia de fazer, se dividir o casarão em
apartamentos, ficar só com um para si, com quintal, para o bicho, puta que
pariu, tinha pensado ela nesse dia, e ela, o futuro marido, os filhos, esses
sim, que haveria de parir, apreensiva, tinha ficado, como hoje, porque se
abriam janelas de par em par, uma a uma, até a porta grande, finalmente
desencravada, deixava ver alguma humidade nas paredes do hall, tantos anos no
escuro, foi buscar um balde de lixívia, para passar sobre as manchas, daria
conta delas, uma vassoura, pediu ele, se calhar deveriam chamar uma dessas
firmas para limpar, ela nem pensar, nem por cima da sua dentadura, a entrada
ficaria melhor que a do palácio de belém, que excitação era aquela, se calhar
era melhor tirar o sorriso, ele poderia ter decidido mostrar a casa a
compradores, ela não incluída, não mostraria os dentes, planos para o Eduardo e
para o cão, ela fora, sem salário, sem conseguir juntar dinheiro para ir a S.
Vicente buscar um homem, ombros largos, cabelo farto, ao alto, como os modelos,
escuro, mas com feições de branco, neto de uma escrava e de um funcionário
público português, com um nome airoso, bonito de se dizer, com L, podia ser
Leandro, Leonel, para fazer mexer a língua, fazer-lhe filhos, agora tudo por
água a baixo, se calhar tinha pensado demasiado no futuro, dado como seguro, S.
Vicente, de fora, só deveria pensar no futuro próximo, não daqueles que chega à
meia idade ou à velhice, só ao tirar de uma carta de condução, ao comprar um
carrinho em segunda mão, a prestações, ao batizar de filhos por nascer, coisas
assim, para breve, como amar alguém, antes que seja tarde, pois a idade não
perdoa, até para amar, muito, como só os mais jovens podem fazer, cheios de
ilusões, ainda, depois já se quer é sossego, poucas surpresas, uma cama
aquecida, um juntar de pés, um vira-te para o outro lado querido que estás a
ressonar um pouco, uma companhia, até que se morra ou que já não se tenha medo
de ficar só, morar só, partir só, como podia acontecer com o Eduardo, que não
tinha ninguém, só o cachorro, que já não era, melhor não, disse-lhe ele, tem
razão, essas empresas custam uma pipa de massa, meio ano do salário dela,
preferia comprar um bom vinho e umas entradas mais sofisticadas, temos que ver
como está o talher de prata, escolher bem os copos, não quero que falhe nada,
ela sorriu, os dentes pagos pelo patrão em toda a sua cintilância, nem uma
cárie, não havia vendas de imóveis, fracionamentos do palacete, cada um com o
seu animal de estimação, a perturbar o velho Leonardo, cada um com miúdos
louros a arrancar as rosas, a olhar de lado para os seus, escurinhos, mas não,
era apenas um jantar, flores, flores frescas, disse-lhe, ela, só secas, umas
hortências que tinha colhido, pendurado às avessas como lhe tinham ensinado, no
escuro, numa jarra ficava bonito, um grande molhe delas, ele sim, melhor que
rosas, era inapropriado, talvez um dia, ela fez só meio sorriso maroto, uma
mulher, talvez fosse uma mulher, o Eduardo enrabichado, mas sem querer rosas em
jarras, embora as houvesse nas roseiras, secas e meio encarnadas, como a
paixão, dos homens e de Cristo, coroado, cheio de amor, cheio de espinhos, nem
uma gota de água, como os canteiros, só vinagre, as mulheres eram vinagre, os
homens azeite, talvez fosse uma mulher, cheia de vinagre, de fineza, que viesse
dormir na casa, ocupá-la, as coisas a seu jeito, mudar os móveis de sítio,
mandar tirar a nódoa do tapete, não aceitar que ela se casasse, que os filhos
por parir rissem pelos corredores, pôr e dispor, obriga-la a usar farda todos
os dias, não só em jantares de cerimónia, esporádicos, como um palacete deveria
ter, não amiúde, como uma boîte, só de quando em vez, como nas embaixadas, onde
trabalhava a prima Safira, todas as mulheres da família tinham nome de pedra,
menos a Goreti, que era preta como carvão, não lhe tinham achado graça
apropriada, o Eduardo repetiu-lhe que sim, as hortênsias eram uma boa opção,
que visse as argolas para os guardanapos, bastavam dois, como se sentariam numa
casa de jantar do tamanho do estádio da luz, um em cada ponta, as flores no
meio, nem se iriam ver, melhor no jardim, numa mesa redonda, junto às rubras
rosas secas, mas abril águas mil, arriscado, a relva por aparar, tinha que dar
um jeito no jardim, um destes dias, melhor na salinha de receber, o papel de
parede era tão bonito, florido também e as portas dão para o pátio com as
buganvílias, se estiver um dia bonito abrem-se, o máximo que pode acontecer é
entrar alguma abelha, de repente sério, abelhas não, comemos na casa de jantar,
é para isso que serve, mesmo para almoços, um frente ao outro, a meio da mesa, ninguém
nas cabeceiras, ela perguntou quando, afinal, ele sexta, disse-lhe, perguntou
se queria que ela se fardasse, ele riu-se, não, dava-lhe folga, para ir estudar
os preços das viagens para Cabo Verde nas agências, espairecer, ir ver a
família para lá da Amadora, a mãe, há tanto que não ia lá, ou pelo menos não
lho dizia, não se deviam adiar certas visitas, um dia era tarde demais, como
ele, nem do antigo pai sabia, nem um telegrama a dizer que morreu o Sr. Dom,
ela nunca tinha visto o conde, em vida, só em retrato, estava meio escondido na
biblioteca, atrás de outras fotografias, no dia do casamento, não era bonito,
nem elegante, a mulher também não, um olhar algo espantado, magra, cabelo alourado
e sardas, uma barriguinha a ver-se, pequenina como uma ervilha, mas,
parecia-lhe, já lá devia andar algo, talvez o Eduardo, o marido mais baixinho
do que ela, enfiado num fraque, sobrancelhas arranjadas, olhos miudinhos, lembrava-lhe
um bicho, não sabia bem qual, talvez uma toupeira, como as que apareciam no
jardim, que sorte tinham tido, um filho apagado, mas bonito, olhos muito
verdes, os mais verdes que já tinha visto, igual, se calhar, só no mar de Cabo
Verde, o mesmo nome da sua irmã, Turquesa, que vivia na Holanda, estava bem,
limpava um museu importante e às vezes mandava-lhe umas fotografias de uns
quadros que ela não entendia bem, mas que eram famosos, dizia-lhe, gostava, exceto
os que expunham as partes das pessoas, assim muito em cima, principalmente de
mulheres, um pouco pornográficos, no palacete só telas com paisagens tristes,
no campo, cavalos, frutas e pássaros mortos em salvas de prata, também não
gostava, porque se pintariam badalhoquices, coisas paradas ou mortas, uma
pintura queria-se com vida, com cores, com alegria, para tristes bastavam às
vezes os pensamentos, também havia telas com antepassados, com bom porte, alguns militares, cheios de
condecorações, ombros largos, costas direitas, bigodes bem aprumados, gente do
antigamente que tinha escravizado a sua gente, eram outros tempos, não os
censurava, ou talvez os censurasse, mas o que lá vai, lá vai, que lhe remediava
agora pensar nisso, ela, que tinha tido um pai branco, que não a tinha
reconhecido como filha, assim de papel, legal, mas, até morrer, nunca lhe faltara
com nada, saber por onde andava ela, dar-lhe algum dinheirinho, rico não era,
perguntar pelas irmãs, pelos irmãos, pela mãe menos, não tivesse feito tanto
filho escuro até poderia dar mais qualquer coisinha, comentava, mas o salário
de funcionário da câmara era baixinho e havia os outros filhos, brancos mesmo,
a mulher, mulher mesmo, no natal mandava um cabaz lá para casa, umas postas de
bacalhau, batatas, uma couve que quase não cabia pela porta, tinha uma horta
junto à autoestrada, ovos, uns bombons, era já quase noite, o Eduardo ainda de
janelas abertas, os mosquitos que entravam, até um rato, Lisboa estava cheia
deles, fechamos patrão, hoje é domingo, até sexta eu arejo todos os dias um
bocadinho, se me deixar, arejo para sempre, ele que não lhe chamasse patrão, o
para sempre se veria, dependia de como corresse o almoço, ainda que corresse
mal, dizia ela, sempre se combatia a humidade, depois se verá, disse-lhe ele,
mesmo ao Leonardo faz bem, disse-lhe ela, o cão anda abatido, sempre tudo às
escuras, para cão não é velho, mas morre de entristecimento, não faça depender
o arejamento de uma refeição com uma amiga, disse ele, sexta-feira tire o dia,
vá ao Zoo, ver o elefante que toca no sino quando recebe uma moeda e as girafas
que se andassem por aqui podiam espreitar às janelas do primeiro piso, menos às
da avó e da mãe, esses quartos não devem deixar entrar nem sair nada, nem ar de
fora, nem memórias lá de dentro, essas devem ficar bem trancadas no passado
para não nos assombrar o presente, ela que sim, e benzeu-se, mesmo não sendo de
crenças.
Sr. Eduardo.
Diga Esmeralda.
Então na sexta deixo a mesa posta e não preparo nada, uma
cachupa, um pudim, só pratos, talheres, copos, tiro o dia e volto à noitinha?
Sim, não prepara comida e regressa ao lusque-fusque.
Não percebi Sr. Eduardo.
Volta quando nem é tarde, nem noite, quando os gatos ainda
não são pardos, quando ainda é cedo para a janta, mas a hora do lanche já
passou, quando forem umas sete e tal.
Ah, está bem, Deus queira que a menina que vem seja boa
pessoa, se quiser deixo uma rosa em cima da mesa, assim como que esquecida.
Já não é menina Esmeralda e as rosas têm espinhos.
É verdade, como a coroa de Nosso Senhor! Disse, mesmo não
sendo de crenças.
O Leonardo suspirou, deitou-se a dormir, porque já era
lusque-fusque e não sabia ver as horas
Sr. Eduardo, porque é que diz o seu antigo pai e não o seu
pai?
É maneira de dizer.
Está bem.
Capítulo IX
Virgínia
Na sexta-feira o telefone tocou, era ai meio dia e tal, a
empregada atendeu, uma voz feminina, perguntou se era de casa do Eduardo, ela
que sim, a senhora disse-lhe que era a Virgínia, ia almoçar com ele, mas que estava
perdida, baralhada com o número da porta, não sabia qual o andar, não via
nenhum prédio de apartamentos, só um casarão grande, apalaçado, não podia ser o
60, a Esmeralda que sim, 60, uma porta grande, ia abrir agora, abriu, viu-a,
ainda de telemóvel na orelha, fixou-a nos olhos, tão verdes que ficou
embasbacada, nem as encostas de Sintra, se calhar nem as de S. Tomé, ver para
crer, que diziam que aquele verde engolia tudo, até as pessoas, os negros, as
casas, nem o Eduardo, que os tinha verdes, verdes, como só em pinturas, ela
desligou o telefone, era mais madura do que o patrão, emanava um perfume muito
suave, mas atrevido, de amante.
Não era visita de família, apesar dos olhos aparentados, era
como uma atriz de cinema, daquelas películas a preto e branco, pálpebras
semicerradas, a fumar, num canapé, apaixonada, porém inalcançável, nos filmes
de hoje não havia romance, só sexo e pancada, preferia os antigos, incolores,
sem sangue, por vezes sentava-se na sala de estar, numa cadeira atrás do sofá
do patrão, a assistir às coisas velhas que ele via num vídeo também velho, ela
fingindo fazer renda ao mesmo tempo, para não parecer abusada, uma criada a ver
televisão, sem mais, como se fosse da casa, adiantava uns panos para o enxoval,
tortos, que tinha que refazer mais tarde no quarto, prendia-se à história, não
descolava os olhos do ecrã, tinha que apanhar as legendas, os atores nem
americanos eram, nórdicos, dizia-lhe o Eduardo, ela não sabia onde ficava tal
terra, nem que língua era aquela, frio deveria fazer, alguns cenários tinham
muita neve, noutros parecia verão, mas com agasalhos, mar, vento, ciúmes,
desprendimento, beijos, abandonos, pálpebras semicerradas, a fumar, as
mulheres, os homens de fato, enchumaçados, sérios, a agarrá-las pela cintura
fina, lábios contra lábios, uma boca contra a outra, só isso e os olhos
semicerrados, como a senhora, conhecida,
amante … amiga só não seria, não justificava tanta limpeza, talheres de prata,
toalha de linho bordada, flores, copos de cristal que pareciam desfazer-se ao
limpar, invisíveis, como ela parecia agora, quando a visita passou sem lhe dar
importância e entrou, ela especada, não corou por ser cor de chocolate, fez uma
vénia imbecil, que ninguém viu, e sentiu-se rubra, mesmo mulata, ai desculpe,
saiu-lhe, mas já não a ouviam, o Eduardo descia a escadaria, sem fato cinzento,
sorriso de orelha a orelha, ela recuou, agarrou na carteira, bateu devagar com
a porta, na rua ainda ouviu Virgínia dizer ao patrão que ele era um poço de
surpresas, que casa, eu a imaginá-lo a viver num t2 com móveis de fórmica e uma
marquise quentíssima, alguns livros espalhados, uma cama de quarto castanha
clara, um guarda-vestidos de ripas, venha, mostre-me o seu quarto, mostre-me
tudo, que outra surpresa terá para mim, querido Eduardo, ouviu-se uma
gargalhada, dela, dele nada, não tinha por hábito rir, nem quando os vídeos
tinham cenas cómicas, os bons homens não se desmanchavam a rir, só os parvos, o
Eduardo era bom e a mulher dos olhos verdes parecia à vontade demais, vivida
demais, mas as aparências iludem, quem era ela para julgar, contudo, próxima
não lhe seria, nem sabia onde ele vivia, talvez ficassem próximos, depois do
almoço, dos vinhos caros, ou mesmo antes, já no quarto, direitos ao primeiro
andar, ignorando as portas fechadas para sempre, na sua enorme cama de estilo,
debaixo do painel de azulejos, paisagens holandesas, tinha-lhe dito, moinhos e
campos rasos, verdes, se os azulejos não fossem azuis, preferia os portugueses,
achava a Holanda monótona, como seria a tarde dela, não iria visitar nenhum
parente à Amadora, não iria ao Zoo ver selvajarias, sentar-se-ia num banco de
jardim em Belém, a olhar para o Tejo, para os turistas, para os casais com
filhos, para o relógio, para que passassem as horas e pudesse voltar para o seu
palacete, dar ração ao Leonardo, por uma sopa ao lume, fazer de conta que a
mulher dos olhos verdes nunca lá tinha ido, que não voltaria, como nunca voltou.
Capítulo X
Chá das três criadas
O telefone tocou, a meio da sesta de domingo, a Carmo sabia que
ela não gostava que lhe ligassem depois de almoço, ainda menos no verão, esteve
para não atender e se não atendesse tudo se desenrolaria de outra forma, há
telefonemas que nunca deveríamos aceitar, não era o caso deste, não trazia
anúncio de acidente, como o último que atendera, nem tão pouco era a vizinha,
só a marcação de um encontro, inesperado, que a pouparia a investigações
adicionais, disso não sabia ela ainda, porque ainda bradava já vou, já vou,
enquanto se levantava estremunhada do sofá e o aparelho trinava na entrada, mas
nem tudo se esclarece num encontro, iria ela saber mais tarde, adensam-se
dúvidas, há encontros que nunca deveríamos agendar, não era o caso deste, que
ia levantar véus, expor passados, intimidades, ainda não sabia ela quem estaria
do outro lado da linha, parecia que lhe custava uma eternidade dar três passos,
a campainha não se emudecia, ela a caminho, mesmo os telefonemas violentos, não
era o caso deste, embora ela não o soubesse ainda, tinham de ser atendidos, más
notícias chegam de qualquer maneira, a Carmo não seria, se calhar o primo, a
dizer que tinha recebido a sua missiva, que lhe cumpriria as últimas vontades,
isso poderiam ser boas notícias, menos uma apoquentação, mas no Alentejo
fazia-se a sesta, a esta hora estariam enfiados no fresco da casa, sem ação
para conversas, à espera que abrandasse a calma, que o vento quente deixasse de
correr por cima de cearas que já não havia, só a sua recordação, dos tempos do
pão e da fome, que contraditória era a vida, tossiu um pouco, para aclarar a
voz, sim, quem fala?
Joaquina, é a Rosa lá do palacete da Junqueira, lembras-te de
mim? Deves lembrar-te, filha, fico tão contente por te ouvir, estes anos todos
sem saber de ti, pensava-te no Alentejo, tu, afinal, cá por Lisboa, nos Anjos,
nunca soube ao certo em que rua do bairro vivias, quem me deu a morada completa
foi a Esmeralda, não a conheces, é a criada que lá serve agora, boa moça,
escura, alfacinha de Cabo Verde, andava nas últimas limpezas e encontrou um
papel velho com a tua direção, rezei para que ainda ai vivesses e tivesses
telefone, tudo isto agora mesmo, precisamos as duas de falar contigo, com muita
pressa, eu já não sirvo lá há alguns anos, reformei-me mais cedo, já não tinha
físico para aquela casarão, a Esmeralda ainda é nova, aguenta melhor, estou na
Malveira da Serra, com a minha irmã, ficou viúva, os filhos no estrangeiro,
vidas, ganha-se mais do que por cá, para aqui andamos as duas, velhas e com
saudades, o assunto é o Eduardo, mulher, temos que falar sobre ele, lembras-te,
uma criança tão bonita, foi-se, lembras-te, naquela família tudo morria, agora
foram-se todos, a Srª D. Isabel, a menina Amélia, o Sr. Dr., agora o meu
menino, não sobrou ninguém, testamento parece que não deixou, ninguém sabe de parentes
vivos, um estirpe inteira enterrada, não dizes nada Joaquina, estás a fazer uns
minutos de silêncio? Não sabes o que sofri naquela casa, ocupei-me tanto dele,
todos os dias, de manhã à noite, a falecida mãe a nutrir-me um ódio cada vez
maior, aos dois, aliás, o pai sempre fora, tinha outros fitos, dizia que
abalava para a quinta lá no Minho, mas metia-se em aviões para Londres e
Marrocos, Marrocos, calcula, que andaria aquele homem a fazer por lá, ou,
quando tinha menos dinheiro, numas pensões manhosas ali para o Príncipe Real,
enfim, vidas, coitadinho do meu menino, não chegou a velho, gostava tanto de o
ter visto crescer, fazer-se um homem, deixar descendência, a Esmeralda diz que
se fez boa criatura, triste, mas bom, Deus o tenha, olha, marcamos para amanhã,
lá no palacete.
Tudo isso me entristece muito Rosa, ainda bem que me ligaste,
que bom saber-te tão viva. Amanhã não posso, já tenho um compromisso, com outro
Eduardo, vê lá as coincidências desta vida, também com um mau fim, marcamos
para sábado, porque ainda ando nas limpezas, não me reformei como tu, nem sei
no que vos posso ajudar, só se for por memória do coitado, não me lembro de
familiares que possam estar vivos …
Vê lá tu, assim vai tudo para o Estado. Fica para sábado,
então, à tarde, tomamos lá um chá, digo à Esmeralda que o prepare, eu apanho a
camionete aqui na Malveira para Lisboa, não sei se deveria voltar àquela casa,
mas seja o que Deus quiser …
Capítulo XI
O almoço
Virgínia deambulava pela casa, queria ver tudo, cada recanto,
cada encanto de um paço perdido nos tempos, entalado entre o charme e a
decadência, enquanto o Eduardo a seguia, preocupado com a comida, que
esfriasse, não queria requentá-la, nem um micro-ondas tinha, burrice ter
dispensado a Esmeralda, ficaria ali bem, de farda, também atrás dos dois,
seguido do sonolento Leonardo, numa procissão cómica, sem Santos, só ele, um
mártire, talvez viesse a arrepender-se do convite, um homem só habituado a
estar só, sem diálogos, sem prestares de atenção, sem experiencia de aventuras,
amorosas ou quaisquer outras, sem vida, sem grande gosto por ela, e lá lhe ia
explicando a história do palacete, o significado das armas da família, o
original, as ampliações, os caprichos do trisavô, os devaneios do bisavô, que
se rico era, mais se fizera com negócios nas colónias, a ruina do avô, por se
entregar a coisa nenhuma ou a amantes espanholas, a austeridade da avó,
espartana, sempre enlutada, por lhe morrerem os filhos, a simplicidade a que
ele vetara tudo, sem querer começar do zero, a vida às vezes era isso, mas ele
não o quisera, deixara-se estar, indeciso, não era de empreender, sentia-se bem
em trabalhar para outros, sem se destacar, não brilhar, não trabalhar até às
tantas, não lamber botas, não subir na carreira, só para sua, direito a casa,
enfiar-se na biblioteca, ouvir o cão suspirar, pensar, um bocadinho, em
mulheres que não possuía, que não o queriam possuir, nem esporadicamente, nem
homens, não o interessavam, talvez fosse assexuado, talvez não devesse ter
arranjado este almoço, suava das mãos, ainda bem que ela o interrompia com
perguntas, com o gabar da casa de jantar, os azulejos, as tochas, o teto
caixão, pintado, que beleza, as portas que davam para o jardim, as madressilvas,
as buganvílias, os ciprestes a salpicar o pátio, um pouco desleixado,
disse-lhe, ele assentiu, ela deu-lhe a mão, levou-o em direção à grande
entrada, como se dominasse o espaço, ele de olhar turvo, pernas a cambalear, a grande
escadaria a rodar sobre si mesma e ela sobre ele, olhos fechados, um sorriso
nos lábios, agora sim, murmurou, compondo-se, vamos almoçar, depois mostras-me
o primeiro piso e o sótão, aposto que há um sótão, escuro, com teias a passar
pelas caras, freixos de luz a bailar com o pó, Eduardo, és tão discreto que
quase não dou por ti, ele corou, é um elogio, rematou ela.
Tomaram café no jardim.
Está um dia lindo, as hortências, as rosas, meio deslavadas,
mas carnudas, se me deixares levo um ramo para casa, o meu marido odeia flores,
hoje levo-as, assim, num só dia, traio-o duas vezes, contigo e com um bouquet.
Por isso vieste cá, para trair o teu marido?
Também. Isso e a autoestima, esses lugares-comuns, um homem
mais novo, interessado por uma quarentona, mãe de filhas, a perder as formas,
não imaginas como é insuportável para uma mulher enfrentar a decadência do
corpo.
És uma mulher muito bonita! Não te conto os elogios
desadequados que os gajos te dão lá no trabalho.
Não Eduardo, sou uma mulher a caminho da outra metade da
vida, que é enganada pelo marido todos os dias. Não me toca há anos, desde que fiquei
grávida pela última vez, ficaria neste jardim para sempre, escondida, uma rosa
enxovalhada, envergonhada por lhe ter suplicado sexo, mais do que uma vez, por
me insinuar à noite quando ele chegava, já satisfeito por outras, por o abraçar
entre os lençóis, por me sentir empurrada, agora não, é o que me diz sempre.
Porque não se separam?
As miúdas, o estilo de vida que ele me proporciona, o pensar
que também um dia ele perderá as formas e o vigor, que enfiará as pantufas, que
precisará de mim para o ajudar a levantar-se do sofá, que se deixará embevecer
com o primeiro neto. O sonho de muitas mulheres é que os maridos se tornem
impotentes, sabias? Que não as macem a elas, nem importunem as outras. Ilusões
…
Por isso o trais? Com mais novos?
É o que dizem?
Soa que sim!
Soa mal … censuras-me?
Não.
Mantém-se solteiro, Eduardo, com a tua bonita criada, com o
teu cão, os teus livros, sem cornos para por a ninguém, nem para te
ornamentarem a cabeça, foge de mim, eu não faço bem.
Recostou-se numa chaise-longue de madeira, sobre a relva,
acendeu um cigarro e deitou o fumo para cima de uma abelha que a importunava,
Eduardo estremeceu um pouco, mas o bicho voou para longe, ela parecia a Ava
Gardner, ele sentiu-se um Charlie Chaplin.
Quando acabou de fumar, levantou-se, ajeitou a blusa e pegou
na carteira, disse que tinha que se ir embora, Eduardo sentiu um beijo leve e
breve na cara, desajeitado, levou-a com um andar meio coxo até à porta, ouviu
um até depois, viu-a levantar a mão para um táxi, que parou e a levou dali,
como se nunca lá estivesse estado.
Esquecera-se do ramo de flores no jardim. Apanhou a beata que
ela deitara para o chão. O Leonardo reaparecia.
Ela desconcertara-o, par a par foi fechando as janelas da
casa, primeiro as do rés-do-chão, depois as do primeiro andar que não chegara a
mostrar, melhor assim, por ali vagueavam almas penadas com brasão, nem o sótão,
empoeirado, com aranhas, alguns ratos que se ouviam patinhar nas noites mais
tranquilas de lisboa, sem o roncar dos elétricos, ele sem coragem para os
envenenar, porque a mãe os temia em vida, quiçá, ainda em morta, levantou a
mesa, a Esmeralda estaria a dar moedas ao velho elefante do zoo ou a suar mornas
e funanás algures na periferia, pensava ele, sem imaginar que a empregada se
encolhera debaixo de um arbusto em Belém, a olhar para o relógio de meia em
meia hora, depois de quinze em quinze minutos, depois a cada segundo, até que
se tinha feito ao caminho, a tempo de ver partir a convidada, sem um sorriso, sem
um aceno ou uma ruga na roupa, parecia mais velha do que à chegada, as costas
algo curvadas, menos altiva, menos fatal, quase avó, o Eduardo contagiara-a com
a sua tristeza, em vez de amor. Suspirou de alívio.
Andou pelas ruas mais algum tempo, até achar que era
lusque-fusque. Ao entrar tudo lhe pareceu na mesma, nem um leve aroma a perfume
caro, uma janela escancarada, uma luz de fim de dia a brilhar nos azulejos, um
adocicado ou desagradável odor a sexo, todo o aparato preparado tinha sido
fugaz, uma paixoneta, nem isso, ou as ventanas estariam escancaradas, ainda se
sentiriam borboletinhas nos estômagos, uma flor caída no chão, um desalinho dos
amorosos que sempre se descuidam, almofadas caídas, dois copos junto à mesa de
apoio do sofá, um com batom, uma beata no cinzeiro, dos cigarros que se fumam
depois, não, toda a felicidade, se a houvera, tinha saído porta fora.
Quando entrou no palacete, deambulou um pouco, primeiro pela
casa de jantar e pela cozinha, para não ir direita a ele, nem ao assunto,
vestiu uma bata, para se dar ares de arrumo, foi-se aproximando, entrou na
biblioteca, Eduardo lia, como sempre, o cão a seus pés, como sempre, o silêncio
dominava o ambiente, como sempre, ela sossegou, como quase sempre, só as portas
do jardim entreabertas, perguntou se tinha estado tudo em ordem, ele acenou com
a cabeça que sim, perguntou se deveria preparar o jantar, ele acenou que não,
questionou se queria que fechasse as portadas, ele encolheu os ombros, depois
pediu-lhe para esperar um pouco, disse que havia decisões na vida que demoravam
algum tempo, à noite teremos que fechar, Sr. Eduardo, andam aí uns ratinhos,
temos que fazer alguma coisa, ele disse ok, como sempre, o que a fez pensar que
a mulher não voltaria mais.
Capítulo XII
O jantar
A campainha tocou, Quinita abriu a porta, a Carmo entrou, arranjada,
um miúdo de cada lado, penteados, sem ramelas, vinha bem-disposta, gabou o
cheirinho a ervilhas que já serpenteava pela escadaria do prédio, ajudou a por
a mesa, falou de um vento esquisito que varria as ruas, frio, disse, agora é
isto, sempre, acabaram-se as noites de calmaria que havia antigamente no verão em
Lisboa, são as alterações climáticas, não se pode sair sem um agasalho, mas
depois de jantar era melhor dar uma voltinha, desmoer um pouco, as ervilhas devem
estar tão boas, com caldinho, à moda do Alentejo, pão a fazer sopas, um raminho
de hortelã.
Vai-te sentando, os gaiatos que lavem as mãos.
Vêm todos lavados …
Antes assim, cuidado com a panela, está quente, fiz tudo à
pressa, espero que tenham apanhado o gostinho de uma linguiça que para aí
tinha, olha, não há vinho, vai ali ao frigorífico buscar duas cervejas, para os
rapazes podes trazer dois sumóis, eles que vão comendo esse pratinho com
peixinhos da horta, ainda vim a tempo de os preparar, não gosto de me gabar,
mas estão bons, os peixinhos da horta, os miúdos estão muito magrinhos.
A Carmo disse que comessem, que a seguir iam desmoer, a
Joaquina disse que hoje era dia de moer, não de desmoer, de falar das coisas,
do despautério que vira às portas de Santo Antão, não pensasse ela que não
tinha que lhe explicar tim-tim por tim-tim, um relato completo, depois da
janta, agora era hora de encher a barriga e de silêncio, de ouvir o noticiário,
mas a vizinha derramou-se num pranto, entre um acidente em cadeia na
autoestrada do Sul e uma ameaça de bomba da Coreia do Norte, não acredites,
disse-lhe a Quinita, é só conversa, estes chineses não têm tecnologias como os
outros, dizem que aquilo levanta e cai de seguida, no meio do mar, qualquer dia
cai-lhes na própria cabeça e matam alguém, tudo para chatear os países da
vizinhança, os comunistas têm destas coisas, ladram em demasia, mas às vezes é
só conversa, à festa do avante já não voltamos.
Os rapazes começaram a chorar, ranho a sair das narinas, como
se os narizes estivessem combinados, chiu, os três, assoem-se, comam e
deixem-se de lamúrias, depois podem ir brincar para o quintalinho, mas não me
apanhem os limões, eu e a Carmo conversaremos enquanto lavamos a louça e damos
um jeito na cozinha, ou então vejam a novela, já estou a ver que não vou estar
atenta ao capítulo, logo hoje que o Roberto vai ter um acidente tão grave, de
barco, naquelas ilhas finas lá do Brasil, morrer não morre, é o galã, mas pode
ficar paralítico, quero ver se a Patrícia o aceita assim, incapaz, se calhar
sem possibilidade de lhe dar filhos, andam com o amor adiado, o melhor às vezes
é adiá-lo de vez, deixá-lo passar, até que a morte os separe, olha o Romeu e a
Julieta, aquilo não tinha que acontecer, se tivessem adiado o amor talvez
estivesse vivos, agora não, naturalmente, isso é história com muitos séculos,
lá para Itália, ao princípio pensava que era cá, afinal não, nestes folhetins da
televisão é diferente, o amor vence sempre nos romances, por isso são romances,
senão eram tragédias, nessas podem finar-se todos, nas novelas casam os bons e
castigam-se os malvados, era assim que deveria ser na vida real.
A vida é lixada Joaquina, nem tudo são novelas, nem tudo o
que parece é.
Disso já dei eu conta, mulher, meninos, agente agora vai
conversar, vão para o quintal, afinal, ainda me vou distrair quando for o
acidente, se calhar não é hoje, as telenovelas, quando estão no fim, enrolam,
enrolam, para a pessoa se agarrar, chego a enervar-me, se é para ficarem
juntos, para quê porem-nos neste desassossego uns poucos de dias, às vezes até
se mete o fim de semana, não gosto nada deste detergente, é pouco concentrado,
não rende, mais a mais, não posso passar a louça por lixívia, vá meninos, vão
lá, limpem a boca, tu desembucha Carmo, Nossa Senhora, do Carmo.
A vizinha abanou-se com o trapo da louça.
Belas ervilhas, comi que nem uma bruta, até estou afogueada, ou
do comer ou por estar aqui embaçada, custam-me a sair as palavras, doí-me o que
tenho que te relatar, só chatices, tu também terás as tuas, isto começou vai
para mais de seis meses, virou-se-me a vida do avesso, eu que a cuidava ter tão
arrumadinha, fui à caixa do correio e tinha lá uma carta do senhorio, o
Carvalho, sabes bem quem é, ainda bem que és dona das tuas assoalhadas, não
inquilina, como eu, há tantos anos a pagar a tempo e horas, sempre até ao dia
8, só lhe falhei os três últimos meses, manda-me uma carta daquelas, assinada
por advogado e tudo, a dar-me ordem de despejo, dizem que se não aceitar uma
renda nova, atualizada, vou para o olho da rua, dizem que as leis antigas
mudaram e que me podem por fora, até acamei, com uma grande dor de cabeça,
daquelas que se pregam em cima de um olho, no outro não, que só desanuviam com
um banho na Caparica, quando a água está mais fria, meti-me na camionete e
enfiei a cabeça no mar, foi passando, pouco a pouco, arrependi-me, eu numa
aflição de finanças a caminho da praia, depois fui à Junta informar-me,
disseram-me para depositar a renda antiga, meter também um advogado ao barulho,
não tenho dinheiro para isso, maldita a hora em que me reformei mais cedo, por
ser calaceira, mas então, os CTT já não são o que eram, parecem mercearias, só
não se vende frangos assados, uma vergonha, enfim, deram cabo dos serviços
públicos, depois isto da Adelaide, já não lhe dão mais de um mês, as crianças
aos caídos, o apartamento onde estavam metiam nojo, no dia em que lá fui buscá-la
para a levar para o hospital estava magra que nem uma cadela, nem a reconheci,
só está à espera que a morte faça o que tem que fazer, levá-la, à porta das
urgências pediu-me para olhar pelas crianças, não as deixar visitá-la, não quer
que a vejam morrer viva, olha, o rapaz sempre está a ter o acidente, o barco
contra umas rochas, está agente aqui a queixar-se e ainda há vidas piores …
A Adelaide tem um cancro, na vida real, Carmo!
Sida Joaquina, cheia dela, nenhum médico dá conta, o vírus está
a carcomê-la toda, ou foi aquele cabrão que lhe fez os filhos e desapareceu que
lha pegou ou o part-time que tinha ali no Intendente para ajudar a sustentar a
casa. Nos últimos tempos o cansaço era tanto que já poucas limpezas fazia, por
isso te passou aquele apartamento, só tinha forças para se deitar e levar com
um homem em cima, pobrezinha, disse-me que às vezes até chorava enquanto a
furavam, dizia aos tipos que era de prazer e eles acreditavam, os homens
acreditam em tudo e por isso valem pouco.
Valha-me Deus, semeou ventos …
E eu estou a colher as tempestades, fiquei com os encargos
das crianças, o comer, o vestir, algum medicamento, as escolas, um sufoco, e para
pega já não tenho idade! Um dia ia a caminho do hospital de S. José por causa
de um grande febrão que se agarrou ao Ruben, eu já a pensar que o puto trazia o
mal da mãe, que se podia cortar lá em casa e me contaminava a mim, quando vi
uma romena a pedir ali no Martim Moniz, desviava moedas do lenço que tinha no
chão para dentro da algibeira, mais de 30 euros, assim a olho, era isto manhã
cedo. Foi assim que me inspirei, ou foi Nossa Senhora que ma pôs ali para me
guiar e arranjar caminhos para sair desta alhada, revezes, revezes, que hei-de
eu fazer aos gaiatos, pô-los à porta da Casa Pia?
Ah, o Roberto morreu, viste?
Morreu? Matam o ator principal, deixam a noiva viúva, antes
do tempo, que raio de novela é esta? Até isto tenho perdido, as crianças gostam
de ver outras coisas … ando, ando, vou ao Preço Certo, vens comigo?
Eu, Carmo, na televisão? Não me peças uma coisa dessas! Olha,
pode ser que ela fique com o Mauro …
Esse quem é?
É o irmão do Roberto, sempre se evitaram, mas agora …
Pois, está claro. Queres que passe um pano na louça?
Sim, olha, os meninos têm que ver a mãe em vida, não num
caixão.
Isso há-de ser outro problema, o dinheiro para o enterro!
Fica com o meu caixão, campa também lha arranjo, grandes
males, grandes remédios, eu consigo encomendar outro, pagar em prestações, fica
o pladur da sala para outra ocasião, mudas-te cá para casa com os meninos, tu ficas
no quarto das visitas, que nunca as tenho, eles ajeitam-se no anexo do quintal,
fazemos um quartinho, com beliche, acaba-se o problema da renda, dividimos as
despesas e assim a tua reforma já dá, para a escola têm que ir, gente bruta já
este país tem a mais.
Deus te abençoe mulher, tu és mais do que uma irmã para mim,
és uma amiga, pode ser que sobre algum para agente ir à Caparica no verão, o
melhor é tirar a ilha da Madeira da cabeça.
Se calhar é melhor, sim.
Olha lá, tu já ouviste o Ruben cantar o fado? Ó Ruben, anda
cá, canta lá a igreja de Santo Estevão ou um do Carlos do Carmo, para a vizinha
Joaquina.
Esses três meses de renda foi-se só com as despesas dos
gaiatos?
Isso e um bocadinho de botox.
“São como bandos de pardais à solta, as putas, as putas …”.
Ruben, levas com este pano encharcado na boca, ai, ai, ai!
Foge daqui.
Carmo, também tenho uma coisa para te contar, um assunto que
nunca falo com ninguém.
Tu, com segredos? não deve ser nada do outro mundo!
Quase! Eu dedico as quintas-feiras a limpar campas e jazigos
nos cemitérios!
Então e que vergonha dá isso? Nunca pensei é que pagassem
para tal. São os familiares dos falecidos, não? Ficam melhor com a consciência,
não põem os pés nos cemitérios para ver os seus defuntos e dão dinheiro para
que os limpem. Há quem faça isso com promessas, também me lembrei de me meter
nesse mercado, mas não sei como e as pernas já não são o que eram.
Não é isso, mulher, limpo por minha conta, limpo a última
morada daqueles que não têm quem por eles olhe, cuido dos mortos, à falta de
vivos, por assim dizer.
Tu ganhas o céu, criatura.
Não estou tão certa disso, mas já me decidi, vou passar a
cuidar só dos vivos e de um morto.
Um morto, quem?
Ainda não sei bem quem ele é, mas anda cá a fazer-me uma
espécie esta alma.
Apareceu-te?
Não! Assisti ao enterro e fiquei impressionada, ninguém a
acompanhar, um parente, um amigo. Já em vida devia ser uma alma penada, pobre.
Jeitoso?
Um homem, novo, uns lindos olhos verdes!
Abriste os olhos ao morto? Tu não te embeices por defuntos,
Joaquina, olha à tua volta, os que ainda mexem, o Sr. Fonseca, da retrosaria,
julgas que não o vejo, aquela delicadeza toda, quando te vê, só salamaleques.
Eu acho que é delicadeza a mais, Carmo.
Se calhar, mulher.
Riram-se as duas.
Tens que evitar que os gaiatos digam palavrões cá em casa!
Está bem.
Na manhã seguinte foram com os meninos ao hospital, dois dias
depois puseram-se de preto, no enterro da mãe, despedidas em vida e em morte, o
Ruben cantou um fado das horas “Minha mãe é pobrezinha, …” enquanto baixavam a
Adelaide para a cova, depois fizeram-se em silêncio para casa, a Joaquina
libertou espaço no quarto, com a saída do caixão, que deu para acomodar alguns
tarecos da Carmo e dos pequenitos, que se mudaram ainda nesse dia, há mudanças
que não devem esperar e senhorios que não aguardam, nem por órfãos, ninguém
chorou, morta andava já a falecida, só o pequeno cantor, mais tarde, no quarto
do quintalinho, baixinho, para não acordar o irmão, trauteando o “Só à
noitinha, quando me chega a saudade, choro sozinha, para chorar mais à vontade”,
com um xaile pelas costas e os lábios pintados de encarnado vivo, olhos
fechados, mas a ouvir as ovações, as luzes da ribalta, fumo e tilintar de
copos, os brincos em coração de viana que brilhavam no escuro, o pior seria a
maçã de adão, haveria de lhe crescer, teria que a disfarçar com um lenço, ou
não, Ruben Cristal, dali em diante, o seu nome, adormeceu ao som dos aplausos e
dos soluções do mano mais novo, nunca o deixaria, mas para ele queria uma vida
diferente da que pensava para si.
As mulheres na sala cabeceavam frente ao televisor, alheias
às vidas que se faziam ou desfaziam no fundo do quintal.
Insistiam em não se deitar e murmuravam algo de quando em
quando.
Joaquina, tu és uma mulher de resolver coisas.
Sou pragmática.
Isso é o mesmo que empírica?
Mais ou menos, Carmo, mais ou menos.
Capítulo XIII
O lanche
Tagarelavam, sem se ouvir umas às outras, como se não
houvesse amanhã, resumiam as suas vidas a frases sobrepostas, se calhar as
vidas eram isso mesmo, de repente calaram-se, ainda se escutou a Carmo
atrapalhada palrar sobre pladures e azulejos, sem que ninguém entendesse bem o
que faziam materiais de construção na conversa, nem quem era uma tal de Maria
do Carmo.
Pousaram as chávenas sincronizadamente e fixaram o olhar na Rosa
que tinha arranjado o encontro entre elas, numa pastelaria em Campo de Ourique.
Tinha ponderado e ao palacete não voltaria mais, regressar ao local do crime,
só nos filmes.
Joaquina, tu és fundamental para desenvincilhar este enredo,
és a peça chave.
A Quinita, com resguardo, desabafou que tinha saído magoada
do palacete, despachada de um dia para o outro, sem explicações, pelo pai do
Eduardinho, o senhor conde, ou filho do senhor conde, não percebia grande coisa
de títulos, que nunca estava quando era preciso, nos primeiros dentes do miúdo,
a primeira febre, a varicela. Sentiu um calafrio ... era, decerto, o ar
condicionado, que lhe batia na nuca, pôs um casaquinho pelos ombros,
queixaram-se todas da mesma coisa, ainda nos constipamos, diziam, mania disto agora,
vem o calor e arrefecem os estabelecimentos, pior é na seção dos frios dos
hipermercados, vai-se buscar uns iogurtes e vimos de lá engripadas.
Despachada assim sem mais nem menos? Perguntou Esmeralda.
Sem mais, nem menos! A Rosa sabe bem disso, estava lá, sabe
mais daquela casa do que eu, que fechei esse assunto na minha memória. Que
fizeram ao menino, levaram-no para o Minho?
Não, achas? Passou de ti para mim, pobrezinho. O pai pôs-te
na rua e a seguir partiu ele, disse que tinha uns assuntos a tratar no
estrangeiro, imagina. Deu-me uns poucos de contos de reis para que não faltasse
grande coisa à criança. Sabes que de finanças aquilo já não andava bom, depois
da morte da patroa velha, piorou, ainda era quem punha alguma ordem na casa.
Agente já está habituadas a viver com as nossas reformas
miseráveis, aquela gente, não, eu lá me governo com a minha irmã na Malveira, o
pior é que está muito teimosa, surda que nem uma porta, olhem que a surdez
aliena, pergunto-lhe alhos, responde bugalhos, a televisão sempre aos gritos, mas
temos que nos amparar, é para isso que servem as famílias, logo eu, sem filhos,
não é que isso faça grande falta, os jovens hoje ou ficam em casa para o resto
de uma vida ou saem antes do tempo, até para estudar vão para fora do país, com
universidades tão boas que por cá há, põem-se a estudar lá nos confins da Europa, nem sei como
aprendem, nem como se fazem entender, com aquelas línguas todas arranhadas,
antigamente não era nada disto, iam para Coimbra, saiam de lá doutores e com um
sotaque apuradinho, soubesse eu o que sei hoje, tinha estudado, cursado
direito, bem sei porquê, noutra ocasião conto-vos, hoje não, que não estamos a
avançar nada com o assunto que nos trouxe, o inferno porque passei naquele
casarão, a Esmeralda sabe, contei-lhe quase tudo quando para lá me foi
substituir. Tu, Quina, nem imaginas.
Não me chames isso! Quina é de quinar, Quinita é de
Joaquinita. E desenvolve, mulher!
Pronto, não te aborreças. Depois da tua saída, as coisas
pioraram muito, tanto que nem imaginas.
Suspirou profundamente, conseguindo todos os olhares da
pastelaria.
A Esmeralda enrolava o guardanapo com os dedos e não se dava
conta que se ouviam os seus pensamentos pelos lábios, o mealheiro que não tinha
conseguido fazer, a passagem para Cabo Verde que não iria comprar, o tempo a
passar, sem noivo, nem no Mindelo, nem na Cidade da Praia, nem na Amadora, ela
na flor da idade, mas as primeiras pétalas a cair, o risco que corria de já não
lhe pegarem, nem queria pensar nisso, filhos, tinha que ter filhos, não queria
ser como o patrão, morta sem descendência, ainda que sem nada que lhe herdassem,
ou como a Rosa já desfolhada, a viver algures com uma irmã.
Rapariga, reagiu Rosa, não sejas tola, não te murcha nada tão
cedo, ainda por cima bonita como és, toma juízo e vai a uns bailes,
pretendentes e trabalho não te faltarão.
Para onde irei morar?
Ainda estás no Palacete?
Até que me ponham fora …
Pois aí é que a porca torce o rabo. Eu não me conformo que o
Estado tome conta daquilo, já se sabe como é o Estado a cuidar das coisas, cai
aquele património todo aos pedaços. É aqui que tu entras, Joaquina, tens que
ajudar a completar as lembranças. Tem que haver um parente, um primo em segundo
ou terceiro grau, qualquer coisa, mulher, diz, conta tudo o que possa ajudar,
alguém que fique com a casa e que dê guarida e posto de trabalho à Esmeralda,
que pinte aquelas paredes, puxe brilho ao chão, forre sofás, repare candeeiros,
substitua colchões, se desfaça de tanto livro velho, apare a relva, pode as
árvores, corte as trepadeiras.
Joaquina levantou os olhos para o teto, em sinal de quem puxa
pela memória, de quem vasculha o passado.
Ajeitava o casaquinho nos ombros e ensaiava as primeiras
palavras, quando a Rosa a interrompeu.
Espera. Não quero segredos entre nós, nenhuns, antes de irmos
aos parentescos, esperem!
Estás branca, que se passa?
Eu fui acusada e condenada por matar a menina Amélia.
Joaquina tirou o casaco dos ombros e abanou-se com o prato
vazio das torradas.
Esmeralda deixou cair o guardanapo que ainda enrolava no chão
e quando levantou a cabeça cruzou o olhar com o empregado da pastelaria que atentava
nos seus seios firmes e lhe piscou o olho. Corou à maneira do moreno dela e
piscou o olho de volta.
Sim, o Senhor me perdoe, matei-a, para proteger o menino e
ele morre-me agora, desta maneira, sem jeito nenhum.
Começou a chorar.
Joaquina arrastou a cadeira e aproximou-se dela, aproveitou
para se desviar ainda mais do ar condicionado e pegou-lhe na mão, apertando-a,
como consolo.
Esmeralda comoveu-se, levantou-se para ir à casa de banho,
retocar-se, sorriu sem malícia ao empregado, sentiu um formigueiro no estômago
e olhou para a mão dele onde não vislumbrou aliança, nem marca dela, na pele
pálida como a cal, nunca tinha pensado em homens brancos, senão hoje.
A menina Amélia nunca gostou da criança, nos primeiros tempos
a indiferença era total, nem parecia que o tinha parido, entregue aos colos,
biberões e papas da Joaquina, ao teu carinho, Quinita, o menino só tinha olhos
para ti, quando partiste entristeceu muito, chamava pela Ita, ainda falava meio
à espanhola, eu tentai compensar a tua ausência, mas nunca fui mulher de muitos
carinhos, quando se nasce numa casa humilde, como a minha, não há tempo para
isso, lá o punha na cozinha, enquanto descascava batatas e cebolas, assobiava
umas modinhas, que ele gostava de ouvir, dava-lhe banho, tirava-lhe as ramelas,
sentava-me ao lado dele para fazer a sesta, desfolhava uns livros com gravuras,
porque ler me dava dor de cabeça e naquela casa a literatura era toda
complicada, mas não era de o mimar, de o tratar como um filho, como tu parecias
fazer. Enfim, cada uma é como é. Ainda assim apegamo-nos muito, acho que até a
uma osga o rapaz se apegaria, à falta de qualquer ser humano que olhasse por
ele. Quando o puto começou a medrar, a mãe foi-se aproximando dele, andava
pelos 5 anos de idade, mais ou menos, primeiro curiosa, cheguei a pensar que o
instinto materno começava a dar sinais, passaram a almoçar juntos, ela nunca
jantava, senão umas migalhas de pão com chá, trancada no quarto, mas logo dei
conta que me enganava, a menina Amélia era crua, fria, olhava-o com desdém,
embirrava com o que o pequeno comia ou não, com a posição na cadeira, com o
lavar das mãos, por mais que lhe garantisse que estavam asseadas, com o cabelo,
ou porque estava grande ou pequeno de mais, que ficava orelhudo com as
carecadas, que a roupa não lhe assentava bem, os calções largos ou subidos
demais, que estava magrinho ou gordo em excesso, que não sabia a quem saía o
gaiato, à nobreza dela não, que estaria melhor nas estrebarias ou a cortar
ervas nos jardim, que nunca seria nada de jeito na escola, não lhe encontrava
grande inteligência, que comia de boca aberta, era o que dava ser educado por
criadas ... Depois os maus tratos verbais transformaram-se em físicos,
beliscava o Eduardo todos os dias, ficava cheio de nódoas negras, empurrava-o
com força quando se cruzava com ele, exigiu que ele passasse a comer na
cozinha, por vezes acordava menos agressiva e queria pentear-lhe os cabelinhos,
cheios de caracóis, e só o deixava quando o couro cabeludo já sangrava, o auge
deu-se numa noite de consoada em que o pai, esperado, não apareceu, tínhamos
feito uma linda árvore de natal, meia dúzia de brinquedos embrulhados, um
presépio, luzinhas a apagar e acender, a mesa posta para a ceia, mas as horas
foram passando, do Conde nem notícia, nem um telefonema, um telegrama com uma
desculpa esfarrapada, a dizer “perdi o comboio, ponto, tive um furo, ponto,
morri, ponto”. Eram umas onze da noite e ela destruiu tudo, estrelas
cintilantes, bolas de brilho, a cabaninha com a sagrada família, o rei mago
preto, desculpa Esmeralda, atirado à testa do petiz, o recheio do peru pelas
paredes, a lampreia de ovos no chão, a criança a chorar, ela esbofeteou-o e
disse-lhe que o pai dele era tão real como o pai natal, não existia, empurrou-o
para o quarto e fechou-o à chave.
Valha-me Nossa Senhora!!
Dai em diante foi sempre piorando. Eu que não sou de beatices
como tu, Joaquina, rezava o terço todas as noites, para que aquela mulher não
saísse do quarto para atazanar o filho. Deus ouvia-me e aparecia cada vez
menos, mas sabem como é o diabo, sempre à espreita, e de vez em quando lá vinha
ela por ali a baixo, parecia possuída, em camisa de noite, cada vez mais magra,
falava sozinha, esbugalhava os olhos à procura do menino, já nem precisava de
pretexto, batia-lhe sem misericórdia, tinham que ver a cara de incompreensão
dele, mas o mais estranho é que raramente chorava, nem fazia por fugir,
aguentava aquela tortura muito caladinho, sofrido, magoado, encolhido num
qualquer canto de uma parede, eu impotente, para não me meter em assuntos de
família e para ver se não perdia o trabalho, por várias vezes dei a entender ao
pai, quando raro se deixava ver, mas ele dizia-me que mãe é mãe e que ela lá
saberia, deixava um carrinho desportivo, com cores muito berrantes, para o
garoto brincar, dizia que eram ferraris
e bugatis, nunca me irei esquecer
dessas marcas, eu que mal distingo os carros uns dos outros, para mim ou são
grandes ou pequenos, como só ando de camioneta, tanto se me dá.
E depois?
Depois a gaja foi apurando a maldade. Já não havia terço rezado
que a fechasse no quarto, vela a Nosso Senhor que eu acendesse que a travasse,
a crueldade via-se nos olhos dela, o demo em pessoa, as sovas cada vez maiores
e mais frequentes, os dias especiais, como o aniversário dela, do marido, do
filho, a páscoa, o entrudo, qualquer feriado nacional, eram os piores. Um dia
ausentei-me para umas compras, quando cheguei só me lembro de ver o menino pelo
chão, a ser pontapeado, queria acabar com ele, uma poça de sangue a encharcar o
tapete, nunca consegui tirar essa nódoa.
Ainda lá está, contestou a Esmeralda, o Eduardo nunca me
deixou limpar essa mancha.
Pobrezinho, soluçou Joaquina, e depois?
Depois tive que escolher entre uma vida ou outra, ou acabava
com a dela ou acabava ela com a do menino. Não tive muitas dúvidas, não sei onde
fui buscar o sangue frio, dei-lhe uma dose de comprimidos desfeitos no chá tão
grande que nem um cavalo aguentaria, gatafunhei um bilhete para parecer um
suicídio, mas a polícia não foi nessa, fez para lá algumas perícias e mal me
chamaram confessei tudo.
E depois?
Depois fui detida. Três anos à espera do julgamento. Quando o
fizeram, disseram-me que podia ir para casa, que era culpada, mas que estava livre
por já ter cumprido a pena e por ter muitas atenuantes, eram três juízas, não
me maltrataram muito.
E o Eduardo?
Durante esses anos o pai encarregou-se dele. Quando sai da
cadeia, pensei que já não me queria lá em casa, ainda assim liguei-lhe e o
homem implorou que voltasse, queria libertar-se da prisão dele que era o filho.
Filho …
Pois!
Afinal de que morreu o Eduardo, doença prolongada?
Rosa tossiu um pouco e a Esmeralda, contorcendo-se ligeiramente
na cadeira, agarrando outro guardanapo para enrolar nos dedos, disse que não se
sabia bem a causa da morte, ainda estava a ser investigada, ela entrara na
biblioteca e tinha-o encontrado descomposto, braguilha aberta, mas sem que se
vissem as partes, um saco de plástico enfiado na cabeça, sufocado, parece haver
gente que gosta dessas fantasias, nunca suspeitei, sempre tão recatado, que me
lembre lá em casa só entrou uma mulher, mais velha do que ele, há uns meses,
muito elegante, mas foi sol de pouca dura, nem sei o que fizeram, pois ele
pediu-me para tirar a tarde, nunca mais a vi, a polícia quer saber quem é, anda
a vasculhar tudo, confirmar que não foi um homicídio disfarçado de suicídio ou
um descuido de respiração, diz que às vezes prendem o ar tempo de mais e depois
já não há recuo, eu ando aflita, já se sabe que entre a senhora fina e uma
escurinha como eu, quem vai ser a culpada, ainda por cima havendo já tradição
na família de as criadas despacharem patrões, tu desculpa, Rosa.
E para que prendem a respiração dentro de sacos de plástico?
Parece que é para ter orgasmos, Joaquina?
Credo em Cruz, Santo Nome. E o pai, ainda é vivo?
Não sei, pouco adianta que seja, pois quando o Eduardo
atingiu a maioridade desperfilhou-o …
nunca mais ninguém o viu, nem uma carta, um telefonema, não quis mais saber de
um filho que não era dele, os tempos mudaram e também já não precisa de se
justificar, os pais lá no Minho já se tinham finado, meteu uns advogados,
fizeram o teste de paternidade e já se sabe … não era dele, nem podia, que o
homem era feio como a morte e o nosso Eduardinho tão lindo. Ainda assim,
justiça lhe seja feita, para que não passássemos mal, depositou dinheiro numa
conta à ordem dele, diz que vendeu o solar do Minho e se meteu num avião com um
gabiru para o Brasil. Foi tudo quanto soube dele.
Menos mal. E que fazia o Eduardo já em grande, que trabalho
tinha?
Tirou o curso de economia e começou a trabalhar nuns
escritórios ali para as Amoreiras. Quando o vi orientado, reformei-me e
arranjei-lhe a Esmeralda.
Que vidas ... o que me está a fazer espécie é isso do saco de
plástico. Oxalá não fosse um tarado.
Se deu em tarado, foi por culpa da mãe e dos pais que nunca
teve. Era bom moço e se as partes não estavam expostas até pode não ser nada do
que estamos a pensar, muitos homens esquecem-se de puxar o fecho das calças.
Deve ter sido só isso, a Esmeralda já disse que não era homem de relações.
Então e de parentes, que te lembras tu, Joaquina?
Filhas, tenho estado aqui a ouvir-vos e ao mesmo tempo a
puxar pela cabeça, tenho uma patroa que me diz que sou multitask, que são as pessoas que fazem várias coisas ao mesmo
tempo, também dizem que sou empírica, vamos lá ver se isso ajuda agora. Aquilo
era uma família de gente morta, não vejo quem possa ter sobrevivido, havia uma
prima velha da Srª D. Isabel, sem filhos, lembras-te, aparecia lá uma vez por
ano para lanchar, carregada de luto, parecia a morte em pessoa, custava a dizer
bom dia, muito altiva, dessas do antigamente, só se houver alguém do lado do
pai.
Do pai? Já te disse, mulher, deixou de o ser, assim não pode
haver parentes legais dessa banda.
Não, Rosa, do pai, pai, do motorista, aquele pedaço de homem,
que lindos olhos, espadaúdo, a menina Amélia só era parva para o que queria,
que foi feito dele?
Ah, isso era grande mariola, atrevido, até a mim que já era
mais graúda arrastava a asa, um rapagão, nunca percebi porque é que a Srª D. Isabel
o aceitou ao serviço, porque ele já vinha falado de outro palacete, cobiçava as
patroas, as filhas, as criadas, as vizinhas, fogoso e bonito como era … mas bom
profissional, aquilo dirigia um carro como ninguém e a velha gostava dele, se
calhar pensava que naquela casa nada emprenhava e afinal …
Como é que ele se chamava, já não me lembro?
Abel Teodósio, era do Entroncamento e devia ter algum
fenómeno entre as pernas.
Riram-se.
Esmeralda, larga lá o telemóvel, agente aqui numa conversa
tão séria e tu nas internetes, de certeza.
Estou à procura desse nome no facebook, aparecem-me sete Teodósios no Entroncamento, vejam lá
este, também tem olhos claros, é novo, mas pode ser da família.
É bonito, sim senhor e dá ares. Tem mais fotografias? Mostra
lá, põe isso maior no ecrã.
Olha, aí está numa foto com um velho. Joaquina, vê lá se não
é o Abel em velho? Parecenças não falta. Como a pessoa se faz, tão jeitoso que
era, tão acabado que está, mas a cara é a dele.
O rapaz escreveu na legenda “querido avô, faz hoje um ano que
partiste” e pôs muitos corações.
Ahh, finou-se também!
Mas esse gozou bem a vida …. Consegues contactar por aí com
esse? Confirmar se o avô se chamava Abel?
Vou mandar-lhe uma mensagem. Se calhar vai achar estranho.
Primeiro vou pedir-lhe amizade, pode ser que ele aceite!!
O quê?
Isto funciona assim, agente pede amizade uns aos outros.
Sem se conhecerem?
Sim, pode ser.
Coisa mais sem jeito, mas pede lá!
Já pedi.
E ele?
Calma, pode estar offline
ou não aceitar.
Que é isso do offline?
É tipo desligado.
E se não aceitar a tua amizade?
Posso mandar uma mensagem na mesma.
Está certo.
Como é que ele se chama??
Eduardo, Eduardo Teodósio …
Daqui a bocado isto fecha!
E o Eduardinho, Esmeralda, fez-se um bonito homem, como o
pai, pai?
Era atraente, mas andava sempre triste, perdia a graça por
causa disso, mas ainda assim ...
Não tinha facebook?
Não, só lia, só lia. Tenho aqui uma fotografia dele, quer
ver?
Ai rapariga, já devias ter dito … mostra!
A Esmeralda passou-lhe o telemóvel, Joaquina olhou para o
retrato dele e caiu desfalecida no chão da pastelaria, balbuciou qualquer coisa
sem sentido, as amigas numa aflição, o empregado bonito e branquelas chamou o
112, a Esmeralda aproveitou para trocar nomes e números de telefone com ele,
para se pedirem amizade nas redes sociais, para começarem um namoro dai a uns
dias, a Rosa voltou apoquentada para a Malveira da Serra, mas esperançosa que
houvesse parentesco no Entroncamento, contou tudo em voz bem alta à irmã,
exceto a parte do saco de plástico, para quê lançar suspeitas em cima de um
defunto, a Joaquina foi deixada em casa, uma quebra de tensão, contou tudo à
Carmo, incluindo o episódio do saco de plástico, em voz baixa, para que os
miúdos não ouvissem essa parte, a amiga não valorizou, cada um tem as suas
manias, tentou contar as suas, mas Quinita travou-a, aquela não era a hora e
tinha que se recompor, pois amanhã era dia de trabalho.
Então e em que ficaram?
Não sei, deixa lá ver se o do Entroncamento diz alguma coisa
…
Olha que há coisas na vida! Quem te diria que serias tu a
única a velar pelo teu menino de criação …
Ainda nem estou em mim.
Capítulo XIV
Virgínia
Para sua surpresa, encontrou a chave do apartamento da Praça
de Londres à primeira, nunca tal lhe tinha acontecido, abriu a porta e encostou-a
devagarinho, sem ruído, ouvia-se uma música, baixinho, admirou-se por ver a Srª
D. Virgínia a engomar, ferro na mão direita, a mão esquerda na anca, postura de
grávida, perguntou-lhe o que fazia, ela respondeu que adiantava o serviço, as
filhas iam passar um dia a casa dos avós paternos, que estavam a insistir
muito, ela também precisava de descansar, andava enjoada, a gravidez e a vida,
juntas, duas mortes numa semana, só pensava em comer, para depois vomitar,
comentou que ia ficar uma baleia, velha e com um filho a mais para criar.
Já sabe se é menino ou menina?
É menino.
Tirou-lhe o ferro da mãe, ela aceitou sem resistência e
acendeu um cigarro, disse que tinha fumado sempre na gravidez das meninas,
antes que a empregada a censurasse, para além do olhar.
Se não fumasse, ia odiá-las para sempre.
Não diga isso, minha Senhora.
Acredite, detesto parir, isto já deveria ser tudo in vitro, parece que estamos na idade
média, ou um ror de sangue entre as pernas ou abrem-nos a barriga a meio para
tirar as crias. Já experimentei das duas maneiras, não sei qual a pior, agora
mais este.
Não diga isso, minha Senhora. Já escolheu o nome para o
menino?
Eduardo, vai-se chamar Eduardo. Senhora Joaquina, olhe que
queima o vestidinho, nem parece seu … vou-me encostar um pouco. Hoje não
aspire, pelo amor de Deus, não aguento barulhos.
Desculpe, desculpe. E o enterro do seu marido?
Família, faltaram lá as galdérias com que andou em vida!
Deus irá julga-lo.
Oxalá seja o diabo.
E o funeral do outro seu amigo?
Esse pobre coitado, acabei por não ir, prefiro lembrar-me
dele vivo.
Se não for indiscrição, como se chamava ele? É para eu lhe
rezar pela alma.
Eduardo, chamava-se Eduardo. Não reze pelo meu marido, se faz
favor.
Se não quer, não rezo.
Pelo Eduardo sim, para que olhe por este que vem a caminho,
que eu não sei se terei paciência.
É ele o pai, Srª D. Virgínia?
Foi ele que o fez, sim, Joaquina, pai já não será.
Quinita não empalideceu, nem desfaleceu, nem queimou a roupa,
nem suspirou, nem nada, porque o seu coração já a tinha preparado, a vida era
feita de desencontros ou de coincidências em demasia.
Quando acabou o serviço, antes de sair, Virgínia pediu para
lhe dar uma palavra, explicou-lhe que o marido estava endividado até ao
pescoço, muito para além do que ela poderia supor, o dinheiro deixado era para
honrar compromissos, disse-lhe que iria vender o apartamento e comprar outro
mais pequeno ou não bairro menos caro, para ficar com alguma liquidez, que por
agora a teria que dispensar, um dia mais tarde, ver-se-ia.
Joaquina ripostou que não, que ia ficar com as quintas-feiras
livres e não lhe custaria nada ir dar um jeito à casa, fosse ela onde fosse,
não as ia deixar, nem ao Eduardinho que vinha a caminho, sem apoio, um dia
fariam contas, que tudo se iria compor.
Perguntou à patroa se sabia tirar Selfies.
Virgínia riu-se, disse-lhe que sim.
Perguntou se podiam tirar uma selfie as duas.
Virgínia estranhou, mas disse que sim.
Tiraram a foto.
Olharam para a foto.
Estou tão velha!
Que direi eu, minha senhora. Agora vou juntar a fotografia ao
contacto, isso sei fazer. Até para a semana.
A patroa limitou-se a dizer até para a semana se Deus quiser,
expressão que nunca tinha usado, mas nos últimos tempos tinha compreendido que
nem tudo era como ela queria.
Joaquina estivera a um passo de lhe mostrar a fotografia do
Eduardo que a Esmeralda lhe tinha enviado por mensagem, mas decidira não o
fazer, pois as certezas eram cada vez maiores e estava sem tempo para contar
esta intrincada história a correr, era enredo de se relatar devagar, sem
enjoos, as duas sentadas na sala com um chá, a Srª D. Virgínia recostada na chaise longue, ela na senhorinha, costas direitas, casaquinho pelos
ombros, não como patroa e empregada, a relatar o incrível, a explicar como Deus
escreve direito por linhas tortas, a irradiar uma tranquila felicidade por
afinal o seu menino ter deixado semente, oxalá fosse boa, não puxasse à avó,
deficiente, mas se sabia que era menino era porque andava acompanhada, o feto
não devia padecer de nenhum mal, ou já lhe teriam dito, sentiu um calafrio por
pensar o bebé descendente daquela nobreza ruim, menos o Eduardo, coitado, uma
boa criatura, apesar daquela situação do saco enfiada pela cabeça, mas essa já
tinha ido para o túmulo com ele e não há
pano onde não caia a nódoa, não seria por isso que lhe trancariam as portas do
paraíso, quer lá S. Pedro saber de fantasias do amor, quando meio mundo está em
guerra, calculava a fila lá nos céus para os culpados dessas desgraças,
fantasias quem não as tinha, ela própria se aproximava demais do coveiro quando
se sentavam a conversar, com a desculpa que rodava a sombra do cipreste, já de
si, curta, mas a verdade é que nunca procurava o fresco de árvore maior, só
aquela, sabendo que os seus corpos quase se tocavam, isto antes de o saber
casado, claro está, adultério era pecado dos graves, escrito em tudo o que era
mandamento, com sacos na cabeça nunca o Senhor tinha perdido tempo.
Deu uma palmada a direito na saia, enquanto esperava pelo
autocarro, pegou no telefone para convocar a Rosa para o próximo domingo, mesmo
local e hora, que não perdessem mais tempo com pesquisas no Entroncamento, pois
tinha a solução em Lisboa, com descendência mais a direito, com gente fina que
poderia herdar um palacete, ao fim e ao cabo, que fariam pessoas mais humildes
com um casarão daqueles, para quê desenterrar um passado que os próprios desconhecem,
como lhes explicar o preceito de por uma mesa, de comer com talheres de prata,
da quantidade de copos que é preciso utilizar, usar o certo de cada vez, enfim,
complicações escusadas.
A Rosa não concordou, disse que toda a gente tinha direito a
subir na vida, a Joaquina subscreveu, mas rematando que tinham que fazer por
isso, não só porque lhe caiam palácios e cristais em cima da cabeça, fruto do
abuso de uma deficiente, a Rosa retificou, chamou-lhe ruindade ao invés de
anormalidade, a Joaquina disse que era um bocadinho das duas coisas, que tinham
que decidir por unanimidade, no domingo, que ainda ia ligar à Esmeralda e pouco
faltava para se acabar a bateria do telemóvel, o que não era verdade.
Entrou no autocarro e exibiu o passe com veemência, ralhou
com o motorista, que não olhava em condições para a validade, só um
desinteressado canto do olho, quantos passariam sem o título válido.
Sentou-se distraída no lugar das grávidas e idosas, sentia-se
por demais empírica e resolvedora de coisas, que boa ideia ter tirado a selfie com a patroa, para mostrar à
Esmeralda e confirmar de vez todo este suspense.
Na paragem seguinte entrou uma velhota, rondava os oitenta
anos, prostrou-se frente a ela e a Joaquina deu-lhe uma moeda de um euro, sendo
repreendida de imediato.
Não sou nenhuma pedinte, minha senhora, só quero o lugar que
me está destinado. Deve ser daquelas que também estaciona no lugar dos
deficientes, que gente tão malformada.
Joaquina saltou do banco, sem endireitar a saia e fugiu para
a porta de trás para sair na paragem seguinte, vermelha como um tomate.
Já na rua, encostou-se à sombra da paragem. Sou tanto
empírica, como despassarada, Deus permita que não esteja a fazer uma grande
confusão com tudo isto … Rezou uma salvé rainha e levantou a mão para um táxi.
Para casa, por favor.
Para a sua ou para a minha, minha senhora?
Ruborizou e respondeu, para a casa do Senhor, melhor dizendo,
para a igreja dos Anjos.
Nessa noite relatou tudo quando chegou a casa, os miúdos de
boca aberta, sem perceber metade, a Carmo de boca fechada, mas de olhos bem
arregalados, até para ela, moderna, aberta a experiências, tudo aquilo parecia confuso,
romance demais, coisa de novela.
Deus me livre, só falta descobrires que eram irmãos, isso vai
para lá dos Maias mulher, vê lá se não andas a fazer uma grande confusão, se o
morto é o mesmo, se a prenha também, há mais Marias e Eduardos na terra, até o
parque, agente é que já não liga, mas ter um jardim daqueles, de onde se vê
toda a Lisboa, com o nome de um rei inglês, é coisa nunca vista, com tanto
soberano capaz que tivemos, um D. Dinis, um D. Manuel, enfim, mais agora que
vão sair da Europa, eu cá mudava o nome, sei que dá alguma despesa essas
mudanças, mas este país já esbanja tanto dinheiro, olha o que fizeram com os
correios …
A mulher, essa história dos CTT, deixa, o que lá vai, lá vai.
E chamavas-lhe o quê?
A quem?
Ao parque!
Olha, para mim o mais jeitoso foi o D. Pedro, não me perguntes
o número, o que também andou lá pelo Brasil.
Mas foi esse que lhes deu a independência.
Já pensaste se se tivessem mantido portugueses? Sambavam ao ralenti
e as telenovelas não tinham metade da graça. Também podia ser parque maior,
tínhamos o parque Mayer cá em baixo e o maior em cima.
Riram-se.
Temos que ir a uma revista, Joaquina, o Ruben não fala de
outra coisa.
A seu tempo.
Deus queira que esse romance do Eduardo morto tenha um final
feliz.
Tenho essa esperança, Maria do Carmo.
A Joaquina disse aos rapazes para lavarem os dentes e se
deitarem, já passava das onze da noite, os novos têm que dormir mais, os velhos
menos, para aproveitar o que lhes resta da vida, o sono rouba o tempo, é um
pronúncio do depois, da escuridão, tinham que o retardar e manter os olhos bem
abertos, a partir de certa idade a foice começa a andar à espreita.
O Ruben insistiu na ida ao Parque Mayer e disse que queria
frequentar os alunos de Apolo.
Para dançares?
As duas coisas.
Que duas coisas?
Dançar e cantar.
Ahh, dançar nunca te vi, cantar cantas bem, vai ensaiando
umas coisas revisteiras, não te apegues a fados muito tristes, podemos
inscrever-te na marcha da Graça ou da Mouraria, queres?
Sim, na da Mouraria, é mais ganhadora.
Então vá, isso não nos sai do bolso, pode ser, depois agente
vê como te inscrever, se cantares bem e te bandeares melhor, pode ser que
alguém repare em ti, mas cuidado com os sonhos, o estrelato é difícil de
alcançar e sem estudos não passarás de um figurante, tens que saber ler,
declamar, interpretar, isto já não é como antigamente, que bastava ter meio
palmo de cara, além de que ainda não sabemos como te farás em homem, por agora
és bonito, mas às vezes as feições mudam. Estilo, educação e estudos, são os
três És, percebes?
Sim, tia Joaquina. Só mais uma coisa.
Diz, anda.
A Srª D. Virgínia não pensará perder o filho?
Perder como?
Fazer aquilo, tirar a criança antes de nascer.
Abortar, Ruben? E porquê?
Porque ela só queria ter o filho de outro para jogar na cara
do marido, mostrar que ainda era uma mulher, desejada por outros, agora que
todos morreram já não precisa disso.
Que sabes tu de mulheres, rapaz!! Vai-te deitar.
Carmo, tu achas …
Quer-me parecer que sim … inscrevemo-lo nas marchas e depois
vê-se para que lado se bandeia mais.
Bom, se tem que ser esse o destino do garoto.
Que seja, eu já estou por tudo.
Pode ser que ainda fique famoso. Voz tem, figura também, não
o vejo é ainda vestido de Guida Scarlatti.
Tu, cala-te, não me faças rir, que eu não sei ainda o que
fazer ao morto, ao filho dele e à mulher que o carrega.
Tu resolves tudo, como sempre!
Capítulo XV
Mais Prazeres
O coveiro viu Joaquina a entrar pelo portão do cemitério e
acelerou o cocheio na sua direção, que era feito dela, por onde tinha andado,
não havia vivo nem morto que lhe pusesse os olhos em cima, os defuntos andavam
a estranhar, calculava ele, não que nenhum se tivesse queixado diretamente,
para ser sincero, ele próprio sentia falta, dela, do cheiro a lixívia, passava
umas mangueiradas nas campas, mas não era o mesmo, o tempo ia muito empoeirado,
o céu de Lisboa não parecia o mesmo, acastanhado, diziam que era das areias que
sopravam do deserto do Saara, ele não acreditava, talvez dos fogos, mas
preocupado mesmo estava com a tumba do Sottomayor, nem a data do nascimento
tinha para lhe inscrever numa pedra, só a data da morte, ninguém pode ter data
de ir, sem a data em que veio a este mundo, essa é que nos marca o passo para
toda a existência, nem que seja para mancar, como eu, fotografia tão pouco,
para que alguém, um dia, o pudesse chorar, lhe visse a cara, sobretudo quando
se é bonito, tinham visto que sim, bem apessoado, cara triste, apesar de morto,
há uns feiosos que mais vale ter só as datas, para que cada um fixe a imagem
que lhe apetecer, é como o feitio, depois de mortos tornamo-nos todos melhores
para os que ficam, ninguém se atreve a dizer mal de uma alma, que era má como
as cobras, ruim, avarento, ganancioso, os cadáveres são sempre poços de
virtudes.
A Joaquina sossegou-o, vinha para deixar o Eduardo apresentável
a quem um dia o quisesse lamentar, lacrimejar, lamuriar, pousar umas flores,
rezar um padre nosso, passar com o dedo suavemente no retrato, fazer só um
minuto de silêncio e partir, porque dali já não se levava nada, senão saudades
e ausências, vinha porque trazia identidade completa, data de nascimento e
fotografia, essa parte tinha-a resolvida, o que não sabia era que destino dar à
vida do morto.
Destino depois de morto?
Joaquina já misturava água e lixívia num balde, enviava uma
esponja lá dentro, de joelhos, não para rezar, mas para deixar a campa alva.
Vossemecê sabe lá as voltas que o mundo dá por causa de um
morto, este parece destinado a andar às cambalhotas, já em vida assim foi, já
em vida, sente-se lá, a história é comprida, e com essa perna, mais as minhas
cruzes, não é conversa para se ter de cócoras ou de pé.
Não o poupou a nada, porque nos detalhes anda o mafarrico,
Deus só se ocupa de coisas maiores, por isso deixa as miudezas para o demo e é aí
que ele se agarra. Fez-lhe um relato muito completo dos factos já apurados e
das dúvidas que ainda a assaltavam.
Isso é história que tem que sair do túmulo, amiga Joaquina!
Pena esse episódio do saco de plástico …
A Esmeralda diz que anda por lá a judite, suspeitam que ali houve coisa, se calhar não havia tara,
nem foi suicídio, Sr. Seixas.
Mataram-no?
Era o melhor, seria um mártire, para não ficarmos com cucos
na cabeça quanto às fantasias do Eduardo, Deus queira que arranjem um culpado.
Ou culpada?
Uma mulher, quem?
Sei cá eu … a Esmeralda, a D. Virgínia.
A criadita? Coitada da rapariga, quer é casar e ter filhos,
mulatinhos como ela, bonita é, esta morte só lhe veio causar transtornos, ainda
fica sem teto para morar, a qualquer momento pode ter ordem de despejo, nem sei
por quem, porque a casa agora está sem dono, mas algum dia o terá, na minha não
cabe mais ninguém, com a outra história da Adelaide, espere, não lha contei,
deixe-se estar sentado que se pensa que ouviu tudo, ainda me cai numa cova, com
o enredo desta, ora escute!
A Joaquina ainda é beatificada, depois de morta, salvo seja.
Sou muito empírica, uma coisa não deve jogar com a outra, vá,
vamos lá por a data de nascimento e a fotografiazinha do Eduardo, que a água já
secou.
E a D. Virgínia, poderá ter sido ela?
Não, uma senhora tão bem formada …
Casada e que dormia com o falecido!
Mas não me parece pessoa de andar a sufocar homens, pelo
menos daquela maneira.
Senhora Joaquina, que é isso de ser empírica?
Ficou bonita, a campa, não ficou? Para a semana trago as
jarrinhas e as flores. Já não me ocupo de mais campas, só desta, acabou-se esta
minha benfeitoria. Até para a semana, meu caro amigo, e olhe pelo meu rapaz.
Adeus Senhora Joaquina.
Capítulo XVI
O tapete
Eduardo nunca abria a porta a ninguém, mas não pode ignorar a
mensagem no telemóvel “abre a porta, sou o marido da Virgínia”.
Não se estenderam as mãos. O homem seguiu-o até ao salão e
aceitou um whisky que não tinha pedido, sentou-se, acendeu um cigarro e
dedilhou com a mão esquerda na mesa de apoio ao sofá, fez cair um livro de
bolso, policial que estava pousado, que não apanhou do chão, perguntou ao
Eduardo se já tinha chegado ao fim, Eduardo franziu a testa, ao fim do livro,
clarificou ele, soltando uma gargalhada, perguntou quem tinha morrido, se já
tinham apanhado o assassino, se havia uma traição no enredo, Eduardo ruborizou,
respondeu, sim, asfixiado, a vítima morreu sufocada com um saco de plástico na
cabeça, o assassino tentou simular uma paranoia sexual qualquer, estou a chegar
ao fim, o homem deu nova gargalhada e disse, tudo tem um fim, nos romances e na
vida real, os culpados descuidando-se sempre, como a mensagem que a minha mulher
não apagou do telemóvel, que me permitiu chegar aqui.
A Virgínia é muito negligente, não tem códigos nem senhas
para nada, tenho a vida dela toda sequenciada, como um ADN, disse, com um ar
sério e os olhos postos no salão do teto, não me posso esquecer de apagar a
mensagem que lhe mandei a si, nem eliminar a minha do seu telemóvel. Bonitos
tetos. São tetos de caixão, é assim que se diz, não é verdade?
Eduardo sentiu um desconforto.
Afinal o que o traz por cá?
Ter um par de cornos, chega?
O homem levantou-se do sofá e apagou o cigarro num velho
cinzeiro de louça com um brasão desenhado.
São as suas armas?
Não, é um cinzeiro qualquer, não fumo.
Não tem cara de fumador, faz mal, nestas situações alivia ter
um cigarro nas mãos, sentir o fumo percorrer a garganta. Sabe, os cornos dos
homens são diferentes dos das mulheres, elas são preparadas para a
eventualidade de serem enganadas, todas tiveram um pai, um avô, um irmão, um
tio putanheiro? Já nós não, imaginaria acusarem a sua mãe de galdéria? Uma
mulher tem que se preservar, pelos filhos, e se um homem lhes disser que as
amam, vivem a felicidade plena, nesse aspeto as mulheres são mais burras do que
nós, amo-te, umas joias, crianças e o mundo é perfeito, não é Eduardo? Você tem
cara de Eduardo, não me leve a mal, mas os Eduardos que conheço são todos
panhonhas, há um que joga golf comigo que é ridículo, juiz, a forma como se
veste, o corte de cabelo, os óculos, parece saído de uma comédia americana sem
graça. O Eduardo parece saído de um filme nórdico, a preto e branco, triste,
com poucos diálogos, angustiado, naquelas casas de madeira em frente a um lago,
tudo igual e triste, não suportaria viver num sítio desses, só pelas suecas,
claro. Não é que você seja feio, é um pão sem sal, percebe? Já se deve ter dado
conta disso. Tem uns olhos bonitos, quase o verde da Virgínia, se calhar foi
por isso que se embeiçaram um pelo outro, mas um gajo não vive só dos olhos,
embora eu até com o olhar pine, ponho-as malucas, um vislumbre para os seios,
para as coxas, adoro coxas, faço sexo com os olhos, você não, de certeza, parece
aquele retrato do menino com a lágrima, aposto que foi o menino da lágrima
quando era puto, o saco de boxe da escola, ainda por cima de boas famílias, bullying, como se diz agora, modernices,
mas eu não sou moderno, sou à antiga portuguesa, um marialva, sabe aqueles
estudos bacocos que dizem que um homem pensa não sei quantas vezes por dia em
sexo? Eu não posso entrar nesses estudos, desvio a amostra, penso o dobro, e
assumo, outra coisa é ser um songamonga como o meu amigo, parece que não parte
um prato e, no entanto, enfiou o caralho no mesmo buraco por onde saíram as
minhas filhas ...
O homem pontapeou a mesa de apoio, depois, com uma serenidade
inquietante, acendeu outro cigarro.
Sabe, Eduardo, esse buraco, depois de a nossa mulher parir,
torna-se uma espécie de santuário, vamos lá uma vez por ano, mas é sagrado, só
tem um peregrino, que é o marido, o pai.
Apanhou o livro do chão e deitou-o para o colo do Eduardo,
que se mantinha sentado numa poltrona.
Leia as últimas páginas, Eduardo.
Creio que deveríamos por um ponto final a este encontro, a
sua mulher não tem qualquer interesse por mim, foi tudo um equívoco, eu próprio
não sei se me interesso por ela, creio bem que não.
Já vamos ao ponto final, leia o livro.
Desculpe, mas isto está a ficar esquisito, somos adultos.
Lê o livro, caralho!
Tutuou-o, deu-lhe um estalo que o deixou a sangrar da boca,
as pingas caíram sobre a velha mancha do tapete, como se o perseguisse, começou
a perceber porque é que aquela nódoa não se tinha deixado tirar após tantos anos,
ainda não estava completa, o sangue era o mesmo, o seu, sempre o seu, naquela
casa uns morriam, outros sangravam, ele estava cansado de sangrar, abriu o
livro nas últimas páginas e começou a ler em voz alta.
Lê baixo, lê para ti, caralho, eu sei como acaba, compro-os
no aeroporto.
Eduardo leu-o só para si, fechou o livro e disse, o
expetável, foi apanhado, o criminoso deixa sempre um vestígio.
Quem é o criminoso aqui, Eduardo? Sou eu? Ou tu, que deixaste
um vestígio inaceitável na minha mulher? Pior do que uma impressão digital,
deixaste o ADN todo, Eduardo, deixaste-a grávida, Eduardo, fodeste-me a mulher
e a vida!
Os olhos de Eduardo brilharam, como que a sorrir.
O homem fulminou-o com o seu olhar, viu como o seu rival era
bonito, como poderia ser amado por qualquer mulher, quiçá pela sua, como
poderia ser o pai que ele nunca seria, com o seu carácter básico e carnal, como
se odiava, como odiava a criatura que tinha à sua frente, como lhe apetecia
odiar toda a humanidade.
Sobre a segunda mesa de apoio não derrubada, vislumbrou uma
pasta com documentos, dentro de um saco de plástico, atirou a beata para cima
da mancha do tapete e desfê-la com o sapato, o tabaco misturou-se com o sangue,
Eduardo mantinha-se sentado, a sorrir com os olhos, ele tirou o saco, sem
pressas enfiou-o na cabeça do Eduardo, que não se mexeu, preferia morrer, parar
de sangrar, o saco humedecia, cada vez mais, à medida que o ar lhe ia faltando,
olhou uma última vez para a mancha, depois para o velho Leonardo, sentiu uma
forte ejaculação e deixou-se morrer.
O homem pensou, ou matei-o ou salvei-o de uma vida filha da puta …
Capítulo XVII
Eduardo II
Voltou a acertar na chave à primeira.
A Virgínia tinha voltado ao seu estado de estrela de cinema,
deitada na chaise longue, um livro no
colo, um cigarro pousado no cinzeiro, o fumo subia na vertical como os das
chaminés numa manhã fria de inverno, sem um pingo de vento, manhãs de céu azul,
como só as havia em Lisboa e chaminés a fumegar como só as havia no Alentejo,
persianas meio corridas.
Abriu-as, sem pedir autorização, e sentou-se numa senhorinha
ao lado da patroa com um ar sério.
Que faz aqui hoje, Joaquina, não é o seu dia.
Vim ver como estava, como vai?
Vai em silêncio, a casa ficou silenciosa para sempre.
Daqui a uns meses vai precisar de silêncio e não o vai ter,
com o menino de goela aberta, a chorar, a querer comer. Tomara já ...
Estou cansada, vou ser uma mãe velha, sem paciência, um pai
morreu, o outro matou-se, as irmãs não estão particularmente entusiasmadas,
acham-me ridícula, uma grávida com a minha idade, têm vergonha. Ao fim e ao
cabo, ninguém o quer.
Mas disse-me que eram uma família católica, não se pode
desfazer do bebé.
Conversa de gente pedante como nós, não temos nada de
cristãos ou não estaria aqui sem esperança, de esperanças, sem fé nenhuma, a
pensar se devo ou não acabar com a vida que carrego dentro de mim.
Agora já é tarde, vai muito avançada.
Hoje em dia já se faz tudo.
Joaquina não hesitou mais.
Reconhece este homem?
Virgínia olhou surpreendida para o telemóvel da Joaquina e
levantou-se. Acendeu outro cigarro.
Joaquina, o que faz com a fotografia do Eduardo no telefone,
que loucura é esta, quem é você, que quer de mim?
Quero um final feliz, D. Virgínia. Tudo isto é muito
complicado. Já lhe vou explicar. Confirme primeiro, por favor. É deste Eduardo
que está grávida?
Sim, é ele. Não o devia ter feito, mas secava de carência, de
ser mulher, de carícias, de beijos, de um olhar, de fazer amor com alguém com a
certeza de que não estava a fantasiar com uma miúda qualquer com metade da
minha idade.
Pegou no telemóvel da Joaquina e olhou de novo para a
fotografia do Eduardo. O lábio tremeu um pouco.
Espero que não tenha acabado com a vida por causa de mim.
Normalmente as pessoas acabam com a vida por causa delas, por
causa das suas vidas, não dos outros.
Oxalá! Era uma criatura melancólica, o invisível lá do
trabalho, durante anos não reparei nele.
Deus o tenha!
O que é que você quer Joaquina? Eu já não creio em Deus,
quanto mais nas pessoas. Como sabe quem era ele?
Joaquina levantou-se da senhorinha, deu duas palmadas suaves
na saia para a endireitar um pouco, baixou as persianas, alguns assuntos devem
ser tratados com um pouco de penumbra, pensou, depois pigarreou, para que a voz
lhe saísse clara como já tinha o pensamento.
Virgínia serviu um quarto de copo de gin para cada uma.
Joaquina levou o líquido à boca e fez um esgar.
Não devia beber álcool, por causa da úlcera, ainda por cima
uma coisa destas tão forte, quem haveria de gostar disto era a Carmo, sabe, a
minha vizinha, a que agora vive lá em casa, acho que já lhe contei, a que era
amiga da Adelaide, a que servia aqui em casa, a que …
Joaquina, não morro de curiosidade pela vida da sua vizinha,
nem dos órfãos, cada um com as suas tragédias e eu já tenho as minhas, vê, como
de católica não tenho nada, o que eu quero saber, agora, é porque é que tem a
fotografia do Eduardo e o que quer de mim. Não lhe disse já que fiquei muito
perto de ter uma mão à frente e outra atrás? Se não vender rapidamente este
apartamento, o dinheiro acaba, aquele gajo estourou tudo, poupanças, nada,
ganhava rios de dinheiro, não percebo.
Voltaram a sentar-se as duas.
Confie em mim, por favor, Deus escreve direito por linhas
tortas e olhe que estas estão bastante torcidas, mas o destino é assim, às
vezes é preciso morrer para que nasçam mais vidas, olhe a Adelaide, não vou
falar dela e da minha vizinha, juro, já vai perceber, se não fosse a Adelaide
ter adoecido e partido deste mundo, eu não estaria aqui como sua empregada, e a
D. Virgínia nunca teria esta conversa comigo, nunca viria a saber que fui
criada de servir no palacete lá da Junqueira, que criei o Eduardo durante
alguns anos, que ele se foi sem ninguém, aquela família já não existe, aquele
sangue já não corre em ninguém, a não ser no feto que carrega dentro de si, que
é por isso, e para arrumar a sua vida e das meninas que o tem que deixar
sobreviver, que ele é o herdeiro de tudo e a senhora é sua mãe, espero que não
tome a decisão por haver casas apalaçadas envolvidas, mas porque perceba que o
dia em que se deitou com ele já estava destinado a fazerem esse filho, que ele
é a semente do Eduardo, que se sair ao pai dará um fruto lindo, de corpo e
espírito, deixe-o nascer, não lhe toque, foi feito para nascer, é a única
herança que importa.
Virgínia bebeu o resto do gin.
Joaquina fez o mesmo e deu uma gargalhadinha.
Acho que estou com os copos …
Riram-se as duas. Deram as mãos.
Este Eduardo vai nascer e a Joaquina será a madrinha!
Joaquina soltou uma lágrima.
Vou ter que me preparar para ir a Fátima a pé, no próximo 13
de maio.
Capítulo XVIII
FIM
Primo,
Passaram já muitos meses sobre a carta que te mandei,
parece-me atraso em demasia para os correios, o que me leva a presumir que não
te sensibilizaram as minhas preocupações.
Ainda bem que não me chegou a tua resposta, pois quando menos
se espera a vida troca-nos as voltas, às vezes para melhor, e deixamos de
pensar na morte, senão para pedir que ela tarde.
Deus não me deu marido e filhos, só parentes distantes, como
tu, que nunca se irão apoquentar com o jeito como um dia irei fazer o caminho
para o céu.
Mas, como te disse, agora quero caminhar mais algum tempo
pela terra e, olhando para trás, também não me parece que quando chegar a minha
hora tenha que dar muitas justificações ao altíssimo.
Como sou empírica, se isto não te soar bem, pergunta aos teus
filhos o que significa, encarreguei uma advogada de se ocupar destas minhas
caquenhices e, já agora, para me lavrar um testamento.
Infelizmente nem sempre o sangue fala mais alto, como é prova
disso a ausência da tua resposta, pelo que vou deixar o pouco que tenho a uns
irmãozinhos órfãos que estão a viver aqui em casa. Um deles quer ser como a
Amália, canta muito bem e deve ter futuro no meio artístico, o outro quer ser
mecânico.
Para eles ficará também o olival, espero que não te
aborreças, como eu nunca me aborreci com o facto de me dizeres que eram os
ciganos que roubavam as azeitonas. Até que eu morra, podes apanhá-las ou
deixá-las para os pardais.
Se um dia me responderes, nem que seja para te mostrares
indignado, não escrevas para esta morada, vou arrendar o apartamento e mudar-me
para a Rua da Junqueira, número 60, cá em Lisboa também, para uma casa onde
servi e onde sou precisa outra vez, tem cómodos suficientes para mim, para a
minha vizinha Carmo, para os órfãos, para a outra criada que lá está, para os
filhos que ela irá ter um dia, para a patroa mais o gaiato, o Eduardinho, que
nasceu há dois meses, de quem vou ser madrinha, tão bonito, parece o menino
Jesus.
Desta que te vai esquecendo.
Quinita
RReinales
03/01/2021
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