Título: A queda de um branco
Autor: R REINALES
Agradeço a revisão
à Mariana V.F.
Incomodava-se com
voos curtos, com o olhar do passageiro do lado de cada vez que ele virava a
página do jornal.
Escritor da moda,
tinha percebido pelo bichanar da tripulação.
Não sabia quem ele
era, pouco tempo lhe sobrava para romances sem vírgulas ou excesso delas,
predicados e sujeitos às avessas, imperfeitos pretéritos.
Conhecia um ou
outro, mediáticos, capas de revistas espalhadas pela casa, que a mulher lia,
comentava com as amigas, até clássicos, Pessoa, tantos Ricardos trocados com
Caeiros, um desassossego.
As suas
literaturas eram gráficos, análises financeiras, económicas nem tanto.
Passou os olhos
por Wall Street e não gostou.
Descruzou a perna,
perturbou o vizinho. Engordava a olhos vistos, não se ralava. Meia dúzia de
fatos novos de marca resolveriam o seu alargamento. Já fora magro e de classe
média. Más lembranças.
Suspirou. A
multinacional tinha fechado Lisboa, mantendo em Madrid o centro ibérico de
decisão, obrigando-o a prestar vassalagem a um espanhol. Questão de tempo, o
nosso toureio é mais subtil, mata-se o animal, mas o povo não assiste. Os
cortes e os despedimentos que fazia com habilidade, os contactos em África e no
Brasil, os seus resultados, cedo levariam a que que fosse ele a ser carregado
pela praça em ombros. O outro para os curros, orelha e rabo.
Dormitava,
cabeceava. Sentiu-se indisposto, estranho. Tirou a gravata e desapertou o
colarinho. O casaco não despia, detestava gente em mangas de camisa. O corpo
parecia mirrar e a pele arrepanhar-se. Deveria ser a comida espanhola, diabo
das tortilhas, parrilhadas, do monótono arroz à valenciana. No vinho nem queria
pensar, azia dupla nos almoços com o castelhano. Tomara chegar a domingo, golfe
em Cascais.
Fez sinal à
hospedeira e pediu água.
Ela trouxe, mas com um sorriso segredou-lhe que regressasse para a
económica, não tinha lugar de executiva. O escritor olhou-o de soslaio.
Espantado,
obedeceu, desorientado, em direção às traseiras do avião.
No corredor, a
indisposição invadiu-o com violência, correu para a casa de banho, trancou-se e
caiu de joelhos para vomitar. Porcaria dos cozinhados dos coños!
Levantou-se, fez
correr água do lavatório. Com as mãos em concha, fechou os olhos e lavou a
cara. Pegou em toalhetes para se secar, deixando-os cair quando viu os dedos
negros como carvão. Batidas na porta, o avião fazia-se à pista, aterravam em
Lisboa, tinha de se sentar. A medo, olhou-se ao espelho e viu-se preto, cabelo
encarapinhado, magro, uma camisa colorida, calças largas penduradas num cinto
velho, de branco só tinha uma barba rala. A visão turvou-se-lhe e caiu
inanimado.
Acordou entre
quatro paredes, sentado.
Entraram dois
funcionários, sorriam, falavam de Cabo Verde, vistos, Espaço Schengen.
Então, Sr. Xavier?
Xavier?
Xavier da
Anunciação. É o que dita aqui o passaporte cabo-verdiano. Deixou caducar o
visto, não pediu autorização de residência, estamos metidos num problema, não
é?
Sentiu que o
problema era só dele.
Preenchiam
papeladas enquanto ele contava, com uma voz algo esganiçada, que não era a sua,
e um sotaque que lhe era estranho, que vivia na Linha, nado em Almada, que se
chamava Pedro, a mulher Isabel, que lhe telefonassem, que era licenciado em
gestão, a Cabo Verde nunca tinha ido, talvez lhe fizesse bem uma semana no Sal,
se calhar era disso que precisava, que se sentia cansado e que nascera mais
branco do que a cal.
A sua mulher está
no Tarrafal, é para lá que tem de ir, Sr. Xavier, para junto da sua família, já
contactámos os nossos colegas de Cabo Verde. Aqui está desempregado, ilegal.
Volta para o seu país, descansa e, quem sabe, um dia destes, tira outro visto e
faz-nos uma visita.
Posso dormitar?
Sim, só tem voo
daqui a 4 horas.
Se eu acordar branco
fica tudo resolvido?
Nem se fala mais
no assunto!
Embarcaram-no,
negro e com espertina.
No avião
bradava-se crioulo, as mães de saias plissadas, lenços coloridos na cabeça,
manchas de suor debaixo dos braços, filhas adolescentes com sotaque alfacinha e
iPhones.
Ele, já sentado,
encolhia-se entre duas mulheres, uma mulata, virava frangos num restaurante em
Campolide, ia à terra, mais músculo do que ele, agora franzino, outra
enfermeira, voluntariado, soube tudo em segundos, estonteado pelo tagarelar de
ambas, ele nada, só silêncios, pois pouco sabia de si.
Viu Lisboa lá do
alto, colinas que eram as mamas da enfermeira, atreveu-se a pensar na queda do
avião, que acabaria com o seu paradoxo, atreveu-se a pensar em Deus, talvez por
vislumbrar o Cristo Rei.
A polícia do seu
novo país nem olhou para o passaporte.
Preto passa.
Como vou para o
Tarrafal?
Não sabes ir para
casa?
Esqueci-me.
Não empates.
Veio maluco este.
Vem, Portugal faz
mal às pessoas.
Sentia um calor
quase africano, um intermédio, como deveria ser tudo naquelas ilhas.
Pôs-se a caminho
da cidade da Praia, única direção nas placas.
Caiu uma carga de
água. Um carro passou sobre uma poça, encharcou-lhe a alma, porque os ossos já
estavam.
Entrou num enorme
contentor vazio. Por fora, umas letras gastas: “Severino & Filhos –
Comércio de Carnes, Lda”, Mem Martins, Sintra.
Sentou-se,
abraçando os joelhos, tremeu até se lhe secar a roupa no corpo e a única nota
que trazia no bolso.
Que fazes aqui? O
contentor é meu!
Abrigo-me.
Procura outro.
Abusado, deves ser angolano, tens sotaque.
Sou português.
Também são
abusados. Conheces a Buraca?
Nunca fui.
Estádio da Luz?
Sim.
Viste o Eusébio
quando era vivo?
Num jantar.
És um pelintra,
pá, como jantavas com o Eusébio?
Era empregado de
mesa, improvisou. Como é que vou para o Tarrafal?
Para esse fim do
mundo? Aquela estrada ali, acena às Iáce.
Alguma vai parar, às vezes não é logo logo.
Iáce?
As carrinhas, pá.
Uma Hiace parou.
Vai para o
Tarrafal?
Vou.
Você é Angolano?
Não.
Tem sotaque, mas
assim mal vestido ... Da Guiné? São Tomé?
Não sei … Cabo
Verde, dizem, vinte euros é o que tenho.
Patrício não paga,
os italianos que levei ao aeroporto deram que chegue.
Falta muito para
chegar?
Ah, agora já fala
crioulo!
Falo?
Você não está
muito bem, velhote, é mesmo daqui?
Dizem que sou o
Xavier da Anunciação.
O marido da
Domingas, o que desapareceu há anos, o pai da mulata mais bonita da ilha, de
olho azul?
Olho azul?
Sim, igual ao seu.
Olhou para o
espelho da carrinha e viu-se negro de olhos azuis. O espanto roubou-lhe a
resposta.
Chegámos, vá lá
ter com a sua Domingas, tem bom coração, vai perdoá-lo, o rapaz não sei …
Tenho filho homem?
Dois, cuidado com
o mais velho ... Vá por esse caminho, é a última casa, a terra cresceu.
Um mar de homens à
entrada. A medo passou entre eles. Burburinho. Deu por si numa divisão escura,
cadeiras pequenas, mulheres sentadas, carpires entremeados com terços, um corpo
num caixão.
Uma jovem com
olhos da cor do céu deu-lhe a mão e apertou-a. Juntos, aproximaram-se de uma
defunta, lenço na cara. A jovem levantou-o e ele viu a sua mulher portuguesa,
branca, fria, toda de cera.
Isabel!
Domingas, pai, ela
preferia que lhe chamassem Domingas.
As pernas
vacilaram.
Abre a janela,
mano, o pai precisa de ar.
Ele que vá
respirar para Portugal, esse ar é nosso.
De que morreu?
De saudades, pai,
morreu de saudades.
Talvez estivesse
em coma, pensou, um acidente, e tinham-no induzido. Seria tudo um sonho no
coma.
Suicídio, o
suicídio poderia servir de tira-teimas. Se estivesse vivo acabaria com a vida,
que não haveria de ser boa coisa, se estivesse morto, morto ficaria, nos
quintos dos infernos. Quente estava, e que havia ali coisa do demo, sem dúvida.
Depois entraram
velhos e novos, parentes e conhecidos, até o Presidente da Câmara. Fechou-se o
caixão, todos atrás do padre para o cemitério, braço dado com a filha, caminho
seco, inundado por um sol que parecia sair da terra, junto com a poeira que se
levantava ao bater de sapatos rotos.
A cova, o barulho
dos torrões a bater na madeira, o som do que termina, do já não estamos aqui a
fazer nada, só o defunto e o coveiro.
Lágrimas azuis
correram pela face da filha. O filho mais novo encostou-se a si. O mais velho,
cara baixa, partiu.
Levantou-se com os
primeiros raios de sol que entravam pelas frinchas das telhas, um quarto
inacabado, porém arrumado, uma cama de casal, colcha de quadrados coloridos, um
espelho enferrujado, mas direito, uma cómoda pobre, mas de pé, um
guarda-vestidos, sem eles, um poster
com uma criança, mão num cravo, numa espingarda. O que fazia aquilo ali? Um
retrato, o seu casamento, ela de branco, ele preto, de preto, olhos muitos azuis,
um sorriso de que não se sabia capaz, algo orelhudo, bonito, contudo.
Atravessou uma
sala, tirou uma banana de uma fruteira que o fez vomitar já na rua.
Seguiu o barulho
do mar, o romper da claridade que ia deixando ver as coisas deste mundo.
Atravessou ruas sujas até chegar a uns bungalows
em cima do areal, coisa para turistas pouco exigentes, pensou.
Bom dia. Lembras-te de mim, o Graciano? Andámos juntos na faina. O povo
anda a espalhar que deixaste as memórias em Lisboa!
Acreditas?
Sim, muito tempo
com os brancos, eles têm memória curta. Que vais fazer?
Tentar recordar-me
deste mar.
Não te vais
afogar, não? Pensei que podias afogar-te, ir ter com a falecida, tratarem dos
vossos assuntos. Era boa mulher, boa mãe, boa peixeira, boa comunista, uma
branca melhor que muita negra, até mudou o nome para Domingas. Não a devias ter
deixado, Xavier.
Não me lembro de
partir!
Se não te matas,
devias falar com a Florência . Lembras-te dela, gostosa, passámos todos por lá?
Agora já só é possuída por almas, fez-se espiritual.
Já lá foste?
Uma vez, quando
precisei de falar com o meu pai, morreu na obra da Ponte Vasco da Gama.
Caiu da ponte?
Caiu dentro da
ponte, no pilar, jazigo grande, já vi na televisão.
Vais para a pesca?
Não, agora faino
em terra, sou o vigilante deste empreendimento.
Esta aldeia dos
macacos?
Sim, viste-os?
O quê?
Os macacos, são
sete.
Vou molhar os pés
na água.
Vais-te matar?
Não, decidi que
não vou para o outro mundo enquanto não perceber o que se passa neste.
Xavier …
Sim?
Perceber este
mundo leva mais que uma vida.
Não te preocupes,
eu tenho duas.
O mar salpicado
ainda de madrugada borrifava-lhe a cara.
Diziam que tinha
sido um deles. Talvez daí a paixão, quando branco, pelo oceano. Esperava que
não vendessem o iate. Podia ter morrido por lá, um cardiovascular digno, à
barra do Tejo, a ver Sintra ao longe.
Deixou-se embalar
pelo murmúrio das águas, olhos fechados, quase em paz, pela primeira vez nos
últimos dias.
Sentiu um sopro
nas pálpebras, bafos pequeninos, adocicados, quase de cachorrinho. Descerrou os
olhos e viu cinco gaiatos escurinhos em cima das suas pestanas. Quatro gritaram
e fugiram, dando risadas, fingindo susto. O quinto, imóvel, narizinho colado ao
seu, olhos azuis … Sorriu-lhe. O pequeno nada, estático, sério.
Tu quem és?
Xavier.
Xavier como eu?
Sim, mas com
lembranças.
Tens boas
lembranças?
Tenho de todas.
E esse olho assim
azul, de onde vem?
De ti, dizia a
avó, somos os pretos azuis da ilha, únicos em toda a África, devíamos estar em
exposição.
Gostavas de ser
exposto?
Sim, correr mundo.
É o que queres
fazer quando fores grande?
Não, isso é
enquanto for pequeno, porque é um sonho.
Não resistiu,
deu-lhe um abraço, que não ofereceu resistência, apesar do ar austero do seu
primeiro neto, até que lhe apresentassem outros.
Perdido em
pensamentos, pai?
Ele contou-lhe o
encontro com o Graciano.
A tua pronúncia estabilizou.
Em qual?
Num português
combinado, africano e brasileiro, aqui e ali de Lisboa, harmonioso, parece que
dança com as letras, que voa com as sílabas, que são os portugueses todos
falados num só, apetece cantar, morna sambada a fado.
Talvez o último,
que não me larga a saudade.
Podemos almoçar
com o meu neto?
Neto?
Sim, o dos olhos
azuis, corria pela praia há pouco, respirou-me doçura na face.
Não tens netos,
pai …
Almoçaram em
silêncio.
A filha separava
espinhas de peixe como quem borda, sem um fio de filete perdido. O filho mais
novo olhava-o. O outro ausente.
Nunca fala, o
miúdo?
Desde que
partiste.
Os vómitos da
manhã ainda o assaltavam. Se de branco passara a preto, por fora, como lhe
estariam as entranhas?
Ninguém morre de
saudades …
Morre sim, pai,
mas no caso da mãe foi cancro. Foi por isso que partiste para Lisboa, para arranjar
dinheiro e cura, desapareceste, voltaste tarde e pobre.
O teu irmão mais
velho parece ter dinheiro …
Não o queremos, é
sujo.
Quantos anos
estive fora?
Dez.
Casado com uma
branca, como, quem era a tua mãe?
A filha do último
diretor da colónia penal, louca por ti, contra tudo e todos, não quis fugir
para o Brasil com a Revolução, escolheu-te.
Passaram dois
meses.
A vizinha
Benvinda, que não o era, pela língua afiada que tinha, entrou pela sala,
berrava que chegava a traineira, a mais linda que tinha visto.
O filho saltou do
sofá, gritou pelo pai, estranhando-se a si próprio e à Benvinda, que bradou
milagre pela voz do miúdo que voltava.
Correram para a
praia, ele apático.
Sentiu a mão da
filha apertar-lhe o braço, trazê-lo ao burburinho da chegada do barco, que a
mãe se estafara por pagar a um pescador do Mindelo, podiam voltar à faina.
Vamos vendê-la,
vamos para Portugal, para a nossa terra.
Largou-lhe o
braço, enxotou a Benvinda, voltou a casa e saiu carregada de luto. Deu a mão ao
irmão, agora mudo para sempre, saíram em direção ao cais, murmurou vamos lá
vendê-la, despedir-nos da barcaça, do pai e de ilusões.
Sentiu uma ponta
de tristeza, superada pelas ganas de regressar à pátria, à Portela, uma bica,
um cigarro sob o céu de Lisboa, que supera qualquer filho, branco ou negro.
Olhou para a baia,
o barco balouçava com uma suavidade enternecedora, a enganá-lo, fitinhas ao
dependuro como se fosse de procissão, bandeirolas.
No areal, caras
tristes, contágio do reluto da filha e da remudez do garoto, a pressentiram
tormenta, até a Benvinda, testa franzida, a pensar no que a sua língua iria
desfiar, o mal-agradecido, a ganância de ir para uma terra que não era dele,
alguma mulata por lá a abrir-lhe as pernas, fala vaidosa, para parir gaiatos de
olho azul, uma praga, um desconcerto, coisa que não era normal num negro que se
quisesse tal.
O barco vendeu-se
num ápice, nunca ele saberia como, a filha a implorar dinheiro ruim ao irmão.
Fez uma mala que
não tinha nada senão coisa pouca, duas camisas, uns sapatos velhos, um champô
para pretos, uma colónia barata para disfarçar o cheiro a peixe.
Pegou na trouxa,
um beijo deixado nas testas imóveis dos filhos e partiu curvado. Teve a
tentação de voltar para trás, vê-los uma última vez, quem sabe falar num
regresso, contar tudo, tim-tim por tim-tim, mas julgá-lo-iam louco, e ele já a
entrar na Hiace.
Você vem todo
branco!!
Verdade??
Branco de pó,
homem, sacuda-se senão suja a carrinha. Vamos lá, que só veio deixar mais
memórias ruins ao Tarrafal.
Nos costumes
ninguém o perturbou.
Sobrevoou umas
ilhas, não sabia se desertas da Madeira, se áridas das Canárias. Pareceu-lhe
que o avião girava para Este.
O comissário
anunciou um problema técnico, tinham de aterrar em Marraquexe.
Incomodou-se com o
contratempo, com o sono, que não chegava, para que acordasse branco.
Horas na pista,
nervos à flor da pele, a sua suando, sentia o cheiro, o passageiro do lado
perguntou se se sentia bem, respondeu com um miado que sim.
Surgiu o piloto,
11 de setembro de 2019, atentados, Paris, Londres, Berlim, Pisa, Istambul, onde
houvesse torres, ordens para desviar o voo, não que a Torre de Belém fosse uma
grandeza, mas torre era sem dúvida.
Entraram polícias
e cães no avião, percorreram branco a branco, preto a preto, ele para o fim.
Jamal, o que faz
um argelino neste voo?
Jamal? Argelino?
Sou cabo-verdiano, acho …
E fala árabe?
Falo …?
Religião?
Cristão.
Podemos ver a
mala?
Espalharam o
conteúdo no banco do lado. Caiu metade da meia dúzia de roupas, o retrato de
uma mulher branca e um Alcorão.
O livro do
profeta?
Inshallah.
Frente a um
espelho do aeroporto, viu-se magrebino, barba densa sem bigode, olhos verdes da
cor do equador, turbante. Achou-se incrível.
Arrependia-se de não
ter riscado tracinhos na parede para contar o tempo que levava na prisão
marroquina, sem uma explicação, um interrogatório.
Espantava-se com o
seu árabe fluente, com o conhecimento dos preceitos muçulmanos. Rezava segundo
eles, sem perceber como.
Tentava saber
novidades do mundo ocidental atacado, recebia encolheres de ombros.
Consolava-se com o
lamento que saía dos altifalantes das mesquitas.
Um guarda mandou-o
amanhar as coisas.
Ainda perguntava se
ia para a forca, quando deu por si à porta da prisão, num bairro empoeirado,
atrás de carros e carroças, sombras e bermas, até se achar no centro da cidade.
Purificou-se na
mesquita como nunca tinha feito antes, até porque era a primeira vez que
entrava numa. Orou, pediu perdão e pão, que lhe deram.
Lembrou-se do seu
país, do primeiro. Pudera ter sido Islão.
Sentou-se num
jardim, casais passeavam à sombra de palmeiras, sonhou ser um deles, uma vida
banal.
Acudiu-lhe mais
forte Portugal, fez-se a Fez, mendigou, lembrou-se do Infante Santo. Não
conseguiu recordar-se porquê.
Fez-se depois mais
ao norte, seguiu andrajosos, asseados, bandos, velhos, novos e por nascer.
Atravessava
barrancos e julgou ver D. Sebastião, pisado por cavalos, caído no chão, com ele
a pátria.
Às portas de Melilha,
semanas deambulando.
Sol a pique, vento
suão, a massa humana a lançar-se sobre redes, farpadas, ele arrastado.
Achou-se esmagado
contra os arames, braços em cruz, rasgado, fora e dentro, olhou os céus,
pediu-Lhe que afastasse o cálice, três da tarde, julgou vislumbrar as quinas,
morrer em Portugal, branco, magro, cabelo comprido, barba, olhos abertos,
Cristo, assim ficou retratado na manchete do dia seguinte.
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