23 de maio de 2020

Conto - A queda de um branco


 







Título: A queda de um branco


Autor: R REINALES

 

Agradeço a revisão à Mariana V.F.

 

 

 A queda de um branco

Incomodava-se com voos curtos, com o olhar do passageiro do lado de cada vez que ele virava a página do jornal.

Escritor da moda, tinha percebido pelo bichanar da tripulação.

Não sabia quem ele era, pouco tempo lhe sobrava para romances sem vírgulas ou excesso delas, predicados e sujeitos às avessas, imperfeitos pretéritos.

Conhecia um ou outro, mediáticos, capas de revistas espalhadas pela casa, que a mulher lia, comentava com as amigas, até clássicos, Pessoa, tantos Ricardos trocados com Caeiros, um desassossego.

As suas literaturas eram gráficos, análises financeiras, económicas nem tanto.

Passou os olhos por Wall Street e não gostou.

Descruzou a perna, perturbou o vizinho. Engordava a olhos vistos, não se ralava. Meia dúzia de fatos novos de marca resolveriam o seu alargamento. Já fora magro e de classe média. Más lembranças.

Suspirou. A multinacional tinha fechado Lisboa, mantendo em Madrid o centro ibérico de decisão, obrigando-o a prestar vassalagem a um espanhol. Questão de tempo, o nosso toureio é mais subtil, mata-se o animal, mas o povo não assiste. Os cortes e os despedimentos que fazia com habilidade, os contactos em África e no Brasil, os seus resultados, cedo levariam a que que fosse ele a ser carregado pela praça em ombros. O outro para os curros, orelha e rabo.

Dormitava, cabeceava. Sentiu-se indisposto, estranho. Tirou a gravata e desapertou o colarinho. O casaco não despia, detestava gente em mangas de camisa. O corpo parecia mirrar e a pele arrepanhar-se. Deveria ser a comida espanhola, diabo das tortilhas, parrilhadas, do monótono arroz à valenciana. No vinho nem queria pensar, azia dupla nos almoços com o castelhano. Tomara chegar a domingo, golfe em Cascais.

Fez sinal à hospedeira e pediu água.

Ela trouxe, mas com um sorriso segredou-lhe que regressasse para a económica, não tinha lugar de executiva. O escritor olhou-o de soslaio.

Espantado, obedeceu, desorientado, em direção às traseiras do avião.

No corredor, a indisposição invadiu-o com violência, correu para a casa de banho, trancou-se e caiu de joelhos para vomitar. Porcaria dos cozinhados dos coños!

Levantou-se, fez correr água do lavatório. Com as mãos em concha, fechou os olhos e lavou a cara. Pegou em toalhetes para se secar, deixando-os cair quando viu os dedos negros como carvão. Batidas na porta, o avião fazia-se à pista, aterravam em Lisboa, tinha de se sentar. A medo, olhou-se ao espelho e viu-se preto, cabelo encarapinhado, magro, uma camisa colorida, calças largas penduradas num cinto velho, de branco só tinha uma barba rala. A visão turvou-se-lhe e caiu inanimado.

Acordou entre quatro paredes, sentado.
Entraram dois funcionários, sorriam, falavam de Cabo Verde, vistos, Espaço Schengen.

Então, Sr. Xavier?
Xavier?
Xavier da Anunciação. É o que dita aqui o passaporte cabo-verdiano. Deixou caducar o visto, não pediu autorização de residência, estamos metidos num problema, não é?

Sentiu que o problema era só dele.

Preenchiam papeladas enquanto ele contava, com uma voz algo esganiçada, que não era a sua, e um sotaque que lhe era estranho, que vivia na Linha, nado em Almada, que se chamava Pedro, a mulher Isabel, que lhe telefonassem, que era licenciado em gestão, a Cabo Verde nunca tinha ido, talvez lhe fizesse bem uma semana no Sal, se calhar era disso que precisava, que se sentia cansado e que nascera mais branco do que a cal.

A sua mulher está no Tarrafal, é para lá que tem de ir, Sr. Xavier, para junto da sua família, já contactámos os nossos colegas de Cabo Verde. Aqui está desempregado, ilegal. Volta para o seu país, descansa e, quem sabe, um dia destes, tira outro visto e faz-nos uma visita.

Posso dormitar?
Sim, só tem voo daqui a 4 horas.
Se eu acordar branco fica tudo resolvido?
Nem se fala mais no assunto!

Embarcaram-no, negro e com espertina.

No avião bradava-se crioulo, as mães de saias plissadas, lenços coloridos na cabeça, manchas de suor debaixo dos braços, filhas adolescentes com sotaque alfacinha e iPhones.

Ele, já sentado, encolhia-se entre duas mulheres, uma mulata, virava frangos num restaurante em Campolide, ia à terra, mais músculo do que ele, agora franzino, outra enfermeira, voluntariado, soube tudo em segundos, estonteado pelo tagarelar de ambas, ele nada, só silêncios, pois pouco sabia de si.

Viu Lisboa lá do alto, colinas que eram as mamas da enfermeira, atreveu-se a pensar na queda do avião, que acabaria com o seu paradoxo, atreveu-se a pensar em Deus, talvez por vislumbrar o Cristo Rei.

A polícia do seu novo país nem olhou para o passaporte.

Preto passa.
Como vou para o Tarrafal?
Não sabes ir para casa?
Esqueci-me.
Não empates.

Veio maluco este.
Vem, Portugal faz mal às pessoas.

 
Sentia um calor quase africano, um intermédio, como deveria ser tudo naquelas ilhas.
Pôs-se a caminho da cidade da Praia, única direção nas placas.
Caiu uma carga de água. Um carro passou sobre uma poça, encharcou-lhe a alma, porque os ossos já estavam.
Entrou num enorme contentor vazio. Por fora, umas letras gastas: “Severino & Filhos – Comércio de Carnes, Lda”, Mem Martins, Sintra.
Sentou-se, abraçando os joelhos, tremeu até se lhe secar a roupa no corpo e a única nota que trazia no bolso. 
 
Que fazes aqui? O contentor é meu!
Abrigo-me.
Procura outro. Abusado, deves ser angolano, tens sotaque.
Sou português.
Também são abusados. Conheces a Buraca?
Nunca fui.
Estádio da Luz?
Sim.
Viste o Eusébio quando era vivo?
Num jantar.
És um pelintra, pá, como jantavas com o Eusébio?
Era empregado de mesa, improvisou. Como é que vou para o Tarrafal?
Para esse fim do mundo? Aquela estrada ali, acena às Iáce. Alguma vai parar, às vezes não é logo logo.
Iáce?
As carrinhas, pá.  

Uma Hiace parou.  

Vai para o Tarrafal?
Vou.
Você é Angolano?
Não.
Tem sotaque, mas assim mal vestido ... Da Guiné? São Tomé?
Não sei … Cabo Verde, dizem, vinte euros é o que tenho.
Patrício não paga, os italianos que levei ao aeroporto deram que chegue.
Falta muito para chegar?
Ah, agora já fala crioulo!
Falo?
Você não está muito bem, velhote, é mesmo daqui?
Dizem que sou o Xavier da Anunciação.
O marido da Domingas, o que desapareceu há anos, o pai da mulata mais bonita da ilha, de olho azul?
Olho azul?
Sim, igual ao seu.  

Olhou para o espelho da carrinha e viu-se negro de olhos azuis. O espanto roubou-lhe a resposta.  

Chegámos, vá lá ter com a sua Domingas, tem bom coração, vai perdoá-lo, o rapaz não sei …
Tenho filho homem?
Dois, cuidado com o mais velho ... Vá por esse caminho, é a última casa, a terra cresceu.
 

Um mar de homens à entrada. A medo passou entre eles. Burburinho. Deu por si numa divisão escura, cadeiras pequenas, mulheres sentadas, carpires entremeados com terços, um corpo num caixão.

Uma jovem com olhos da cor do céu deu-lhe a mão e apertou-a. Juntos, aproximaram-se de uma defunta, lenço na cara. A jovem levantou-o e ele viu a sua mulher portuguesa, branca, fria, toda de cera.

Isabel!
Domingas, pai, ela preferia que lhe chamassem Domingas.  

As pernas vacilaram.  

Abre a janela, mano, o pai precisa de ar.
Ele que vá respirar para Portugal, esse ar é nosso.

De que morreu?
De saudades, pai, morreu de saudades.  

Talvez estivesse em coma, pensou, um acidente, e tinham-no induzido. Seria tudo um sonho no coma.
Suicídio, o suicídio poderia servir de tira-teimas. Se estivesse vivo acabaria com a vida, que não haveria de ser boa coisa, se estivesse morto, morto ficaria, nos quintos dos infernos. Quente estava, e que havia ali coisa do demo, sem dúvida.  

Depois entraram velhos e novos, parentes e conhecidos, até o Presidente da Câmara. Fechou-se o caixão, todos atrás do padre para o cemitério, braço dado com a filha, caminho seco, inundado por um sol que parecia sair da terra, junto com a poeira que se levantava ao bater de sapatos rotos.

A cova, o barulho dos torrões a bater na madeira, o som do que termina, do já não estamos aqui a fazer nada, só o defunto e o coveiro.

Lágrimas azuis correram pela face da filha. O filho mais novo encostou-se a si. O mais velho, cara baixa, partiu.  

Levantou-se com os primeiros raios de sol que entravam pelas frinchas das telhas, um quarto inacabado, porém arrumado, uma cama de casal, colcha de quadrados coloridos, um espelho enferrujado, mas direito, uma cómoda pobre, mas de pé, um guarda-vestidos, sem eles, um poster com uma criança, mão num cravo, numa espingarda. O que fazia aquilo ali? Um retrato, o seu casamento, ela de branco, ele preto, de preto, olhos muitos azuis, um sorriso de que não se sabia capaz, algo orelhudo, bonito, contudo.

Atravessou uma sala, tirou uma banana de uma fruteira que o fez vomitar já na rua.

Seguiu o barulho do mar, o romper da claridade que ia deixando ver as coisas deste mundo. Atravessou ruas sujas até chegar a uns bungalows em cima do areal, coisa para turistas pouco exigentes, pensou.

Bom dia. Lembras-te de mim, o Graciano? Andámos juntos na faina. O povo anda a espalhar que deixaste as memórias em Lisboa!
Acreditas?
Sim, muito tempo com os brancos, eles têm memória curta. Que vais fazer?
Tentar recordar-me deste mar.
Não te vais afogar, não? Pensei que podias afogar-te, ir ter com a falecida, tratarem dos vossos assuntos. Era boa mulher, boa mãe, boa peixeira, boa comunista, uma branca melhor que muita negra, até mudou o nome para Domingas. Não a devias ter deixado, Xavier.
Não me lembro de partir!
Se não te matas, devias falar com a Florência . Lembras-te dela, gostosa, passámos todos por lá? Agora já só é possuída por almas, fez-se espiritual.
Já lá foste?
Uma vez, quando precisei de falar com o meu pai, morreu na obra da Ponte Vasco da Gama.
Caiu da ponte?
Caiu dentro da ponte, no pilar, jazigo grande, já vi na televisão.
Vais para a pesca?
Não, agora faino em terra, sou o vigilante deste empreendimento.
Esta aldeia dos macacos?
Sim, viste-os?
O quê?
Os macacos, são sete.
Vou molhar os pés na água.
Vais-te matar?
Não, decidi que não vou para o outro mundo enquanto não perceber o que se passa neste.
Xavier …
Sim?
Perceber este mundo leva mais que uma vida.
Não te preocupes, eu tenho duas.

O mar salpicado ainda de madrugada borrifava-lhe a cara.

Diziam que tinha sido um deles. Talvez daí a paixão, quando branco, pelo oceano. Esperava que não vendessem o iate. Podia ter morrido por lá, um cardiovascular digno, à barra do Tejo, a ver Sintra ao longe.

Deixou-se embalar pelo murmúrio das águas, olhos fechados, quase em paz, pela primeira vez nos últimos dias.

Sentiu um sopro nas pálpebras, bafos pequeninos, adocicados, quase de cachorrinho. Descerrou os olhos e viu cinco gaiatos escurinhos em cima das suas pestanas. Quatro gritaram e fugiram, dando risadas, fingindo susto. O quinto, imóvel, narizinho colado ao seu, olhos azuis … Sorriu-lhe. O pequeno nada, estático, sério.

Tu quem és?
Xavier.
Xavier como eu?
Sim, mas com lembranças.
Tens boas lembranças?
Tenho de todas.
E esse olho assim azul, de onde vem?
De ti, dizia a avó, somos os pretos azuis da ilha, únicos em toda a África, devíamos estar em exposição.
Gostavas de ser exposto?
Sim, correr mundo.
É o que queres fazer quando fores grande?
Não, isso é enquanto for pequeno, porque é um sonho.

Não resistiu, deu-lhe um abraço, que não ofereceu resistência, apesar do ar austero do seu
primeiro neto, até que lhe apresentassem outros.  

Perdido em pensamentos, pai?
Ele contou-lhe o encontro com o Graciano.
A tua pronúncia estabilizou.
Em qual?
Num português combinado, africano e brasileiro, aqui e ali de Lisboa, harmonioso, parece que dança com as letras, que voa com as sílabas, que são os portugueses todos falados num só, apetece cantar, morna sambada a fado.
Talvez o último, que não me larga a saudade.
Podemos almoçar com o meu neto?
Neto?
Sim, o dos olhos azuis, corria pela praia há pouco, respirou-me doçura na face.
Não tens netos, pai …  

Almoçaram em silêncio.
A filha separava espinhas de peixe como quem borda, sem um fio de filete perdido. O filho mais novo olhava-o. O outro ausente.
Nunca fala, o miúdo?
Desde que partiste.


Os vómitos da manhã ainda o assaltavam. Se de branco passara a preto, por fora, como lhe estariam as entranhas? 

Ninguém morre de saudades …
Morre sim, pai, mas no caso da mãe foi cancro. Foi por isso que partiste para Lisboa, para arranjar dinheiro e cura, desapareceste, voltaste tarde e pobre.
O teu irmão mais velho parece ter dinheiro …
Não o queremos, é sujo.
Quantos anos estive fora?
Dez.
Casado com uma branca, como, quem era a tua mãe?
A filha do último diretor da colónia penal, louca por ti, contra tudo e todos, não quis fugir para o Brasil com a Revolução, escolheu-te.

Passaram dois meses.
A vizinha Benvinda, que não o era, pela língua afiada que tinha, entrou pela sala, berrava que chegava a traineira, a mais linda que tinha visto.
O filho saltou do sofá, gritou pelo pai, estranhando-se a si próprio e à Benvinda, que bradou milagre pela voz do miúdo que voltava.
Correram para a praia, ele apático.
Sentiu a mão da filha apertar-lhe o braço, trazê-lo ao burburinho da chegada do barco, que a mãe se estafara por pagar a um pescador do Mindelo, podiam voltar à faina.

 Não estás feliz pai?
Vamos vendê-la, vamos para Portugal, para a nossa terra.
 
Largou-lhe o braço, enxotou a Benvinda, voltou a casa e saiu carregada de luto. Deu a mão ao irmão, agora mudo para sempre, saíram em direção ao cais, murmurou vamos lá vendê-la, despedir-nos da barcaça, do pai e de ilusões.
Sentiu uma ponta de tristeza, superada pelas ganas de regressar à pátria, à Portela, uma bica, um cigarro sob o céu de Lisboa, que supera qualquer filho, branco ou negro.
Olhou para a baia, o barco balouçava com uma suavidade enternecedora, a enganá-lo, fitinhas ao dependuro como se fosse de procissão, bandeirolas.
No areal, caras tristes, contágio do reluto da filha e da remudez do garoto, a pressentiram tormenta, até a Benvinda, testa franzida, a pensar no que a sua língua iria desfiar, o mal-agradecido, a ganância de ir para uma terra que não era dele, alguma mulata por lá a abrir-lhe as pernas, fala vaidosa, para parir gaiatos de olho azul, uma praga, um desconcerto, coisa que não era normal num negro que se quisesse tal.
O barco vendeu-se num ápice, nunca ele saberia como, a filha a implorar dinheiro ruim ao irmão.  

Fez uma mala que não tinha nada senão coisa pouca, duas camisas, uns sapatos velhos, um champô para pretos, uma colónia barata para disfarçar o cheiro a peixe.
Pegou na trouxa, um beijo deixado nas testas imóveis dos filhos e partiu curvado. Teve a tentação de voltar para trás, vê-los uma última vez, quem sabe falar num regresso, contar tudo, tim-tim por tim-tim, mas julgá-lo-iam louco, e ele já a entrar na Hiace.

Você vem todo branco!!
Verdade??
Branco de pó, homem, sacuda-se senão suja a carrinha. Vamos lá, que só veio deixar mais memórias ruins ao Tarrafal.

Nos costumes ninguém o perturbou.
Sobrevoou umas ilhas, não sabia se desertas da Madeira, se áridas das Canárias. Pareceu-lhe que o avião girava para Este.
O comissário anunciou um problema técnico, tinham de aterrar em Marraquexe.
Incomodou-se com o contratempo, com o sono, que não chegava, para que acordasse branco.
Horas na pista, nervos à flor da pele, a sua suando, sentia o cheiro, o passageiro do lado perguntou se se sentia bem, respondeu com um miado que sim. 
Surgiu o piloto, 11 de setembro de 2019, atentados, Paris, Londres, Berlim, Pisa, Istambul, onde houvesse torres, ordens para desviar o voo, não que a Torre de Belém fosse uma grandeza, mas torre era sem dúvida.
Entraram polícias e cães no avião, percorreram branco a branco, preto a preto, ele para o fim.  

Jamal, o que faz um argelino neste voo?
Jamal? Argelino? Sou cabo-verdiano, acho …
E fala árabe?
Falo …?
Religião?
Cristão.
Podemos ver a mala?  

Espalharam o conteúdo no banco do lado. Caiu metade da meia dúzia de roupas, o retrato de uma mulher branca e um Alcorão.  

O livro do profeta?
Inshallah.

Frente a um espelho do aeroporto, viu-se magrebino, barba densa sem bigode, olhos verdes da cor do equador, turbante. Achou-se incrível.
 
Arrependia-se de não ter riscado tracinhos na parede para contar o tempo que levava na prisão marroquina, sem uma explicação, um interrogatório.
Espantava-se com o seu árabe fluente, com o conhecimento dos preceitos muçulmanos. Rezava segundo eles, sem perceber como.
Tentava saber novidades do mundo ocidental atacado, recebia encolheres de ombros.
Consolava-se com o lamento que saía dos altifalantes das mesquitas.  

Um guarda mandou-o amanhar as coisas.
Ainda perguntava se ia para a forca, quando deu por si à porta da prisão, num bairro empoeirado, atrás de carros e carroças, sombras e bermas, até se achar no centro da cidade.
Purificou-se na mesquita como nunca tinha feito antes, até porque era a primeira vez que entrava numa. Orou, pediu perdão e pão, que lhe deram.
Lembrou-se do seu país, do primeiro. Pudera ter sido Islão.
Sentou-se num jardim, casais passeavam à sombra de palmeiras, sonhou ser um deles, uma vida banal.
Acudiu-lhe mais forte Portugal, fez-se a Fez, mendigou, lembrou-se do Infante Santo. Não conseguiu recordar-se porquê.
Fez-se depois mais ao norte, seguiu andrajosos, asseados, bandos, velhos, novos e por nascer.
Atravessava barrancos e julgou ver D. Sebastião, pisado por cavalos, caído no chão, com ele a pátria.
Às portas de Melilha, semanas deambulando.
Sol a pique, vento suão, a massa humana a lançar-se sobre redes, farpadas, ele arrastado.
Achou-se esmagado contra os arames, braços em cruz, rasgado, fora e dentro, olhou os céus, pediu-Lhe que afastasse o cálice, três da tarde, julgou vislumbrar as quinas, morrer em Portugal, branco, magro, cabelo comprido, barba, olhos abertos, Cristo, assim ficou retratado na manchete do dia seguinte.

 
                                                                                                                    2019
 

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